A “Filosofia Concreta” – retirado de: Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais de Mário Ferreira dos Santos.

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Mário Ferreira dos Santos – Proletário, tema de exploração ideológica.

Giuseppe Pellizza da Volpedo
Imagem: Giuseppe Pellizza da Volpedo.

Invasão vertical dos Bárbaros (Segunda parte, Citação U). Proletário, tema de exploração ideológica – Em todas as épocas da humanidade os que apenas são prestadores de serviço foram sempre vítimas de exploradores astuciosos.

Assim sempre foi, e assim ainda é.
O homem, que outra renda não tem que a do seu trabalho, e que a única riqueza que possui são seis filhos, foi chamado de proletário, porque só a sua prole é o bem que lhe resta, a renda que lhe permitem ter é a que lhe podem dar seus filhos.

Como a sua vida é feita de necessidades, como a sua mesa é quase vazia, como as suas necessidades mais elementares são tantas e exigentes, é natural que esse homem, que esse tipo de homem, tenha exigências imediatas, careça de bens imediatos para satisfazer as suas justas necessidades.

Seus problemas são sempre de urgente solução, porque não pode esperar, porque não espera seu estômago, que pede alimentos; seu corpo, que pede vestes.

Por outro lado, todo homem deseja prestigiar -se ante os seus semelhantes. Todos querem ser, ou pelo menos, parecer que são superiores em alguma coisa. Sempre houve, sempre há e sempre haverá os que desejam impor-se aos outros com alguma superioridade. Um quer ser mais simpático, outro mais forte, outro mais hábil, outro mais rico. Dos que não podem sobressair por nenhum daqueles caminhos, há muitos que buscam sobressair pelo poder político, exercendo este poder sobre os outros.

Quem são eles? São os famintos de prestígio, e que não sabem sofrer a sua fraqueza, os complexados de poder, complexados de inferioridade, que buscam obter um cargo que os torne grandes, porque não são grandes.

Quem é grande não procura ocupar o cargo grande. Quem realmente é grande cria para si a própria grandeza. É grande porque é grande, e não porque ocupa um cargo grande.Quem verdadeiramente se eleva é quem ascende por si, por seus atos e por suas realizações ao posto elevado. Cria o seu lugar, como Pasteur criou o seu na Ciência, como Aristóteles na Filosofia, como Camões criou na literatura.

Nem Pasteur, nem Aristóteles, nem Camões foram grandes porque ocuparam cargos elevados, mas foram grandes porque realizaram obras elevadas.

Aquele que não pode sofrer a sua inferioridade, aquele que não suporta dentro de si a sua pequenez, quer o cargo elevado, porque julga que ocupando um pedestal, e estando, mais alto que os outros, é realmente maior que os outros. E eis porque o proletário, em todas as épocas, ontem, hoje e talvez ainda amanhã, há de ser sempre o grande procurado, o grande explorado pelos que desejam ascender aos altos postos, pelos que não podem erguer-se por si mesmos, porque, na verdade, não são grandes, mas podem erguer-se sobre as suas esquálidas costas aos postos grandes para parecerem grandes.

E como procederam? Exploraram a sua miséria, exploraram a sua carência, exploraram a sua boa fé, exploraram a sua ignorância, exploraram a fome de seus filhos, a seminudez e os andrajos de sua companheira, exploraram a urgência de suas necessidades, e lhe prometeram, então: que lhe dariam, já, imediatamente, o que já e imediatamente ele precisa; exploraram o seu imediatismo, que o faz vibrar ante a promessa do prato de comida, da veste para seu corpo quase nu, da casa humilde que não tem.

E como nada recebia de melhor do que esperava, eles sempre justificaram a sua falta, culpando a outros. Eles sempre encontraram culpados para explicar, porque não lhe deram o que lhe prometeram. Eles nunca são os culpados, mas os outros. Quem são esses outros? Acaso são tão diferentes dos primeiros? Não são outros que os primeiros, que são outros para os segundos? Uns acusam os outros mutuamente.Todos, quando falam, são angelicais criaturas que só pensam no bem. Os outros, sim, esses só fazem o mal. O proletário que ouça o que uns dizem dos outros, as ofensas e as injúrias que uns atiram aos outros.

Uns, são para os outros os traidores do povo. Todos se acusam mutuamente de traidores. Pois, na verdade, são todos traidores do proletário, do eterno atraiçoado , do eterno explorado, do eterno sofrido de injúrias e misérias.

Mas, por acaso, é o proletário apenas vítima? Sim, é vítima da sua ignorância e da sua fome, vítima da urgência das suas necessidades, vítima do seu apetite insofreável.

Mas é culpado, porque ouve a quem não devia ouvir; é culpado, porque crê em quem não devida crer; é culpado, porque serve a quem não devia servir; é culpado, porque segue a quem não devia seguir.

Nunca, na história da Humanidade, conseguiu um pouco mais que não saísse de suas mãos, porque é de suas mãos que sai toda riqueza do mundo. Nunca foram os outros que o ergueram, mesmo aqueles que saem de seu seio para pregarem que o ajudarão.

Os que sempre, em toda história, se proclamam os amigos do proletariado, sempre foram os mais ricos, os mais poderosos, os de vida mais suntuosa. Os seus verdadeiros benfeitores jamais andaram à caça de altos cargos. A maioria é dos mesmos fariseus hipócritas, os que desejam que permaneça na ignorância e na miséria, porque sabem que se tiver o estômago cheio, seu corpo vestido, sua casa humilde e boa, sua companheira e seus filhos sorridentes e alegres, não ouvirá mais os desejosos de ascender sobre os degraus de sua fome e de suas necessidades. Jamais eles lhe darão meios de alcançar o bem-estar, porque o seu bem-estar o levará ao desinteresse pela política e, então, como subirão eles?

Enquanto tiver fome, eles terão um meio de explorar as suas necessidades, somando-as em votos, que os erguerão aos cargos nos quais são investidos, porque os cargos, que o homem cria pelo seu trabalho e sua inteligência, estes estão proibidos para eles, porque não são grandes, apenas querem parecer que o são.

Em todos os tempos o proletário só conseguiu erguer-se um pouco acima da sua pobreza, quando, por si mesmo, pelo seu trabalho, pelo seu esforço combinado com os de seus irmãos, ele mesmo criou a riqueza para si.

O seu verdadeiro amigo não é aquele que lhe pede o voto, mas aquele que lhe ensina como melhorar a sua vida, aumentar o seu salário, mas aumento real e não fictício, aumento verdadeiro, e não apenas somar um zero, quando, nos preços, os zeros se multiplicam.

Foi quando chegou ao seu companheiro e lhe perguntou: que podemos nós dois fazer juntos para ajudar-nos a sair da situação em que estamos? Não podemos juntar outros companheiros, como nós, e cooperarmos juntos para fazer alguma coisa real que possa melhorar a nossa vida?

“Não podes tu ajudares a construir a minha casa, e eu a tua. Não poderemos os dois ajudar outros, e eles ajudarem a nós?”

 

Mário Ferreira dos Santos – “Por que Reler Mário Ferreira dos Santos Hoje?”.

Mário Ferreira dos Santos
Filosofo Brasileiro: Mário Ferreira dos Santos.

Autor de uma “Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais”, com mais de 35 títulos, dezenas de traduções diretas do grego, do latim, do alemão e o francês, de obras do Platão, Aristóteles, Pitágoras, Nietzche, Kant, Pascal, Santo Tomás, Duns Scott, Amiel, Walt Whitman, incursionando sobre temas da filosofia clássica, escolástica, tomista, moderna e contemporânea, ainda dissertou sobre oratória e retórica, lógica e dialética, além de escrever ensaios e romances, muitos sob pseudônimos diversos.

Estudando e lecionando silenciosamente por mais de 30 anos, desenvolveu um método particular de pesquisa, a decadialética, e criou uma filosofia própria, que denominou de Filosofia Positiva e Concreta, e que divulgou largamente em sucessivas edições de suas obras, através de editoras que constituiu e dirigiu pessoalmente, a Livraria e Editora Logos e a Editora Matese.

“Estudando e lecionando silenciosamente por mais de 30 anos, desenvolveu um método particular de pesquisa, a decadialética, e criou uma filosofia própria, que denominou Filosofia Positiva e Concreta.”

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MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS – QUEM FOI ESTE FILÓSOFO?

  Em autobiografia publicada postumamente em Rumos da Filosofia Atual no Brasil 1, conta que nasceu a 3 de janeiro de 1907, em Tietê, São Paulo, mas foi educado em Pelotas, Rio Grande do Sul, estudando direito em Porto Alegre, onde se formou em 1930.

Escrevia em jornais de Pelotas e no Diário de Notícias e Correio do Povo, daquela capital, e como jornalista participou da revolução de 30, mas por seu caráter independente e liberal, conheceu a prisão pelas críticas ao novo regime.

Durante a Segunda Guerra analisou em dezenas de artigos os episódios da conflagração, posteriormente reunidos nos livros Páginas Várias, Certas Sutilezas Humanas, A Luta dos Contrários e Assim Deus Falou aos Homens.

Nessa época, já traduzira Nietzche (Vontade de Potência, Além do Bem e do Mal, Aurora, e Assim Falava Zaratustra) 2; Pascal (Os Pensamentos e Cartas Provinciais) 3; Amiel (Diário Íntimo) 4; e Balzac 5.

Por sentir restrito aquele círculo cultural, transferiu-se para São Paulo, em 1944, a fim de publicar seus estudos.

Sob o pseudônimo de Dan Andersen, editou seu primeiro ensaio filosófico, Se a Esfinge falasse 6, e ainda traduziu as notáveis obras Saudação ao Mundo, de Walt Whitman, Adolphe, de Benjamin Constant; Herrmann e Dorotea, de Goethe e Histórias de Natal 7.” [ Artigo…]

Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais […]

Mário Ferreira dos Santos, Mario Ferreira dos Santos - Obras, Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais.
Mário Ferreira dos Santos – Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais.

Mário Ferreira dos Santos – BRASIL — UM PAÍS SEM ESPERANÇA?

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BRASIL — UM PAÍS SEM ESPERANÇA?

Homenagem Póstuma

“Brasil — Um País sem Esperança?” é um manuscrito que nos deixou Mário Ferreira dos Santos, falecido em 11 de abril de 1968, aos 61 anos de idade. Publicamos este manuscrito inédito como homenagem ao conhecido Filósofo brasileiro, autor de mais de 70 obras filosóficas. Contendo alguns aspectos fenomenológicos do homem brasileiro, a presente pesquisa fica inserida na I Dimensão do Tema geral da semana Filosófica, como uma valiosa contribuição para a nossa reflexão construtiva.

O manuscrito foi elaborado nos anos de 1964/65, quando declarava o Pensador: ” . . . idéias pouco construtivas invadem o ambiente cultural brasileiro” e ” . . . atravessamos um dos momentos mais difíceis de nossa história” . Por conseguinte, o trabalho deve ser interpretado, colocando-se no quadro das circunstâncias daquela época.

Considerando a falta de preparo intelectual e cívico de nosso povo e desejando levar, sobretudo à juventude, o conhecimento de nossa realidade, o Prof. Mário Ferreira dos Santos escreveu esta obra como parte da coleção: “UMA NOVA CONSCIÊNCIA”, cuja finalidade era abrir novos horizontes à nossa consciência, uma consciência do Brasil. Ela seria completada com a obra: “Brasil, País de Exceção”, em uma seqüência de estudos referentes a nossa terra, que revelaria o caráter de excepcionalidade que é peculiar ao Brasil. Após uma análise em profundidade, quis finalizar com um vasto estudo concreto da realidade brasileira. Mas, infelizmente, só uma parte do manuscrito ficou terminada.

A morte surpreendeu o Pensador em seu trabalho. Entretanto, o que conseguiu no campo editorial, numa luta insana para despertar em cada brasileiro o interesse pela cultura, especialmente pela Filosofia, é a prova cabal de seu amor pelo saber. Justifica, pois, a homenagem póstuma que prestamos ao Pensador,
que dedicou quase 40 anos à atividade filosófica. 

I — PANORAMA GERAL DO MUNDO E DO BRASIL

  A perplexidade do homem moderno em face do panorama do seu mundo, que se apresenta para ele não só comparando-o com o passado nem com as possibilidades do futuro, mas também, sobretudo, quanto à realidade do presente, é um tema que preocupa a todas as consciências no momento atual.

O desenvolvimento que verificamos no decurso da História, desde g, Idade Média, através do Renascimento, e da Idade Moderna, chamada a Idade Contemporânea, verificamos, sobretudo no Ocidente, que, à proporção que o ser humano foi encontrando soluções de cará-ter técnico e científico, que beneficiaram sumamente as populações e resolveram inúmeros de seus problemas, contudo as grandes e mais profundas preocupações continuaram de pé. O homem não conseguiu resolver a seu contento aqueles mesmos problemas que aguçavam a sua curiosidade, que desafiavam a sua inteligência, no referente não só ao sobrenatural como também quanto a sua própria realidade.

Sem dúvida nós observamos uma linha ascensional impressionante, que se deve ao progresso científico das grandes descobertas, não só sobre o nosso planeta como sobre o universo inteiro, como também as tremendas expansões dentro da própria alma humana, invadindo-lhe os mais recônditos lugares, onde parecia ser impossível que nós, com os meios de que dispúnhamos, seriamos capazes de penetrar; mas, simultânea e paralelamente ao desenvolvimento desses conhecimentos e dessas conquistas — porque a ciência se transformou, na mão do homem ocidental, numa técnica de domínio das coisas, do mundo e do próprio homem — os problemas mais agudos, mais exigentes, as perguntas que lhe aguçaram a curiosidade através dos tempos, continuaram em pé, não encontrando respostas satisfatórias de modo suficiente a apaziguar o seu espírito.

E, à proporção em que ele foi encontrando soluções para uma série de problemas de caráter técnico-científico, sua inquietação permaneceu e permanece, no referente ao que ele é, ao que ele significa, qual o seu verdadeiro papel e também o que o ultrapassa, o que o transcende, que continua exigindo-lhe respostas, um reexame das respostas religiosas e das respostas filosóficas, já que ele sente que a própria ciência não seria meio suficiente para lhe dar a solução desejada.

Também o aumenta de bem-estar, as conquistas materiais, que pareciam ser suficientes para dar ao homem um estado de tranqüilidade, de segurança, aumentaram a sua própria insegurança e ampliaram a faixa de preocupações; e o homem verificou que a paz, a verdadeira paz, a mais desejada, a mais profunda, não era alcançada em nenhum setor, nem no mundo econômico, nem no mundo sociológico, nem no mundo psicológico, nem no mundo religioso, nem no mundo místico.

Sem dúvida, não há conceito de que todos usem tanto e tão poucos saibam o que realmente significa como o conceito de paz. Para muitos a paz nada mais é que a ausência da luta cruenta entre os seres humanos, organizados ou não; a paz seria apenas a ausência do choque dos contrários, seria a ausência das oposições, seria apenas a estagnação, o que não é genuinamente o que se deve entender por paz.

Ora, se se estudar devidamente este conceito, como muitos o fizeram, e o fizeram em profundidade, verifica-se que ele realmente se funda na vontade e implica uma tranqüilidade na ordem, não, porém, necessariamente na aniquilação dos opostos, nem do choque das antinomias, nem do pólemos das oposições.

A paz implica, necessariamente, a concórdia; implica a união, ou, pelo menos, a cooperação dos opostos, para alguma realização, para a consecução de algo que não venha em prejuízo da natureza dos opostos; ou em suma, para atingir resultados que sejam convenientes à natureza dos oponentes. Se a paz entre os homens não pode evitar a nítida compreensão da justiça, também a paz dentro do homem não pode evitar a mesma compreensão.

Não nos adianta permanecer dentro de uma paz mera-mente aparente, uma paz dos túmulos. O que nós desejamos, e real-mente o desejamos, e é o que realmente devemos desejar, é a paz que se estabelece na feliz cooperação dos opostos, de modo a que os resultados obtidos sejam convenientes, benéficos aos termos que entram nessa oposição, e que possam, deste modo, não só ampliar os benefícios próprios, como estabelecer, também, bases mais seguras para a sucessão dos acontecimentos; não só dos oponentes, como do que venha a decorrer no desenvolvimento do tempo. Mas uma paz mais verdadeira e mais desejada que aquela que apenas nos tranqüiliza dentro do campo das coisas de que necessitamos, que cria uma tranqüilidade na ordem de consecução desses mesmos bens, mas, sobretudo, aquela paz que tranqüiliza a nossa mente, que dá serenidade ao homem, interiormente, aquela paz que sobrevêm quando o ser humano consegue compreender a si mesmo, saber qual o seu papel, ter uma noção clara do seu destino e ter confiança de que o que realiza, o que propõe, o que empreende não venham trazei amanhã, resultados adversos, perniciosos. A verdadeira paz é aquela que se funda, não só nos corações, não só na afetividade humana mas, sobretudo, na mente superior do homem, nas suas idéias, nas suas concepções, na sua maneira de interpretar as coisas.

Realmente esta foi sempre a aspiração do homem; ele aspirou à paz em toda a gama de suas possibilidades, e alcançar um desfecho que fosse a plenitude da tranqüilidade de sua alma, de seu espírito, de sua mente; aquela paz prometida na bem-aventurança de todas as grandes religiões dos ciclos culturais superiores, aquela paz que consiste, propriamente, no termo final anelado por todos os homens que se dedicaram ao estudo das nossas visões transcendentais.

O que é fundamental no ser humano é, sem dúvida, o sentir-se um ser inseguro e também o que é mais fundamental do seu anelo é a segurança. A insecuritas, tema tão profundamente analisado pelos místicos da Idade Média, é o index mais perfeito do que somos em nossa última realidade.

Porque somos deficientes, contingentes, sujei-tos aos azares dos acontecimentos, dispondo de meios defensivos mínimos, e ainda agravados pela nossa ignorância que faz com que nos sintamos inseguros, não só quanto ao nosso presente, mas, sobretudo, quanto ao futuro; este estado de insegurança nos acompanha desde que nascemos e certamente desde que fomos gestados. Mas depois que passamos por aquele estágio de certo amparo e de certa segurança de nossa vida intra-uterina, o próprio trauma do nosso nascimento a nossa súbita penetração no mundo que nos parece hostil, inóspito, contrário, deve-nos marcar profundamente este sentir da nossa insegurança e, desde então, não mais nos abandona, está presente em todas as nossas aspirações, está presente em todas as nossas realizações, porque tudo o que o homem fez, tudo quanto o homem construiu, tudo quanto imaginou tem sempre o estigma, da sua insegurança, a exigir-lhe soluções que possam diminuir e até terminar esse estado em que ele se encontra de verdadeira trepidação, de verdadeiro medo ante o seu estado atual e sobretudo ante o seu futuro.

O homem é, assim, também filho da insegurança. Não pode nem deve desprezá-la, porque não só é uma exigência invariante da sua natureza, como também ela constantemente o interroga e o açula para que encontre a solução de um instante que perdure, que ultrapasse o presente, que invada o futuro, e que lhe assegure aquele estado de equilíbrio, de concórdia, e de reconciliação que o homem deseja.

Não se poderia compreender essa ansiedade pela paz que anima todos, em todos os tempos, se nós não fôssemos, por natureza, seres inseguros, seres dominados pela insegurança, e também seres que, ao perscrutar o futuro, nem sempre dispõem de meios suficientes para poder saber o que devemos fazer para evitar os perigos que nos ameaçam, tanto os reais como, sobretudo, os imaginários.

A psicologia de profundidade deve, mais do que nunca, preocupar–se com esse tema, porque se, ao mesmo tempo, o ser humano se apresenta para nós como uma entidade contraditória, já que é sem dúvida anelante de paz e tranqüilidade, ao mesmo tempo é agressivo e contendor, ao mesmo tempo é contricante, parece-nos que ele se balança entre duas tendências primordiais, fundamentais, originárias: uma que aspira à paz, à tranqüilidade, à concórdia, e, ao mesmo tempo, a que aspira à luta, à discórdia, ao ódio, ao pólemos.

Não foram poucos os filósofos que, ao se dedicarem a esse estudo, estarreceram-se ante a grande messe de razões favoráveis à paz, mas também a grande messe de razões favoráveis à guerra. Viram que o homem era um ser que se balançava entre motivações opostas, umas que buscavam a concórdia, outras que aspiravam pela discórdia.

Então não souberam resolver esse problema ante essa oposição, concluindo uns que o homem é por natureza um ser pacífico e outros que o homem é por natureza um ser guerreiro. A verdade, porém, a mais profunda verdade psicológica, é aquela que sintetiza os opos-tos, que participa dos opostos, que é partirn partim.

É o homem, simultaneamente, um ser aspirante de paz, e um ser aspirante de guerra, um ser que aspira à concórdia e também à discórdia, um ser que ama e um ser que odeia. E essas oposições não podem ser liquidadas; todas as tentativas de destruir uma em benefício da outra malograram, porque quiseram violentar o que era da condição do próprio homem.

Em face dessa realidade, só nos cabe procurar a solução cooperadora entre os opostos, aquela que possa encaminhar-nos de modo que eles sejam convenientes à própria natureza do homem, não só considerado na sua estaticidade, mas também na sua dinamicidade, na sua cinematicidade; não só como indivíduo, mas também como componente de uma totalidade, de um grupo, de uma série, de um sistema e do universo cultural.

Essas oposições colocam o homem aparentemente numa situação insolúvel e parecem indicar que jamais encontrará uma forma de fazer coincidir os opostos numa realização cooperacional. Ê um postulado que exige uma demonstração apodítica, uma demonstração fundada em princípios sobre os quais não possa pairar a menor dúvida. E isto, esta demonstração, nenhum dos partidários dessa posição até hoje conseguiu fazer dentro das exigências rígidas,; de uma demonstração profundamente lógica e dialética.

Muitos poderão dizer, contudo, que também a prova dessa coope-ração entre os opostos não foi feita. Mas essa cooperação entre os opostos não exige tal prova, porque tem se evidenciado pela própria experiência humana. Temos encontrado na vida social humana a oposição entre os contricantes, o pólemos, contribuindo para realizar obras proveitosas. Contudo, nós não podemos deixar de reconhecer que a época em que nos encontramos se caracteriza por esse aspecto; o homem de hoje, como o homem de sempre, de todas as eras, aspira pela paz e, no entanto, também tudo faz para fomentar a guerra, a luta, a discórdia.

E ao verificar esse estado de coisas, e não sabendo como dar uma solução às suas condições, a essa inevitabilidade dos opostos ele entra em estado de desesperança, ou seja, não espera, não aguarda, não se detém antes de tudo com a certeza de que lhe dará de modo seguro aquele estado de paz por ele desejado. Esse é o verdadeiro panorama que encontramos no mundo atual; e a heterogeneidade, que ele revela, é apenas de caráter inconsciente.

Em alguns povos notamos que o ímpeto guerreiro ou pacífico é mais acentuado que em outros mas, extensivamente, se há um impulso de discórdia, de ódio, de guerra, há uma profunda aspiração da paz, que vem relatado, testemunhado, desde que temos consciência de nós mesmos dentro da história, por todos os movimentos de aspiração por um mundo melhor, em que os homens possam olhar face a face, olhos sobre os olhos, os braços estendidos de uns para os outros num amplexo fraternal, e que possam dizer com o coração e com as palavras: irmãos, somos amigos, trabalhemos juntos, construamos juntos um mundo melhor para todos nós.

Essas palavras incluem dentro delas uma longa problemática, que vamos começar agora a analisar nos próximos capítulos, para depois, de posse desses elementos tomados analiticamente, aproveitá-los para fazer um estudo concreto da nossa realidade, da realidade brasileira, e podermos dar uma resposta a essa pergunta: Brasil, um país sem esperança? [Continua…]


LINK ISSUU: Mário Ferreira dos Santos – BRASIL — UM PAÍS SEM ESPERANÇA?

Mário Ferreira dos Santos – A Revelação dos Livros Sagrados, O APOCALIPSE DE SÃO JOÃO.

Sâo Joao
Imagem: Apocalipse de São João.

Apresentação:

   Dentre os vários manuscritos deixados pelo filósofo Mário Ferreira dos Santos, destaca-se O Apocalipse de São João, não só pela atualidade do tema, mas sobretudo por vir o texto sagrado acompanhado de comentários que se baseiam em uma análise hermenêutica e simbólica. Este trabalho exegético faz com que o texto se torne claro, límpido, apesar de São João ter usado de uma linguagem enigmática; passível de inúmeras interpretações.

Nas palavras do autor trata-se de um livro “eternamente atual”, já que o homem se ergue nesta escada mística, partindo da sua animalidade, que é o fundamental, o primordial, para alcançar os mais altos estágios, aqueles que Cristo nos indicou e que Ele simboliza.

O Apocalipse de São Joãofoi transcrito de gravações realizadas durante o período de 1965 e 1966; não tendo o autor revisado o original. O texto básico utilizou a Bíblia Sagradado Pe. Antônio Pereira de
Figueiredo, sem a preocupação de seguir com absoluta fidelidade o original. A bibliografia refere-se às obras da biblioteca particular do autor.

Yolanda Lhullier dos Santos
Nadiejda Santos Nunes Galvão

Análise hermenêutica e simbólica

O Apocalipse de São João é o título dado pelo apóstolo João ao Apocalipse de Jesus Cristo, a Revelação de Jesus Cristo. Porém uma questão se coloca: por que o apóstolo usou de uma linguagem simbólica e, até certo ponto, enigmática? Seria porque redigiu o texto quando desterrado, na ilha de Patmos e, pretendendo levá-lo aos seus correligionários, usou de uma linguagem secreta para evitar que os romanos o interpretassem diferente de sua intenção¹?

O gênero apocalíptico surge no século 2 a.C. e há inúmeras outras obras de autores hebreus sobre este tema. A de São João possivelmente foi redigida no período de 90 a 70 d.C. e nela estão presentes imagens simbólicas e enigmáticas. As simbólicas nas sete setenárias – sete igrejas, sete selos, sete trombetas, etc. – permitem afirmar que tudo gira em torno deste número que, para os pitagóricos, é o símbolo da unidade no seu máximo dinamismo, na sua realização evolutiva. É o primeiro número primo da década, cuja multiplicação, cujo primeiro multiplicador, está fora dela.

Não há dúvida de que, para a melhor compreensão do Apocalipse, exige-se um melhor conhecimento de aritmologia, uma noção mais profunda da simbólica dos números. Chamaremos a atenção, no decorrer da interpretação, do significado simbólico que tem os números que São João usa, onde veremos que sempre predomina o sete e as séries setenárias, e em torno deste número gira a trama simbólica que ele põe em análise.

Quanto à autenticidade, se é de São João ou de um de seus discípulos é matéria controversa e, mesmo nos dias de hoje, os livros da Igreja afirmam que o Apocalipsenão é uma questão de fé. Segundo comentaristas da Bíblia – os professores de Salamanca – caso ele tivesse sido escrita por um discípulo de João teríamos o mesmo problema levantado quanto à Epístola aos hebreus de um discípulo de São Paulo; o que não impede que o Apocalipse seja inspirado, do mesmo modo que os outros livros do Novo Testamento.

¹Dizer-se que o Apocalipse é indecifrável seria negar, então, que é um livro de revelação; ora se “apocalipse” significa revelação não pode, consequentemente, ser um livro indecifrável.

Alguns estudiosos afirmam que o Apocalipse não é de São João, pois há diferenças estilísticas em relação ao 4º Evangelho,também de sua autoria. Para outros as divergências encontradas são pequenas o que não confirma esta hipótese. Por exemplo: no Apocalipse e no quarto Evangelho o termo “logos” aplicado à Cristo é característica de João, assim como as expressões “água viva” ou “água de vida”, “testemunho”, e “verdadeiro”. Há, evidentemente diferenças de linguagem que poderiam ser explicadas em parte do gênero literário apocalíptico empregado pelo autor e, talvez, porque João, desterrado na ilha de Patmos (condenado provavelmente à trabalhos forçados), não tenha tido a tranqüilidade e o ânimo suficiente para redigir um texto em estilo elegante e polido. É provável que não tivesse ao seu lado nenhum discípulo helenista que pudesse corrigir sua obra, já que a escreveu em grego. Por outro lado, para a redação do 4º Evangelho, ele teve a colaboração de amanuenses e revisores.

Segundo São Jerônimo, o apóstolo deve ter recebido as “visões” pelos anos 14 ou 15 de Domiciano, ou seja, 95 d.C. Outrosautores não confirmam esta data, pois as “visões” teriam se dado antes. De qualquer forma se pode dizer que o texto foi contemporâneo ao quarto Evangelho.

Enquanto o Apocalipse usa os métodos simbólico e enigmático, o Evangelho só usa o primeiro. No entanto como o Apocalipsedurante o terceiro século d.C. sofreu interpretações favoráveis à certas posições consideradas heréticas pela Igreja, foi colocada em dúvida a sua origem apostólica por grandes autores desta época, como por exemplo, São Dionísio, que foi bispo de Alexandria, mas não a sua canonicidade. Outros autores como Eusébio de Cesaréia, São Cirilo de Jerusalém, São Gregório de Nazianzo, São João Crisóstomo, Teodoreto não citam o Apocalipse, e parece, conforme assim se interpreta, que eles não o consideraram como um livro sagrado e esta foi a posição dentro da Igreja nos primeiros séculos.

Só posteriormente foi formalizado o seu valor canônico e apostólico, posicionamento que pode ser explicado pelo fato de que, ao surgir, colocaria em risco a posição da Igreja, o que não aconteceu, e foi considerada então uma obra apostólica.

Porém, com que finalidade foi redigido? Segundo os intérpretes de Salamanca, foi dirigido às sete igrejas da Ásia Menor (pró-consular), em Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Filadélfia, Sardes, Laodicéia e Tiatira, que, respectivamente, não representavam a totalidade das igrejas da região e foram escolhidas por motivos discutidos pelos exegetas. Para os professores da Salamanca, os cristãos se opunham ao culto imperial, o que desencadeou uma cruenta perseguição contra eles.

São João quis, com a obra, consolá-los e infundir-lhes novo valor para que lutassem por Cristo. Outro aspecto é a insistência com que é apresentado o poder pagão da época; como uma força que luta encarnecidamente contra Cristo e sua Igreja, são “anti-cristos”, personificações de forças coletivas do mundo, não só de sua época, mas também da nossa, que pelos séculos vêm tentando destruir o poder de Jesus Cristo.

Comentaremos a doutrina do Apocalipse à proporção que for feita a interpretação dos versículos e dos capítulos, intercalando-os com explicações que julgarmos necessárias.

Notícia sobre a obra: O Apocalipse de São João é um livro atual, eternamente atual, que indica o caminho da iniciação cristã. Esta se dá por meio da interiorização, pela via esotérica, pela elevação da mente na procura de Cristo.

O Cristianismo se caracteriza por ser uma ordem iniciática de virtudes, do que há de mais elevado no homem. São João usou de uma linguagem, sem dúvida, enigmática, uma das razões que levou inúmeros estudiosos a afirmar que o texto sagrado não seria do apóstolo, mas este é um aspecto secundário; apesar de ser tema de inúmeras discussões por parte de exegetas, pois o que interessa é a mensagem, a novidade que o texto traz, apesar de estranho no contexto dos livros sagrados, por permitir interpretações controversas.

O autor, através da análise hermenêutica e simbólica, reitera a validade das “visões” do profeta, desvelando a sua mensagem de uma maneira clara, límpida e cristalina.

Mário Ferreira dos Santos – Filosofia e Cosmovisão, Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais – Sinopse 01.

Mário Ferreira dos Santos - Filosofia e Cosmovisão
Mário Ferreira dos Santos, Filosofia e Cosmovisão – Link: Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais Catalogo.

Filosofia e Cosmovisão, do filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos, é, ao mesmo tempo, introdução à filosofia, apresentação enciclopédica de ideias filosóficas e obra de um filósofo original. Dito de outro modo, o presente volume é didático, erudito e profundo. Como diz o autor, não se aprende filosofia sem filosofar. Este livro, portanto, “é um convite à filosofia, uma incitação ao filosofar”.

“Um professor alemão, o primeiro a iniciar-me nos estudos de Filosofia, conhecedor de nosso povo, costumava manifestar-me a sua admiração pela inteligencia de nossa gente.

Para êle que percorrerá tantos países, que ministrara lições em tantas universidades e escolas do Ocidente e do Oriente, era o brasileiro o aluno mais vivo, mais inteligente, mais sagaz no raciocínio, e de mais profundas intuições que conhecera.

No entanto, punha uma restrição. Julgava-nos demasiadamente inquietos e desequilibrados quanto ao conhecimento. Afirmava-me ter encontrado grandes valôres, homens de capacidade extraordinária, mas, em muitos aspectos, falhos de certos conhecimentos elementares, que eram como abismos por entre cumes de montanhas,

Atribuía êsse desequilíbrio  à natural pressa dos povos americanos e à falta de disciplina mais rígida no trabalho. Nessa época, considerava eu suas palavras um tanto exageradas. Mas com o decorrer do tempo, e através de aulas e enúmeras conferencias, palestras e debates que empreendi, verifiquei assistir ao meu velho e venerado mestre uma grande soma de verdade.

Atribui-se êsse nosso defeito ao Autodidactismo que todos sem excpeção, neste país, somos obrigados a seguir. Sempre fui um admirador dos autodidatas porque um estado apurado da historia e da biografia de grandes homens, revela-nos que entre os maiores criadores, o numero dos autodidatas é sempre maior do que daquêles presos a o de uma escolaridade rígida, quase sempre prejudicial à capacidade criadora.

Não seria, porém, êsse apenas o factor decisivo, pois outros poderia ainda ser propostos.

Foi considerando tais aspectos reais de nosso povo que ao empreender os meus cursos, e depois decidir, a pedido de tantos alunos, transformá-los em livros, compreendi que não deveria ministrar filosofia, no Brasil, seguindo os métodos de povos que tem uma disciplina de estudos muito diferente da nossa.

Por esta razão, sempre julguei que, ao lado do tema mais profundo, havia sempre de considerar aquêles abismos de que êle me falava. Foi essa a razão que me levou, ao publicar êste primeiro livro da série de meus cursos de Filosofia, a usar uma linguagem dentro de certo rigor filosófico, mas considerando, na exposição, êsses abismos e nunca pressupor o conhecimento, por parte do leitor, de certos aspectos elementares da filosofia, que devem e precisam desde logo ser esclarecidos.

E foi pensando assim que executei essa obra desde uma explanação mais simples até, na COSMOVISÃO, (segunda parte do livro), tratar dos temas da filosofia, embora ainda de forma sintética, com uma linguagem mais rigorosa.

É possível que muitos dos leitores, que já manusearam livros de filosofia, e já tiveram contacto com o pensamento filosófico, encontrem passagens demasiadamente simples. Mas êsses formarão apenas uma parte dos leitores, e não a maior, e deverão compreender que, se assim procede, é por considerar uma das características de nosso povo, e que me levaram a usar um método que corresponda a nossa índole e possa, por isso mesmo, ser de maior e mais geral proveito.

Nos livros sucessivos, que formarão a séries de minhas obras de Filosofia, os temas passarão a ser tratados, já considerando o conhecimento do que é exposto nesse volume, para poder avançar cada vez mais analiticamente nos estudos das matéria, para encerrá-las  em uma concreção global, que é o terceiro estágio do método que escolhi para o estudo da filosofia, e que a experienciaria já me mostrou ser o mais eficaz.

Após o estudos sintético, que segue a análise dos temas abordados, abstractamente, para devolvê-los a concreção de que fazem parte, evitando, assim, que o estudo da filosofia se torne, o que em geral tem sido, campo de elucubrações abstractas para transformar-se numa ampla visão do mundo e numa metodologia para a própria vida.

E nada melhor atesta a conveniência do método escolhido que o progresso verificado entre aquêles dedicados ao estudo da filosofia, segundo as minhas aulas, o que sem apelos a falsas modéstias, não posso deixar de considerar a melhor  paga a meus esforços.” (Mário Ferreira dos Santos, Prefácio)

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Mário Ferreira dos Santos – Missão da Filosofia na vida Cultural Brasileira Hodierna.

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Missão da Filosofia na vida cultural brasileira hodierna

Posso colocar-me na seguinte posição: nós, brasileiros, por vivermos materialmente o universal humano, por não termos compromissos históricos que pesem demasiadamente sobre os nossos ombros, nem tampouco compromissos filosóficos, somos um povo apto para uma Filosofia de caráter ecumênico, uma Filosofia que corresponda ao verdadeiro sentido com que ela foi criada desde o inicio.

Parto da posição pitagórica: Pitágoras, diz-se, afirmou que era um amante da Sabedoria (sophia), da suprema Sabedoria, que cointuímos com a própria Divindade. Este afã de alcançá-la, os esforços para atingi-la, os caminhos que percorremos para obter essa suprema instrução (daí chamá-la de Mathesis Megiste, que é a suprema instrução), todo esse afanar é propriamente a Filosofia.

Assim, posso admitir que há vários caminhos, embora só haja um caminho real. Como fundamentava Pitágoras, repetido depois por Aristóteles, que a única autoridade na Filosofia é a demonstração, sendo que esta deve ser apodítica, e, se possível, com juízos necessários e até exclusivos, a Filosofia construída deste modo só pode ser uma: positiva e necessariamente concreta, que é a posição que tomo aqui.

Podemos viver o universal, no sentido puramente quantitativo, os modos de ver e de sentir dos diversos povos, mas não podemos permanecer na situação de ser um povo que recebe todas as idéias vindas de todas as partes, que não possa encontrar um caminho para si mesmo; temos de criar este caminho.

A minha luta é esta, dar solução aos inúmeros problemas vitais brasileiros da atualidade, porque a heterogeneidade de idéias e posições facilita a de soluções, das quais muitas não são adequadas às necessidades do Brasil. O tema é vasto e exigiria um trabalho especial. Continuar lendo Mário Ferreira dos Santos – Missão da Filosofia na vida Cultural Brasileira Hodierna.

A Metafísica de Mário Ferreira dos Santos, um Autodidata Brasileiro

Fyodor Bronnikov
Grupo de pitagóricos celebrando la salida del sol. Himno al sol naciente, Fyodor Bronnikov.

Sidney Silveira

        Pelo dedo se conhece o gigante, e pelas premissas se reconhece um filósofo. Mas, para revelar as premissas às vezes é necessário percorrer o caminho inverso: partir das conclusões para chegar à fonte do pensamento ou de um sistema, pelos efeitos remontar às causas, como fez Tomás de Aquino quando, a partir do movimento, demonstrou, nas famosas cinco vias, a impossibilidade da inexistência da Causa Primeira: Deus.

O horizonte de uma filosofia é prefigurado pelas idéias básicas do filósofo, e os escolásticos sabiam disso. Infelizmente, a sua lição credo ut intelligam (“creio para saber”) foi desprezada pelos modernos, cujas suposições céticas só poderiam culminar na visão esquizóide de Wittgenstein, que nos garante: o homem não pode ter certeza objetiva, nem mesmo de que tem duas mãos; neste caso, haveria uma “certeza subjetiva”, mas esta, incrivelmente, não lhe facultaria “conhecer” o fato de ter duas mãos. Em palavras simples: estraga o fubá, mas poupa o farelo.

Para além desse ceticismo hoje imperante, há o silêncio em torno de pensadores como Mário Ferreira dos Santos, tão desconhecido quanto fulgurante. A trajetória deste autodidata brasileiro nos remete, por analogia, à tradição judaica do “santo oculto” (nistar), que vem dos tempos talmúdicos e segundo a qual existem, em cada geração, 36 homens justos que são os fundamentos do mundo; se o seu anonimato fosse rompido, eles não seriam nada. Nas palavras de Gershom Scholem, estudioso da mística hebraica, um deles pode até ser o Messias, mantido em segredo porque a época não está à sua altura. Mal comparando, o tempo de Mário Ferreira não esteve à altura dele. Esse homem cumpriu a sua vocação à sombra do período em que viveu.

É verdade que na “História da Filosofia no Brasil”, da Vozes, Jorge Jaime, da Academia Brasileira de Filosofia, dedicara 20 páginas ao “portentoso criador da filosofia concreta”. Mas, se avaliarmos a dimensão do trabalho a que se refere Jorge Jaime, o reconhecimento soa tímido. Em sua “Filosofia concreta” (1957), Mário Ferreira parte de um “ponto arquimédico” para demonstrar cerca de 260 teses, num trabalho de gigante. Esse ponto seria a verdade auto-evidente “alguma coisa há”, e não o nada absoluto. Demonstrado o postulado inicial, ele nos leva a concluir, na segunda tese, que “o nada absoluto nada pode”, pois se pudesse não seria o nada e sim alguma coisa. O filósofo então envereda pelas mais diferentes vias demonstrativas, até chegar a uma excelsa verdade: a existência do Ser Supremo em ato.

Nada menos que isso.

Agora, com o lançamento de “A sabedoria das leis eternas”, um texto inédito (com introdução e notas de Olavo de Carvalho), Mário Ferreira dos Santos reaparece em trabalho cuja leitura será difícil para quem não tenha familiaridade com o filósofo. No livro, imprimindo o habitual sentido matematizante à filosofia (Mário era pitagórico), ele estuda as dez leis ontológicas que, “descendo do plano dos princípios ao da manifestação, imperam efetivamente em todas as ordens de realidade”. A essas leis chega-se por vias especulativas, e Mário – precavido contra os dogmas do ceticismo e do agnosticismo – expusera e refutara teses contrárias em trabalhos anteriores, por diferentes sistemas lógicos e uma dialética inventada por ele: a “decadialética”.

A filosofia de Mário Ferreira se parece com a Escolástica, mas em questões escolásticas ante as quais filósofos modernos tomaram atalhos de conseqüências esterilizantes, que acabaram por resultar na negação do estatuto da verdade. Algumas teses da “Filosofia concreta” são idênticas às do “Tractatus de primo principio”, de Duns Scot, como nesta questão: “O que não é causado por causas extrínsecas não é causado por causas intrínsecas”. Há tanto demérito nesta igualdade de enunciados quanto haveria em constatar que, nos triângulos retângulos, o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos. Ora, a verdade desse teorema não é verdadeira porque Pitágoras a descobriu, mas Pitágoras a descobriu porque ela é verdadeira. Ademais, ninguém pode ser “dono” de nenhuma verdade; ao contrário, por seu poder transformador, a verdade é a dona de quem a consegue contemplar.

O amor de Mário Ferreira à sabedoria deixa-nos uma lição. Ou o homem procura enxergar, com humildade, os dados da realidade que a ele se apresentam, cotidianamente, ou os transtornos da personalidade decorrentes desse erro o transformam num caso psiquiátrico, cujo diagnóstico pode estar na raiz do seu ceticismo: a crença na inexistência de Deus, primeiro motor da negação da verdade como baliza dos conceitos humanos e, também, da violência de um sujeito contra si e contra o seu próximo.

Pergunte-se a um filósofo se Deus existe, para que se conheça, de antemão, o horizonte de suas especulações. Em 99% dos casos, o ateu e o agnóstico viram céticos em filosofia, materialistas em política e amoralistas em estética. Mas, neste último caso, quando a beleza não mais se identifica com o bem e a verdade, uma civilização começa a se autodestruir.

* Sidney Silveira é jornalista no Rio de Janeiro. Colaborador da “Sociedade Amigos do Professor Mário Ferreira dos Santos”. Artigo publicado no jornal “O Globo”, em 13/07/2002.

Mário Ferreira dos Santos – A Dignidade do Filósofo.

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Imagem: Filósofos Gregos: Sócrates, Platão e Aristóteles, A Dignidade do Filosofo.

Mário Ferreira dos Santos,  Fragmento Retirado do livro: Lógica e Dialética, Enciclopédia de Ciências Filosofias e Sociais. POSTAGEM LINK

A filosofia é um saber amplo, sistemático ou não, construtivo ou não, que abarca a totalidade do conhecimento para transcendê-lo numa visão geral. Não é tal enunciado uma definição porque ante tantas definições, e tão díspares, melhor é não definir a filosofia, que é activa, que é dinâmica, pois seria prendê-la, desse modo, à estreiteza de um arcabouço sempre limitado.

Como é ela hoje conjunto de uma multiplicidade de disciplinas, cujos objectos cada vez se distinguem mais, a filosofia forma um corpo geral que pode ter o aspecto transcendente ou não, para uns ou para outros, mas que, pelo menos, transcende os objectos particulares das diversas disciplinas, para ter, como objecto, o que consideramos a totalidade, e poder dominá-lo numa visão de conjunto.

Todas as ciências particulares são imanentes ao seu objecto, nunca o transcendem, e quando o fazem, realizam filosofia. Se afirmam a incognoscibilidade do ser ou não; se afirmam a conveniência de buscá-lo ou não, sempre filosofam.

A Filosofia é, assim, um querer saber, que é activo, dinâmico portanto, um saber último inalcançável porque estabelece um ideal: a verdade, a meta que deseja atingir. Não importa que esse ideal seja como todos os ideais: inatingível.

Podem desesperar os filósofos e construir filosofias de desespero, mas tal não impedirá que ela prossiga em sua marcha, confiante no inesperado, no imprevisto, que poderá modificar toda a feição dos factos.

Nisso consiste, nessa luta sem desfalecimentos, toda a dignidade do filósofo.