Mário Ferreira dos Santos – Proletário, tema de exploração ideológica.

Giuseppe Pellizza da Volpedo
Imagem: Giuseppe Pellizza da Volpedo.

Invasão vertical dos Bárbaros (Segunda parte, Citação U). Proletário, tema de exploração ideológica – Em todas as épocas da humanidade os que apenas são prestadores de serviço foram sempre vítimas de exploradores astuciosos.

Assim sempre foi, e assim ainda é.
O homem, que outra renda não tem que a do seu trabalho, e que a única riqueza que possui são seis filhos, foi chamado de proletário, porque só a sua prole é o bem que lhe resta, a renda que lhe permitem ter é a que lhe podem dar seus filhos.

Como a sua vida é feita de necessidades, como a sua mesa é quase vazia, como as suas necessidades mais elementares são tantas e exigentes, é natural que esse homem, que esse tipo de homem, tenha exigências imediatas, careça de bens imediatos para satisfazer as suas justas necessidades.

Seus problemas são sempre de urgente solução, porque não pode esperar, porque não espera seu estômago, que pede alimentos; seu corpo, que pede vestes.

Por outro lado, todo homem deseja prestigiar -se ante os seus semelhantes. Todos querem ser, ou pelo menos, parecer que são superiores em alguma coisa. Sempre houve, sempre há e sempre haverá os que desejam impor-se aos outros com alguma superioridade. Um quer ser mais simpático, outro mais forte, outro mais hábil, outro mais rico. Dos que não podem sobressair por nenhum daqueles caminhos, há muitos que buscam sobressair pelo poder político, exercendo este poder sobre os outros.

Quem são eles? São os famintos de prestígio, e que não sabem sofrer a sua fraqueza, os complexados de poder, complexados de inferioridade, que buscam obter um cargo que os torne grandes, porque não são grandes.

Quem é grande não procura ocupar o cargo grande. Quem realmente é grande cria para si a própria grandeza. É grande porque é grande, e não porque ocupa um cargo grande.Quem verdadeiramente se eleva é quem ascende por si, por seus atos e por suas realizações ao posto elevado. Cria o seu lugar, como Pasteur criou o seu na Ciência, como Aristóteles na Filosofia, como Camões criou na literatura.

Nem Pasteur, nem Aristóteles, nem Camões foram grandes porque ocuparam cargos elevados, mas foram grandes porque realizaram obras elevadas.

Aquele que não pode sofrer a sua inferioridade, aquele que não suporta dentro de si a sua pequenez, quer o cargo elevado, porque julga que ocupando um pedestal, e estando, mais alto que os outros, é realmente maior que os outros. E eis porque o proletário, em todas as épocas, ontem, hoje e talvez ainda amanhã, há de ser sempre o grande procurado, o grande explorado pelos que desejam ascender aos altos postos, pelos que não podem erguer-se por si mesmos, porque, na verdade, não são grandes, mas podem erguer-se sobre as suas esquálidas costas aos postos grandes para parecerem grandes.

E como procederam? Exploraram a sua miséria, exploraram a sua carência, exploraram a sua boa fé, exploraram a sua ignorância, exploraram a fome de seus filhos, a seminudez e os andrajos de sua companheira, exploraram a urgência de suas necessidades, e lhe prometeram, então: que lhe dariam, já, imediatamente, o que já e imediatamente ele precisa; exploraram o seu imediatismo, que o faz vibrar ante a promessa do prato de comida, da veste para seu corpo quase nu, da casa humilde que não tem.

E como nada recebia de melhor do que esperava, eles sempre justificaram a sua falta, culpando a outros. Eles sempre encontraram culpados para explicar, porque não lhe deram o que lhe prometeram. Eles nunca são os culpados, mas os outros. Quem são esses outros? Acaso são tão diferentes dos primeiros? Não são outros que os primeiros, que são outros para os segundos? Uns acusam os outros mutuamente.Todos, quando falam, são angelicais criaturas que só pensam no bem. Os outros, sim, esses só fazem o mal. O proletário que ouça o que uns dizem dos outros, as ofensas e as injúrias que uns atiram aos outros.

Uns, são para os outros os traidores do povo. Todos se acusam mutuamente de traidores. Pois, na verdade, são todos traidores do proletário, do eterno atraiçoado , do eterno explorado, do eterno sofrido de injúrias e misérias.

Mas, por acaso, é o proletário apenas vítima? Sim, é vítima da sua ignorância e da sua fome, vítima da urgência das suas necessidades, vítima do seu apetite insofreável.

Mas é culpado, porque ouve a quem não devia ouvir; é culpado, porque crê em quem não devida crer; é culpado, porque serve a quem não devia servir; é culpado, porque segue a quem não devia seguir.

Nunca, na história da Humanidade, conseguiu um pouco mais que não saísse de suas mãos, porque é de suas mãos que sai toda riqueza do mundo. Nunca foram os outros que o ergueram, mesmo aqueles que saem de seu seio para pregarem que o ajudarão.

Os que sempre, em toda história, se proclamam os amigos do proletariado, sempre foram os mais ricos, os mais poderosos, os de vida mais suntuosa. Os seus verdadeiros benfeitores jamais andaram à caça de altos cargos. A maioria é dos mesmos fariseus hipócritas, os que desejam que permaneça na ignorância e na miséria, porque sabem que se tiver o estômago cheio, seu corpo vestido, sua casa humilde e boa, sua companheira e seus filhos sorridentes e alegres, não ouvirá mais os desejosos de ascender sobre os degraus de sua fome e de suas necessidades. Jamais eles lhe darão meios de alcançar o bem-estar, porque o seu bem-estar o levará ao desinteresse pela política e, então, como subirão eles?

Enquanto tiver fome, eles terão um meio de explorar as suas necessidades, somando-as em votos, que os erguerão aos cargos nos quais são investidos, porque os cargos, que o homem cria pelo seu trabalho e sua inteligência, estes estão proibidos para eles, porque não são grandes, apenas querem parecer que o são.

Em todos os tempos o proletário só conseguiu erguer-se um pouco acima da sua pobreza, quando, por si mesmo, pelo seu trabalho, pelo seu esforço combinado com os de seus irmãos, ele mesmo criou a riqueza para si.

O seu verdadeiro amigo não é aquele que lhe pede o voto, mas aquele que lhe ensina como melhorar a sua vida, aumentar o seu salário, mas aumento real e não fictício, aumento verdadeiro, e não apenas somar um zero, quando, nos preços, os zeros se multiplicam.

Foi quando chegou ao seu companheiro e lhe perguntou: que podemos nós dois fazer juntos para ajudar-nos a sair da situação em que estamos? Não podemos juntar outros companheiros, como nós, e cooperarmos juntos para fazer alguma coisa real que possa melhorar a nossa vida?

“Não podes tu ajudares a construir a minha casa, e eu a tua. Não poderemos os dois ajudar outros, e eles ajudarem a nós?”

 

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Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro Convivium, 1964 – Sobre o Marxismo.

Mário Ferreira dos Santos, Mario Ferreira dos Santos - Filosofo Brasileiro.

Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro Convivium, 1964.

No Renascimento começaram a surgir as chamadas utopias, quando a Igreja perdeu o poder, mesmo o seu poder espiritual foi restringido com a formação das grandes nações, e o poder temporal praticamente nulo, a Igreja perdeu totalmente a força.

A sociedade, com a ascensão do empresário utilitário que passou a ter um poder extraordinário porque já tinha o poder econômico, passou também a participar do poder político, porque todos aqueles que tem o poder econômico sempre desejam o poder político.

As injustiças sociais foram crescendo e se agravando, as próprias corporações da Idade Média em que mestres aprendizes e companheiros formavam verdadeiras unidades passaram a ser distintos, os mestres tornaram-se capitalistas, empresários, e veio a época da industrialização.

Começou a surgir uma preocupação em torno do problema do homem olhado do ângulo coletivo, isto é, da coletividade humana, porque o empresário utilitário por natureza é individualista, ele necessita de uma certa liberdade de ação para que possa desenvolver-se plenamente e põe necessariamente em risco os interesses coletivos. O socialismo praticamente surge estruturado assim em idéias no século passado e esta palavra socialismo surgiu de uma polêmica que houve na Inglaterra, num jornal em que havia um cidadão que escrevia artigos defendendo o capitalismo manchesteriano, e assinava “individualista” e num outro jornal alguém pôs-se a rebater os seus argumentos e assinava “socialista”, e a palavra foi cunhada, foi tomando um conteúdo, foi significando tudo aquilo que se refere mais ao coletivo em geral na sua luta contra o individualismo.

Todos que estudam filosofia sabem perfeitamente que o verdadeiro conceito de política, como o estudavam os grandes filósofos gregos implica uma harmonização entre os interesses individuais com os interesses coletivos. Propriamente a política é isto, são os costumes humanos olhados do ângulo da coletividade e busca conciliar, harmonizar estes interesses, esta é verdadeiramente a política, é conciliar os interesses do homem na ‘polis’, não é mais o homem da tribo, muito menos não é o homem da horda, é o homem de uma nova horda, porque a “polis” é quase uma verdadeira horda, mas a “polis” perdendo as suas ligações tribais cada vez mais há a necessidade de conciliar os interesses de grupos com os interesses coletivos. Embora hoje política não se entenda assim, em geral, entende-se como a arte de governar para uns, mas na verdade ela é usada como a arte de conquistar e de conservar o poder, consequentemente como o político se desvirtuou do seu verdadeiro sentido, as formações socialistas desde o início foram anti-políticas, quer dizer, política e socialismo foi desde o início considerado como azeite e água, como coisas inconciliáveis.

Socialismo fazendo política é uma coisa absurda, porque a política era a conquista do poder, era conservar o poder, exercer o poder, etc., então as primeiras tentativas de formação de idéias socialistas eram genuinamente libertárias, de libertação do homem, libertação de tudo quanto o oprimia, do ser humano desvincular-se de todas aquelas peias que exerciam sobre ele obstáculos no seu desenvolvimento.

Passou-se a analisar quais são, o Estado em primeiro lugar, o maior monstro opressor que a sociedade humana conhece, pois as classes economicamente poderosas que fazem as leis de acordo com seus interesses contra os interesses da maioria. Todo o socialismo formou-se num ideal de liquidação das classes, para evitar a exploração do homem sobre o homem, e sobretudo a liquidação do Estado, porque o Estado não era mais a sociedade politicamente organizada, mas era apenas um organismo político, de grupo, que dominavam a sociedade.

O socialismo caracteriza-se desde o início por uma crítica violenta e desbragada e exagerada e até injusta em muitos aspectos contra o Estado e contra as classes dominantes.

Como o clero nessas ocasiões tomou uma atitude mais favorável as classes dominantes, o clero entrou também na lista, quer dizer, passou também a ser combatido e eis porque o socialismo em geral combate não só combatia a aristocracia, o clero, a burguesia e o Estado, combatia tudo e naturalmente tinha que tender para a massa, massa que se manobra sempre para as convulsões sociais, que são a massa dos servidores, aqueles que não tem nenhum papel histórico senão este.

O socialismo foi-se a pouco e pouco estruturando até que se estruturou em três tipos de socialismo nitidamente claros: um socialismo de caráter libertário, anti-estatal, desejando abolir as classes, não pregando a luta de classes, mas abolir as classes e estabelecer uma sociedade de iguais; um socialismo democrático, que quis democratizar o estado, transformando num órgão que manifestasse a vontade popular, as opiniões; e um socialismo de caráter totalitário, único, exclusivista, que não permitia as heterogeneidades humanas, que é o totalitário.

No século passado a predominância dentro do campo socialista era o socialismo libertário, o socialismo democrático não tinhaa mínima influência, não era desprezível porque era mínimo, o totalitário também não era grande, mas era um pouco mais numeroso, mas a grande massa era libertária.

Era a época em que surgiu os grandes líderes libertários como foram Proudhon, Kropotkine, Jean Grave, Hoover. Marx manifestou simpatia, pretendia um cargo administrativo na Saxonia, mas como era judeu, apesar de ser casado com mulher alemã, não conseguiu o cargo.

Então passou para a oposição e juntou-se com um grupo de socialistas que nesta época publicavam uma revista famosa na Alemanha que foi a “Gazeta Renana”, na qual passou a colaborar.

Nesta época começou a ter conhecimento das obras dos socialistas franceses, que eram libertários, sobretudo as obras de Proudhon, a quem Marx saudou como um pensamento científico do socialismo.

Não podendo manter-se na Alemanha devido as perseguições políticas, exilou-se na França e aí procurou entrar em contato com Proudhon, que era a figura que ele mais admirava, que colocava como a suprema. Mas aconteceu que Proudhon era um homem muito sincero, muito franco e um homem que não sabia esconder a sua afetividade, e ele não gostou de Marx e tratou-o com certa distância, e isto o magoou profundamente.

Mais tarde Marx passou a renegar aquilo que havia dito, começou a encontrar defeitos em Proudhon, começou a achar que o pensamento dele já não era científico, não era o verdadeiro pensamento socialista, começou a analisar somente os defeitos da obra proudhoniana e surgiu então uma pequena cisão.

Marx com um pequeno grupo formou o grupo dos marxistas que eram totalitários, mais prussianos, seguindo mais os princípios do socialismo alemão, de organização mais militarizada, e Proudhon tinha um sentido mais latino, mais libertário, mais romântico.

De início, Marx não teve nenhuma influência, Proudhon dominou e foi dominando o socialismo até a guerra de 14 e 18. Enfim os libertários fizeram a revolução russa porque a revolução russa não é bolchevista, os bolchevistas apenas se aproveitaram.

No fim do século XIX houve um acontecimento importantíssimo, foi quando se fundou a Primeira Internacional, e na sua formação apareciam, como figuras fundamentais, Marx e Bakunin, sendo que este era a figura predominante, e depois de uma série de intrigas astuciosas e muito bem feitas (mas muito indignas) a Primeira Internacional não seguiu o seu verdadeiro destino e o movimento socialista que era unido, unificado no mundo inteiro foi destruído, porque foi rompido, ficando uma ala libertária e uma ala totalitário.

Daí é que se formou uma ala democrática tentando uma conciliação entre os dois lados, isto é, nem tanto a terra nem tanto ao mar, nem muita liberdade, o Estado não pode ser muito poderoso, etc., uma fórmula intermédia. Mas Marx nunca pode deixar de defender as teses libertárias, isto é, da abolição do Estado, porque no fundo o marxismo prega que a verdadeira realização do comunismo é a abolição do Estado, só se pode dar com a abolição do Estado.

Pregaram isto, mas eles não falam mais porque não lhes convém, porque o Estado está muito bem colocado. Naquela época, porém, eles chegaram a essa conclusão. Marx também admitia que a revolução social, feita através do domínio do proletariado que seria a ditadura do proletariado seria por alcançar finalmente a abolição do Estado, o desaparecimento das classes.

Sem o desaparecimento das classes também seria impossível o Estado, porque na interpretação marxista do Estado, este é uma espécie de efeito, de subproduto da divisão de classes e do domínio das classes na sociedade, de maneira que o marxismo formou-se assim, teve a sua história, longa história de grandezas e de misérias.Bom, vamos mais a um chavão de momentos extraordinários e momentos mesquinhos, tem a sua beleza e tem a sua fealdade, gostaria também de fazer uma palestra especial sobre um ponto importante, até trouxe aqui um documento que talvez poucos pessoas possuam no mundo.

Eu sabia que a pergunta viria mais dia menos dia, é a “História da Associação Internacional dos Trabalhadores da A.I.T.”, a única e genuína representante dos trabalhadores que ainda existe, e aqui está o processo todo do famoso congresso que deu a cisão do socialismo, que atrasou cem anos o socialismo.

Análise Dialética do Marxismo, de Mário Ferreira dos Santos.

Analise Dialatica do Marxismo, de Mário Ferreira dos Santos
Análise Dialética do Marxismo, de Mário Ferreira dos Santos

Por | FELIPE PIMENTA

Mário Ferreira dos Santos é o nosso maior filósofo, e sempre exibiu uma coragem admirável em defender a filosofia escolástica em uma época em que o socialismo e o comunismo estavam no seu auge.

Nesse livro, Mário Ferreira faz uma análise filosófica crítica sobre o socialismo autoritário de Marx. O filósofo brasileiro não era totalmente contrário ao socialismo, mas sim, defensor de um socialismo anarquista, que ele tenta definir durante o livro.

Para Mário Ferreira, o socialismo autoritário de Marx era tudo o que o socialismo do tipo anárquico pregava em sentido contrário. Seu materialismo histórico era frágil, sua tradição revolucionária não era nova, mas vinha de movimentos heréticos da Idade Média e a luta de classes não era uma coisa demonstrável de maneira empírica.

Mário Ferreira gostava do movimento anarquista, e para ele, o socialismo real da Rússia soviética era a antítese do que ele imaginava como o verdadeiro socialismo. Para ele, o fato da União Soviética ter adotado uma filosofia oficial só poderia levar à opressão e à falta de liberdade.

O socialismo soviético substituiu de maneira ridícula a família, tradição e propriedade pela família( sim, porque no regime soviético a família e os bons costumes eram defendidos de maneira mais feroz do que nos EUA), tradição (a doutrina de Marx e Lênin e de toda uma história revolucionária) e pela propriedade (a propriedade do Estado, defendida até a morte contra supostos sabotadores). Da mesma forma que a nobreza( Stalin e sua família), o clero (o comissariado) e os camponeses continuaram a existir.

Fico feliz pela defesa que o maior filósofo brasileiro faz da filosofia escolástica e de nomes como São Boaventura, São Tomás e Duns Scot. Foi essa filosofia que defendeu verdadeiramente a dignidade do homem e não pretendeu ser revolucionária, desprezando assim a filosofia do passado.

O livro demonstra a impossibilidade do marxismo e do comunismo como filosofias de Estado. Os resultados da União Soviética como a extrema paranoia contra o mundo exterior e a ineficiência da indústria soviética comparada aos países capitalistas são as demonstrações de que a mentalidade socialista autoritária e a indústria soviética não servem para estabelecer uma sociedade verdadeiramente socialista, segundo Mário Ferreira.

Apesar de não concordar com a ideia de um Estado socialista-anarquista como o filósofo propõe, devemos admirar em Mário Ferreira dos Santos a honestidade intelectual e sua filosofia que tem como uma das bases a escolástica medieval.

Análise Dialética do Marxismo, de Mário Ferreira dos Santos