Mário Ferreira dos Santos – Lógica e Dialéctica, Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais – Sinopse 02.

Mário Ferreira dos Santos - Lógica e Dialéctica, Mario Ferreira dos Santos.
Mário Ferreira dos Santos, Lógica e Dialéctica – Link: Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais Catalogo.

Uma das características da filosofia moderna é, sem dúvida, a nova colocação do problema lógico, sobretudo depois da crítica kantiana e das contribuições dialécticas de Hegel.

Apesar de continuar ausente dos currículos oficiais, relegada ainda a plano secundário, e sofrendo da férula pejorativa dos que a desconhecem ou que dela têm uma visão caricatural, não é possível, ante o embate dos temas sobre o valor das categorias lógicas, continuar desconhecendo a imensa contribuição da Dialéctica, sobretudo depois que ela penetrou no campo da ciência.

Neste livro, onde estudamos a Lógica Formal, a Dialéctica Geral, e a nossa Decadialéctica, obedecemos a certas normas sobre as quais desejamos desde logo chamar a atenção. Em primeiro lugar, não nos ocupamos pormenorizadamente da Lógica Formal, porque, neste sector, o que já se tem realizado é definitivo. Pouco há a acrescentar aqui. É esta a razão que nos levou a apenas abordar em linhas gerais os aspectos mais importantes.

É verdade que a lógica oferece hoje uma problemática e uma temática novas, em que os estudos da logística e as contribuições de tantas correntes filosóficas, como por exemplo a análise fenomenologista, com Husserl à frente, oferecem novas possibilidades para, dentro ainda do campo formal, investir sobre novos veios inexplorados e efectuar algumas revelações insuspeitadas.

Trataremos desses temas nos volumes ãe “Temática e Problemática Filosóficas”, sob o ângulo decadialéctico. Quanto à dialéctica, abordamos o aspecto geral, dentro das contribuições mais conhecidas. É verdade que a temática e a problemática dialécticas crescem cada dia, pois, disciplina nova, em formação, tem à sua frente inúmeros aspectos, que exigem respostas às perguntas que constantemente se colocam.

No decorrer deste livro, verificará o leitor que a Dialéctica Geral, que abrange, em linhas amplas e globais, tema tão importante, está a exigir a contribuição de novas investigações em outros campos, como os que decorrem da dialéctica da intelectualidade nas suas polarizações operatórias do racional, e as da intuição meramente intelectual. E como o nosso processo de raciocínio não pode prescindir da influência dos esquemas da sensibilidade, esquemas do sensório-motriz, e também da parte somática, que tanto influem em nossas perspectivas, e que a moderna psicologia está pondo em evidência, há ainda reconhecer a inseparabilidade funcional da parte afectiva de nosso espírito, cujas raízes também se afundam nessa parte somática, e que, por sua vez, revela o funcionamento de todas as construções esquemáticas simpathéticas e antipathéticas, gênese da simbólica, que não podem ser desprezadas.

Além disso, todos os que se interessaram vivamente pelo estudo dialéctico sentem a actualidade do pensamento hegeliano, de que a filosofia, em suas linhas gerais, não pode mais dele afastar-se, pois a perspectiva dialéctica, por ser englobante, includente, por conter em si os opostos, os diferentes, as distinções, invade, por isso mesmo, o campo da filosofia e obriga à construção de uma visão geral do mundo, uma verdadeira cosmo-visão, como implica a necessidade de revisão de todas as conquistas filosóficas.

Dessa maneira, a dialéctica se torna filosofia, e a filosofia, pela sua influência, torna-se dialéctica. Ora, tais temas estão a exigir trabalhos especiais que coordenem o que já se tem construído, embora dispersamente, numa estructura dialéctica.

Neste volume interessamo-nos pelos aspectos gerais, incluindo uma metodologia que a torne prática, sob o nome de decadialéctica, construção por nós realizada, com o intuito de utilizar tudo quanto há de aproveitável neste setor, para um manuseio mais hábil por parte dos estudiosos da matéria. Contudo, os temas que se refiram à dialéctica noética, como à dialéctica pathica, à dialéctica simbólica e à dialéctica tensional global e sintética, serão objecto de outros trabalhos.

No entanto, como verá o leitor, a metodologia, que neste volume oferecemos, já é suficiente para o empreendimento de amplas análises, sem necessidade de desprezar a contribuição da lógica, sempre aproveitada, mas com o reconhecimento de seu papel, que, embora importante, é parcial, e consequentemente deficiente na apreciação dos factos. A dialéctica pretende ser o que apenas é: uma lógica da existência, uma lógica do devir, portanto uma lógica que maneja com as oposições dialécticamente consideradas, sem excluir a lógica formal.

MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS, Lógica e Dialéctica.

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Mário Ferreira dos Santos – Filosofia e Cosmovisão, Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais – Sinopse 01.

Mário Ferreira dos Santos - Filosofia e Cosmovisão
Mário Ferreira dos Santos, Filosofia e Cosmovisão – Link: Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais Catalogo.

Filosofia e Cosmovisão, do filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos, é, ao mesmo tempo, introdução à filosofia, apresentação enciclopédica de ideias filosóficas e obra de um filósofo original. Dito de outro modo, o presente volume é didático, erudito e profundo. Como diz o autor, não se aprende filosofia sem filosofar. Este livro, portanto, “é um convite à filosofia, uma incitação ao filosofar”.

“Um professor alemão, o primeiro a iniciar-me nos estudos de Filosofia, conhecedor de nosso povo, costumava manifestar-me a sua admiração pela inteligencia de nossa gente.

Para êle que percorrerá tantos países, que ministrara lições em tantas universidades e escolas do Ocidente e do Oriente, era o brasileiro o aluno mais vivo, mais inteligente, mais sagaz no raciocínio, e de mais profundas intuições que conhecera.

No entanto, punha uma restrição. Julgava-nos demasiadamente inquietos e desequilibrados quanto ao conhecimento. Afirmava-me ter encontrado grandes valôres, homens de capacidade extraordinária, mas, em muitos aspectos, falhos de certos conhecimentos elementares, que eram como abismos por entre cumes de montanhas,

Atribuía êsse desequilíbrio  à natural pressa dos povos americanos e à falta de disciplina mais rígida no trabalho. Nessa época, considerava eu suas palavras um tanto exageradas. Mas com o decorrer do tempo, e através de aulas e enúmeras conferencias, palestras e debates que empreendi, verifiquei assistir ao meu velho e venerado mestre uma grande soma de verdade.

Atribui-se êsse nosso defeito ao Autodidactismo que todos sem excpeção, neste país, somos obrigados a seguir. Sempre fui um admirador dos autodidatas porque um estado apurado da historia e da biografia de grandes homens, revela-nos que entre os maiores criadores, o numero dos autodidatas é sempre maior do que daquêles presos a o de uma escolaridade rígida, quase sempre prejudicial à capacidade criadora.

Não seria, porém, êsse apenas o factor decisivo, pois outros poderia ainda ser propostos.

Foi considerando tais aspectos reais de nosso povo que ao empreender os meus cursos, e depois decidir, a pedido de tantos alunos, transformá-los em livros, compreendi que não deveria ministrar filosofia, no Brasil, seguindo os métodos de povos que tem uma disciplina de estudos muito diferente da nossa.

Por esta razão, sempre julguei que, ao lado do tema mais profundo, havia sempre de considerar aquêles abismos de que êle me falava. Foi essa a razão que me levou, ao publicar êste primeiro livro da série de meus cursos de Filosofia, a usar uma linguagem dentro de certo rigor filosófico, mas considerando, na exposição, êsses abismos e nunca pressupor o conhecimento, por parte do leitor, de certos aspectos elementares da filosofia, que devem e precisam desde logo ser esclarecidos.

E foi pensando assim que executei essa obra desde uma explanação mais simples até, na COSMOVISÃO, (segunda parte do livro), tratar dos temas da filosofia, embora ainda de forma sintética, com uma linguagem mais rigorosa.

É possível que muitos dos leitores, que já manusearam livros de filosofia, e já tiveram contacto com o pensamento filosófico, encontrem passagens demasiadamente simples. Mas êsses formarão apenas uma parte dos leitores, e não a maior, e deverão compreender que, se assim procede, é por considerar uma das características de nosso povo, e que me levaram a usar um método que corresponda a nossa índole e possa, por isso mesmo, ser de maior e mais geral proveito.

Nos livros sucessivos, que formarão a séries de minhas obras de Filosofia, os temas passarão a ser tratados, já considerando o conhecimento do que é exposto nesse volume, para poder avançar cada vez mais analiticamente nos estudos das matéria, para encerrá-las  em uma concreção global, que é o terceiro estágio do método que escolhi para o estudo da filosofia, e que a experienciaria já me mostrou ser o mais eficaz.

Após o estudos sintético, que segue a análise dos temas abordados, abstractamente, para devolvê-los a concreção de que fazem parte, evitando, assim, que o estudo da filosofia se torne, o que em geral tem sido, campo de elucubrações abstractas para transformar-se numa ampla visão do mundo e numa metodologia para a própria vida.

E nada melhor atesta a conveniência do método escolhido que o progresso verificado entre aquêles dedicados ao estudo da filosofia, segundo as minhas aulas, o que sem apelos a falsas modéstias, não posso deixar de considerar a melhor  paga a meus esforços.” (Mário Ferreira dos Santos, Prefácio)

LINK ISSUU: Mário Ferreira dos Santos – Filosofia e Cosmovisão.