Mário Ferreira dos Santos – Quem foi este filósofo? – Prof. Dr. Pe. Stanislavs Ladusãns

Stanislavs Ladusãns
Declaração Prof. Dr. Pe.Stanislavs Ladusãns S.I. (18-12-1968)

“MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS” Quem foi este filósofo?

“Estou realizando uma pesquisa científica sobre a situação atual do pensamento filosófico brasileiro, a fim de constatar, com objetividade, em que ponto se encontra a Filosofia hoje no Brasil, como ela se desenvolve, que metas está visando e que objetivos deve atingir. Durante esta pesquisa científica, ainda em curso, descobri um Pensador de extraordinário valor – Dr. Mário Ferreira dos Santos, nascido no dia 3 de janeiro de 1907 e falecido no dia 11 de abril de 1968. A descoberta deste filósofo solitário, dedicado a uma intensa atividade de pensamento e produção literária, surpreendeu-me não pouco e proporcionou-me a grata oportunidade de entrar em freqüentes contatos pessoais com ele, homem que ainda não foi descoberto no Brasil”.

  Sobre Prof. Dr. Pe.Stanislavs Ladusãns: Nasceu a 22 de agosto de 1912 na cidade de Rudzeisi, na Letônia. Seguiu a carreira sacerdotal, tendo cursado filosofia e teologia na Universidade Católica de Riga e, posteriormente, na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, onde se doutorou em filosofia.

Foi mandado ao Brasil pela Ordem dos Jesuítas, a que pertencia, tornando-se professor na Faculdade de Nossa Senhora Medianeira, pertencente àquela ordem religiosa.

Fundou o Centro de Pesquisas Filosóficas – COPEFIL, que funcionou em São Paulo em fins da década de setenta e começos da seguinte, transferindo-se para o Rio de Janeiro, nas instalações da Ordem junto à PUC.

Idealizou uma série de depoimentos de autores nacionais , reunindo-os no livro Rumos da filosofia atual no Brasil. Fundou a Sociedade Brasileira de Filósofos Católicos e a Revista Presença Filosófica. Pertenceu ao Instituto Brasileiro de Filosofia. e à Academia Brasileira de Filosofia. Faleceu a 25 de julho de 1993, aos 80 anos de idade.

*Prof. Dr. Pe.Stanislavs Ladusãns, Bibliografia:

Rumos da filosofia atual no Brasil; em auto-retratos.  São Paulo : Loyola, 1976, v. 1. il.

Pensamento parcial e total. São Paulo: Loyola, 1977  294 p. (Investigações filosóficas de atualidade, 1).

Criatividade Filosófico-Cristã hoje.  Rio de Janeiro : Presença, 1982. 27 p. (Coleção tema atual, 50).

Gnosiologia Pluridimensional; fundamentos fenomenológico-críticos do conhecimento da verdade. 2. Ed.  Rio de Janeiro : Presença, 1982.  59 p. (Coleção tema atual, 51-52).

Originalidade Cristã da Filosofia.  Rio de Janeiro : Presença, 1984  24 p. (Coleção tema atual, 72).

A Análise Social Filosófico-Cristão. Rio de Janeiro : Presença, 1988. 421 p. (Investigações filosóficas da atualidade, 2).

 Estudos sobre o autor Prof. Dr. Pe.Stanislavs Ladusãns: […]

CAMPOS, Fernando Arruda.  In Memoriam : Stanislavs Ladusãns S. J.  Revista Brasileira de Filosofia, São Paulo,  v. 41,  n. 174,  p. 137-138,  abr./jun. 1994.

JAIME, Jorge. Pe. Stanislavs Ladusãns, uma vida dedicada à filosofia.Veritas, Porto Alegre, v. 39,  n. 156,  p. 613-619,  dez. 1994.

NEVES, Flávio.  Prof. dr. Stanislavs S. J, O pensamento parcial e total.  São Paulo : Edições Loyol, 1977.  294 p.  Kriterion, Belo Horizonte, n. 71, p. 226-241, jan./dez. 1978.


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Mário Ferreira dos Santos – Pitágoras e o Tema do Número

Pitagoras e Mário Ferreira

Mário Ferreira dos Santos, filósofo brasileiro (1907-1968), lembra que Aristóteles definia o número como a multiplicidade medida pela unidade – e neste sentido, logo se nota que o conceito aristotélico é meramente quantitativo.


Mas no sentido pitagórico, o número não é apenas a medida do quantitativo pela unidade mas é, também, a forma, isto é, a proporcionalidade intrínseca das coisas.

A palavra “número” vem do termo grego nomos, que significa regra, lei, ordem. A ordem, como sabemos, é a relação entre um todo e as suas partes, e, se considerarmos que onde há esta relação entre o todo e as suas partes há uma certa coerência, vemos que a idéia de ordem se torna enriquecida. Para Pitágoras, o número é também esta ordem, esta coerência, que dá a fisionomia da tensão de um todo. Afinal, para que uma coisa seja o que ela é, há de ter uma ordem, ou melhor, uma relação das partes com o todo, uma certa coerência, diferente da coerência das outras coisas, e isto para que ela possa ser o que é, e não o que as outras coisas são.

Não é essa ordem expressa por um número? Por isso, podemos dizer que todas as coisas tem o seu número e a sua ordem, isto é, a sua essência. Tudo é número. Já dizia Filolau que “todas as coisas conhecidas tem um número, e isto porque sem ele não seria possível que nada fosse conhecido nem compreendido”. Afinal, os fenômenos naturais e suas leis nos levam a coeficientes que são números, e todas as coisas do mundo cósmico são realidades que se dão numericamente, de uma maneira ou de outra. Assim, o número, além de expressar o quantitativo, é também capaz de expressar o qualitativo, tanto quanto uma relação entre termos, uma função a cumprir etc.

Por isso, para termos a vivência pensamento pitagórico, precisamos nos despojar dessa concepção superficial de que o número seja apenas aquilo que nos aponta o quantitativo. Não; o número nos aponta, além do quantitativo, outras modalidades e categorias com que todas as coisas se manifestam e se dão. Afinal, se considerarmos que os fatos que se dão no nosso mundo não constituem – todos – tensões estáticas, paradas e inertes mas, sim, tensões dinâmicas que se processam, que passam de um estado para o outro, que tomam uma direção, vemos que o número é também capaz de expressar um processo, um ritmo, um vetor e um fluxo.

Ademais, os fatos que se dão no mundo ora se apresentam semelhantes entre si e ora diferentes, mostrando-nos que ora se completam sem se repelirem, ora se dando exatamente o contrário. Assim, quando dois fatos opostos se colocam um em face do outro e formam uma relação, uma concordância, um ajustamento – como se constituíssem “algo novo” – diz-se que eles se harmonizam. Via Pitágoras como o ponto ideal já revelado pela própria natureza, por todos os fatos (inclusive o homem), a harmonia.

A harmonia é uma resultante do ajustamento de aspectos opostos. A harmonia só pode dar-se onde há oposições qualitativas. Afinal, dois iguais não se harmonizam: apenas se juntam. Para dar-se a harmonia é necessário que exista a diferença, a distinção. O nosso universo compõe-se de unidades diferentes e, quando elas se ajustam entre si, realizam a harmonia. Dessa forma, é a harmonia o ideal máximo dos pitagóricos, que consiste então em ajustar os elementos diversos entre si, formando um conjunto uno, equilibrado e dinâmico.

Observou Pitágoras, estudando a harmonia, que, obedecida certas relações, ela acontecia e se manifestava ( essas relações constituem os chamados “números de ouro”, de um papel importante em todas as artes em seus períodos superiores). Desse modo, verificou Pitágoras que, certas combinações, obedientes a certos números e a certas proporções e em certas circunstâncias, são mais valiosas que outras. Os números são, assim, a expressão de proporções bastante significativas e valiosas que acabam revelando valores que, quando realizados, assumem o poder capaz de efetuar algo de benéfico ou maléfico. Como os valores tanto podem ser positivos como opositivos, e como através dos números realizamos e atualizamos poderes, os números são também mágicos. A palavra magia encerra sempre a idéia de um poder maior que se pode despertar.

Só colocado o número nesse verdadeiro sentido pitagórico pode-se compreender a sua simbólica – o que, aliás, é matéria da aritmosofia, que estuda a significabilidade do número. Não se pode esquecer, porém, que nos diversos mitos religiosos, o número, tomado neste sentido, pode parecer – à primeira vista – como tendo um valor em si mesmo, quando, na verdade, o número, de per si, não é um poder mas é apenas um apontar de poder, pois se refere aos chamados números arquetípicos, que expressam as leis e regras gerais de todo mundo fenomênico.

Tudo isso, por si só, explicado por Mário Ferreira dos Santos, torna toda a simbólica existente em torno do número extremamente significativa. No entanto, é quando ele entra propriamente na questão da Teoria Simbólica que este livro passa a se constituir indispensável para a boa formação do astrólogo. Afinal, como lembra nosso filósofo, o número é um símbolo. E o símbolo é um meio de tornar presente o que está ausente. O símbolo “simboliza” ao apontar o simbolizado e ao tornar presente uma nota ou notas do mesmo que pareciam estar ocultas, e isto porque estas notas não estão contidas no próprio símbolo e, sim, porque são caracteres próprios do simbolizado. O símbolo aponta o simbolizado pelo imitativo, pelo representativo e pelo analógico, mas não pretende apenas isto: quer captar o que há de mais essencial no simbolizado.

O símbolo é, assim, sempre menos que o simbolizado, e isto porque o símbolo expressa algo do simbolizado, e o expressa em grau menor o que o outro tem em plenitude. Desse modo, no processo simbólico, não é apenas o aspecto imitativo que deve ser considerado mas, sim, aquele que revela o que há de mais essencial no simbolizado. A verdadeira obra de arte não se basta no seu aspecto estético pois, como aponta um além, e como faz gozar de uma plenitude, oferece um gozo estético que vai além da mera captação sensível, não se bastando apenas pelo ângulo da estesia, pelos ângulos dos sentidos, visto que é considerada sobremaneira pelo ângulo do espírito, pelo ângulo da inteligência, já que faz o observador conhecer um universo até então ignorado. Desse modo, o símbolo dito autêntico é capaz não só de estimular o gosto e os sentidos do indivíduo como também de despertar a sua consciência, tirando-o do torpor em que vivia e lhe descortinando uma nova visão de mundo.

A seguir um fragmento do livro “Pitágoras e o Tema do Numero”, fragmento que abre o livro para seguir aos capítulos seguintes. (pagina 11 à 13, Primeira Edição – Março de 1959)

“Deus fez os números inteiros todos os outros são obra dos homens” (Leopold Kronecker)

“Eu sou tudo que foi, e tudo o que será e meu véu jamais algum mortal ainda retirou” (Ísis, segundo a inscrição de Saís, relatada por Plutarco).

“A publicação dêste meu trabalho é o final de um impulso que desde a juventude tomou forma em mim. Quando nos bancos escolares ouvia as primeiras aulas de filosofia, de mestres e conspícuos e profundos, sempre me provocou grande inconformidade a maneira como era exposta a filosofia Pitagórica. Em algumas vêzes, dirigindo-me ao meu iniciador na filosofia, perguntava-lhe se não havia falsificação, e muito grosseira, na apresentação de uma filosofia, cujo papel era inegável sôbre todo o processo do pensamento Europeu. Êle mesmo me confessava que assim aprendera, e assim transmitia o conhecimento, e que não encontrará obras capazes de lhe expor um pensamento outro que o proferido em suas aulas.

Tais factos tiveram sempre sôbre mim uma influência importante, e tomei a deliberação de, no decorrer de minha vida, procurar todos os meios para estudar devidamente o Pitagorismo e, sobretudo, a figura de Pitágoras, que exercia sobre mim uma fascinação extraordinária.

Os anos decorreram, e verifiquei quão difícil era coligir material para um estudo aprofundado dessa posição filosófica. Nas minhas viagens a vários países, fui adquirindo tudo quanto encontrava que tratasse do assunto, para, posteriormente, organizar um quadro de têndencia. Seria longo descrever o trabalho que despendi, o trabalho que nunca poupei, pois se tenho algum mérito, considero êste o mais elevado: o de ser um incansável trabalhador, para qual tôdas as horas do dia são horas de obrigação.

A leitura dos mais variados autores me colocou numa posição decidida:o Pitagorismo foi a mais falsificada das correntes filosóficas. Esta verdade patenteou-se aos meus olhos após a leitura de tantos livros, de todos os quadrantes do pensamento, e que revelavam a presença de velhos preconceitos, vindos de Aristóteles, que foi, sem duvida, um dos maiores culpados dessa falsificação, o que demonstramos neste livro e também em nosso livro “Aristóteles e a Metafisica“, onde comentamos a famosa obra do estagirita, e demonstramos as grosseiras falsificações, fundadas em autores menores e “soi-disant” Pitagóricos, ou por êrros de acepção comum, ou até sofística, o que favoreceu uma visão muito alheia à verdade do pensamento do mestre de Samos.

Reconheci, por tudo isso, quão difícil era realizar um trabalho de síntese do pensamento real daquele grande filosofo. Tal trabalho exigiria tempo e muito cuidado, pois os elementos de que dispunha eram insuficientes. Havia necessidade de joeirar tudo e tirar o que era genuinamente pitagórico do que não o era de origem de autores suspeitos ou de copistas. Em suma, era preciso realizar obra de doxógrafo. E não podia deixar de reconhecer as grandes dificuldades que teria de enfrentar. O que primeiramente se me afigurou como imprescindível era coligir, do material pitagórico, o que revelava maior coerência com as afirmações do mestre de Samos, afirmações sôbre as quais não pairasse nenhuma dúvida quanto, pelo menos, a autenticidade ideológica.

Seguindo e utilizando sempre o método da Filosofia Concreta, que criei para com ela construir uma visão coerente e sólida do pensamento, cuja justificação ainda farei oportunamente, foi-me possível realizar obra de doxógrafo, sem porem fundar-me apenas em critérios subjetivos de apreciação, o que é principio de toda doxa, mas fundar-me em critérios objetivos, capazes de dar a solidez desejada às premissas que minhas teses podem propor.

Meu livro é mais obra de exegese, mas fundada no método que criei para o exame do pensamento filosófico, método que, para mim, tem-se mostrado valioso e criador, e me tem permitido invadir com segurança os caminhos mais difíceis e tambem encontrar soluções e nitidez onde outros tem encontrado penumbra e confusões. Sôbre o valor dêsse método, para os que me lêem, seu julgamento não será difícil, depois de penetrarem no estudo de minhas obras.

Quanto aos que lêem, nada posso dizer-lhes nem tampouco êles sôbre o que faço e o que empreendo.

Êste livro é, já, uma realização do emprêgo do meu método dialético-concreto, e as conclusões obtidas estão fundadas em bases reais e históricas, suficientes para assegurar a justeza das minhas afirmações, as quais sempre procuro demonstrar.

Mário Ferreira dos Santos. “

Para mais informações a respeito do estudo do tema, acessem o site “Platão e a Tradição Pitagórica”:

O “objetivo é reunir alguns apontamentos sobre a tradição pitagórica, o neoplatonismo e a própria obra de Platão. Não sei se possuo as qualificações necessárias; entendam meus posts como observações e notas de leitura. “Se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus”.”

Para leitura via “Google Books” Pitágoras e o Tema do Número: Constelar.

AUTOR: Mário Ferreira dos Santos
EDITORA: Ibrasa, 2000 – 240 páginas

TESE 6 – Pode-se construir a filosofia com juízos Universalmente Válidos

Mário Ferreira dos Santos TESE 6
TESE 6 – Pode-se construir a filosofia com juízos universalmente válidos.

É comum dizer-se que a filosofia não pode ser construída com juízos universalmente válidos, isto é, válidos para todos.

No entanto, essa afirmação é facilmente refutável, bastando que se estabeleça um juízo universalmente válido, sobre o qual, concretamente, se possa construir todo um sistema de filosofia, como o fazemos.

Os juízos, que estabeleceremos como pontos de partida para a fundamentação da Filosofia Concreta, são universalmente válidos.

Só um apelo à loucura, refutado pelo próprio apelo, poderia afirmar que há o nada absoluto e não “alguma coisa”.

Esta vã e louca afirmativa já afirmaria que alguma coisa há. Podemos duvidar de nós, não de que alguma coisa há, pois mesmo que fôssemos uma ilusão, mesmo que nós não houvéssemos, alguma coisa há. Se para expor uma filosofia precisamos de nós, não precisamos de nós para que alguma coisa haja, pois mesmo que fôssemos ilusões, seríamos a ilusão de alguma coisa que há. Portanto, este postulado independe de nós para mostrar-se como evidente.

É um juízo universalmente válido, e é sobre ele que se fundará a …

Filosofia Concreta.

TESE 5 – Há proposições não deduzidas, inteligíveis por si de per si evidentes (axiomas)

Mário Ferreira dos Santos TESE 5
TESE 5 – Há proposições não deduzidas, inteligíveis por si de per si evidentes (axiomas).

Bastaria a mera mostra de uma para dar plena validez à tese.

Alguma coisa há e o nada absoluto não há têm tais requisitos, o que vem mostrar, portanto, que há realmente proposições não deduzidas (pois estas não precisam de outras para se mostrarem com evidência), e que são de per si evidentes, pois incluem em si mesmas o suficiente grau de certeza, imprescindível ao axioma, e dispensam demonstração, pois não é mister serem comparadas com outras para revelarem a sua validez.

Elas se evidenciam de per si, o que prova a tese.

TESE 4 – A demonstração exige o termo médio; a monstração*, entretanto, não o exige.

Mário Ferreira dos Santos TESE 4
TESE 4 – A demonstração exige o termo médio; a monstração*, entretanto, não o exige.

A demonstração exige o termo médio, pois é uma operação que consiste em comparar o que se pretende provar a algo já devidamente provado.

A monstração segue uma via intuitiva. A evidência do que se mostra impõe-se por si mesma, pois a sua não aceitação levaria ao absoluto. Também se pode fazer uma demonstração direta pela mera comparação acima citada; ou indireta, como a reductio ad absurdum, como no segundo caso.

Podemos exemplificar da seguinte forma: se alguma coisa não há, teríamos o nada absoluto, o que é absurdo: logo alguma coisa há.

Esta é uma demonstração indireta de que há alguma coisa.


* A palavra “monstração” não é dicionarizada. Nem “mostração”, sem o “n”. Uma versão aceitável seria “mostra”. No entanto, o sentido original de Mário enfatiza a oposição mostrar/demonstrar. Dada a preocupação do autor com a linguagem e a precisão filosófica do conceito exato (“monstração” vem do verbo latino monstro-monstrare, que significa “mostrar”), mantém-se a “monstração”, que deixa clara a conceituação de Mário, em lugar do “mostra”, menos agressivo ao ouvido e ao olho.

TESE 3 – Prova-se mostrando e não só demonstrando.

Mário Ferreira dos Santos TESE 3
TESE 3 – Prova-se mostrando e não só demonstrando.

O conceito de demonstração (de-monstrare) implica o conceito de mostrar algo para tornar evidente outra proposição, quando comparada com a primeira.

A primeira certeza tem a naturalidade de ser mostrada, já que a demonstração implica em algo já dado como absolutamente certo. Para provar-se a validez de algo, basta, assim, a mostra, que inclui ostrês elementos imprescindíveis para a certeza.

O axioma alguma coisa há é evidente de per si, e mostra a sua validez de per si, independentemente da esquemática humana, pois esta pode variar, podem variar os conteúdos esquemáticos, mas que alguma coisa há é evidente para nós, e extra mentis (fora da nossa mente).

TESE 2 – O nada absoluto, por ser impossível, nada pode.

Mário Ferreira dos Santos TESE 2
TESE 2 – O nada absoluto, por ser impossível, nada pode.

O nada absoluto seria total e absoluta ausência de ser, de poder, pois como o que não é, o que não existe, o que é nada, poderia?

Para poder é mister ser alguma coisa. Portanto, o nada absoluto, além de não ser, é impossível, e nada poderia fazer.

Porque se pudesse fazer alguma, era alguma coisa, e não nada absoluto. Mas, já vimos que há alguma coisa e que não pode haver o nada absoluto; portanto, nada podemos esperar que dele provenha, porque não é nada.

O termo res, em latim (coisa) do verbo reor, significa pensar ou crer. Coisa seria assim o [algo] em que se pensa ou se crê.

E quer tal termo referir-se ao ser concreto tempo-espacial, do qual o homem tem uma intuição sensível, ou a tudo quanto não se pode predicar o nada absoluto. O termo alguma, cuja origem latina, aliquid, nos revela o sentido de aliud (outro) e quid (que), outro que se distingue, que não se confunde, que é “algo” (nota-se a expressão: filho de algo, fidalgo, que não é qualquer, mas de alguém que se distingue), mostra-nos, afinal, que se entende por alguma coisa tudo quanto se põe, se dá e do qual não se pode dizer que é um mero nada.

Ora, o nada absoluto não se põe, não se dá, não tem positividade: é pura negação, a ausência total de alguma coisa, do qual se pode dizer que é nada, nada.

Também o termo entitas, entidade, em seu logos (em sua razão intrínseca), significa algo ao qual não se pode predicar o nada absoluto. E tudo o que não é nada absoluto é algo (áliquid), uma entidade (entitas).
Afirmar que “alguma coisa há”, é afirmar que, a tudo quanto não se pode dizer que é nada absoluto, é algo que “acontece”, põe-se, dá-se.

Se não há alguma coisa, teríamos então a ausência total de qualquer coisa que se dá, põe-se. Nem se poderia dizer que o nada absoluto acontece, porque não acontece, nem se dá, nem se põe: é a ausência total. E bastaria que algo houvesse, a presença de algo, para ser improcedente o nada absoluto.

Podemos não ser o que julgamos ser, não é possível, porém, o nada absoluto, a ausência total e completa de qualquer coisa. Alguma coisa há, acontece, dá-se. Em que consiste esse “alguma coisa” é o que nos cabe examinar a seguir.

Em “alguma coisa há”, o sujeito se reflete completamente no verbo, pois fora de “alguma coisa” nada pode haver, pois o nada não há, e o haver é o haver de alguma coisa.

Entretanto, não há identidade real e formal entre haver e alguma coisa, porque haver só o que é quando é de alguma coisa, pois nada não há.

Oportunamente, provaremos por outros caminhos o que ora afirmamos.

TESE 1 – Alguma coisa há, e o nada absoluto não há.

Mário Ferreira dos Santos TESE 1
TESE 1 – Alguma coisa há, e o nada absoluto não há.

O Ponto Arquimédico

Há um ponto arquimédico, cuja certeza ultrapassa ao nosso conhecimento, independente de nós, e é ôntica e ontologicamente verdadeira. Alguma coisa há…

Partamos da análise dessa verdade incontestável. Poderia não surgir o homem, e não haver um ser inteligente que captasse pensamentos, mas há um pensamento real, absolutamente seguro, certo, verdadeiro: alguma coisa há…

Pode não haver o homem e o mundo. Tudo isso é contingente, e poderia não ser. Mas alguma coisa há, pois do contrário teríamos o vazio absoluto, a ausência total e absoluta de qualquer coisa, o nada absoluto.

Ou alguma coisa há, ou, então, o nada absoluto. O nada absoluto seria a total ausência de qualquer coisa, absolutum, des-ligada de qualquer coisa, o vazio absoluto e total. Neste momento, podemos ser a ilusão de um ser, podemos duvidar de nossa experiência e da do mundo exterior, porém não podemos afirmar que nada há, porque a própria dúvida afirma que há alguma coisa, a própria ilusão afirma que há alguma coisa, e não o nada absoluto.

Quando dizemos há alguma coisa, afirmamos a presença do que chamamos de “ser”, embora ainda não saibamos o que é ser, em que consiste, qual a sua essência, o que dele podemos dizer.

Vê-se, assim, que alguma coisa há é contraditado peremptoriamente pelo nada absoluto. Afirmar que há o nada absoluto é o mesmo que afirmar que não há qualquer coisa em absoluto. Mas, note-se, em absoluto, porque, se admito que alguma coisa há, não se dá contradição em admitir-se que alguma coisa não há, pois pode haver alguma coisa, esta ou aquela, e não haver alguma coisa, essa ou aquela outra.

Chamaremos ao primeiro nada de nada absoluto, e ao segundo de nada relativo. Se ao nada absoluto contradiz o “alguma coisa há”, o nada relativo apenas a ele se opõe. Não o exclui.

Portanto, ambos podem dar-se, podem pôr-se, positivos ambos, embora de positividade inversa.

Entre o “alguma coisa há”, e “há o nada absoluto”, não pode haver a menor dúvida, e a aceitação do primeiro surge de um ato mental, de plena adesão e firmeza, sem temor de errar.

Onde poderia estar o erro? Se afirmo que alguma coisa há, o único erro poderia estar em não haver nenhuma coisa, o que é negado até pelo meu ato de pensar, até pelo mais cético ato de pensar, pois se nada houvesse não poderia ter surgido sequer a dúvida.

Portanto, a afirmativa de alguma coisa há é mostrada apoditicamente, assim como a impossibilidade do nada absoluto também o é, pois sendo verdade que alguma coisa há, o nada absoluto absolutamente não há; o nada absoluto é impossível de ser porque alguma coisa há.

Portanto, está demonstrado de modo apodítico o primeiro postulado da “Filosofia Concreta”:

TESE 1 – Alguma coisa há, e o nada absoluto não há.