Mário Ferreira dos Santos – Diferença entre Moral e Ética.

Themis, deusa romana da Justiça.
Themis, deusa romana da Justiça.

Ao ser humano cabe a frustrabilidade de certos atos, que pode ele fazer ou não. Os animais dizem sempre sim à natureza. O homem, porém, pode dizer não. Nesse “não” está o índice de sua grandeza, a abertura de sua elevação, mas também o primeiro passo para os seus erros. O homem pode frustrar o dever-ser. O dever-ser dos animais é fatal porque eles obedecem aos instintos. Mas o do homem é frustrável, porque ele é inteligente e dispõe da vontade.

E por que se dão tais coisas? As razões são simples: o homem não é um ente imutável e eterno. É um ente mutável e temporal. Sua vida é um longo itinerário, um longo drama, porque ele atua e sofre sucessivamente uma longa realização dramática, porque ele age e faz. E como age e faz, ele prefere e pretere. Por isso, ao longo do drama humano, ao longo da sua práxis, da sua prática, o homem avalia valores.

Em toda vida prática do homem há a presença dos valores que são julgados, preferidos e preteridos. Onde há ação humana, há a presença do valor, e o que o homem faz ou sofre é conveniente mais ou menos ou não à sua natureza estática, dinâmica e cinematicamente considerada. Em tudo, portanto, há valores, maiores ou menores. E, ademais, o homem dá suprimento de valor ao que lhe convém, como também lhes retira. Supervaloriza ou desvaloriza. Todas estas características do homem são precisamente o que lhe dá o caráter da sua peculiaridade.

Mas esses valores são valores do homem, por isso são valores humanos (em grego, valor é axiós e o homem é antropos, daí chamarem-se esses valores de axioantropológicos). Toda vida ativa e factiva do homem (a vida técnica) está cheia da presença dos valores e dos desvalores do homem. Por essa razão, cada ato humano é mais ou menos digno, segundo tenha mais ou menos valor. A dignidade dos atos continuados marca o seu valor.

Os atos continuados constituem o costume (o que os gregos chamavam ethos e os latinos mos, moris, de onde vêm Ética e Moral). Os atos éticos ou morais são atos que têm valor, são atos, portanto, que têm dignidade. É eticamente valioso o dever-ser que corresponde à justiça como antes expusemos: é eticamente vituperável, indigno, o ato que ofende a justiça, ou seja, o direito, o que é devido à conveniência da natureza humana, na multiplicidade em que ela pode ser considerada.

Assim, toda vida prática do homem gira em torno da Ética. Realmente a vida prática do homem é a vida ativa e a vida factiva, e naturalmente essa vida gira em torno do que é conveniente ou desconveniente. Na ação e na realização da vontade, há apreciações de valores do que convém e do que não convém, consequentemente, do dever-ser frustrado e, por isso, giram todas em torno da Ética, que tem de estar presente em todos os atos da vida prática. E prossegue o texto: como disciplina filosófica, esta tem por objeto formal a atividade humana em relação ao que é conveniente ou não à sua natureza. Os atos podem ser assim éticos ou antiéticos, ou então anéticos. Éticos, os que devem ser realizados; antiéticos, os que não deveriam ser realizados; e anéticos, os que nos parecem indiferentes.

Portanto, toda vida ativa e factiva (técnica, artística) do homem se dá dentro da esfera ética. Razão tinham, pois, os filósofos antigos que punham o Direito, a Economia, a Sociologia, a Técnica e a Arte como inclusas e subordinadas à Ética, porque os atos humanos estão sempre marcados de eticidade. Esta a razão por que se deve distinguir Ética de Moral. Esta distinção não é arbitrária. Ora, os antigos, ao distinguirem essas disciplinas e as colocarem subordinadas à Ética, não subordinavam totalmente e absolutamente, porque há uma parte de cada uma dessas disciplinas, que é tipicamente própria das disciplinas, que é a sua parte específica. A Ética, então, funcionava em relação a essas disciplinas na mesma relação de gênero para espécie.

A Ética estuda o dever-ser humano, a Moral descreve e prescreve como se deve agir para realizar este dever-ser. A Moral é variante, mas a Ética é invariante. Podem os homens, mas assistidos pela intelectualidade, errarem quanto à eticidade de um ato e estabelecer um costume (moral) que nem sempre é conveniente ou é exagerado. Podem errar, porque o homem pode errar, mas se der ele o melhor de sua atenção à Ética, ele não errará e poderia evitar os erros na Moral. É essa a razão por que muitas vezes encontramos diferenças entre a moral e a ética. E muitas vezes vimos que certos costumes de certos povos ofendem a princípios de justiça, porque nem sempre o homem escolhe como modo de proceder (seria o modo moral) aquele que melhor corresponde à realização do dever-ser ético, e às vezes é movido por certas circunstâncias históricas, ambientais, que determinam agir desse modo e não doutro, porque, apesar de não ser benéfico como seria de desejar, é menos maléfico do que de outros modos de proceder. Assim pode-se compreender que certas tribos, em determinadas circunstâncias, se vissem forçadas a liquidar os elementos inválidos que a constituíam, para que sobrassem alimentos suficientes para manutenção dos que tinham maior capacidade de sobrevivência. Este ato eticamente considerado é falho, mas moralmente considerado ele tem uma desculpa, dada as circunstâncias ambientais e históricas daquela tribo. Por isso, muitas vezes a moral pode chocar-se com a ética, e nem sempre a moral conheceria a melhor resposta ou a melhor solução ao dever ético. Nós hoje estamos numa crise, não de ética, estamos numa crise de moral, e esta crise na moral está por uma má visualização da diferença entre moral e ética. Como a moral decai, como a moral não consegue manter as suas normas, porque ela já não corresponde à realidade da vida atual, então quem sofre as consequências é a ética, parecendo aos olhos daqueles que não estão preparados, que fazem confusão entre ética e moral, que a ética também se derrui, como se está derruindo a moral, e não é verdade: a ética permanece em pé, a ética é indestrutível, a ética é eterna; a moral é humana, factível, caduca, e por isso ela pode errar. Se a mente humana for bem assistida, ela poderá evitar os erros da moral pela criação de costumes que correspondem melhor ao dever-ser ético.

Aqueles que dizem que a Ética é vária porque a Moral é vária, confundiram a Moral com a Ética. Essas confusões provocaram inúmeros mal-entendidos e promoveram muita agitação entre os que desejavam atacar a Ética. Há costumes convenientes e inconvenientes apenas a uma parte da humanidade, mas o que é ético é universal e deve ser aplicado a todos. (…)

Assim, da moral, que surge na vida prática do homem, a mente especulando sobre ela chega à Ética, que é mais especulativa do que prática, porque nela há princípios eternos, enquanto naquela há regras de valores históricos, portanto, mutáveis. Dar a cada um o que é de seu direito é uma norma ética, mas o modo como se proceda, segundo a conveniência humana obediente a esta norma, será uma regra moral. Porque erram os homens na Moral, não se deve negar à Ética o seu valor, porque esta seria um violentamento da inteligência.

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Olavo De Carvalho – Mário Ferreira dos Santos e o Nosso Futuro

Olavo de Cavalho - Mário Ferreira dos Santos e o nosso futuro
Imagem: Filósofo Olavo de Carvalho.

Mário Ferreira dos Santos e o nosso futuro

Quando a obra de um único autor é mais rica e poderosa que a cultura inteira do seu país, das duas uma: ou o país consente em aprender com ele ou recusa o presente dos céus e inflige a si próprio o merecido castigo pelo pecado da soberba, condenando-se ao definhamento intelectual e a todo o cortejo de misérias morais que necessariamente o acompanham.

Mário Ferreira ocupa no Brasil uma posição similar à de Giambattista Vico na cultura napolitana do século XVIII ou de Gottfried von Leibniz na Alemanha da mesma época: um gênio universal perdido num ambiente provinciano incapaz não só de compreendê-lo, mas de enxergá-lo. Leibniz ainda teve o recurso de escrever em francês e latim, abrindo assim algum diálogo com interlocutores estrangeiros. Mário está mais próximo de Vico no seu isolamento absoluto, que faz dele uma espécie de monstro. Quem, num ambiente intelectual prisioneiro do imediatismo mais mesquinho e do materialismo mais deprimente – materialismo compreendido nem mesmo como postura filosófica, mas como vício de só crer no que tem impacto corporal –, poderia suspeitar que, num escritório modesto da Vila Olimpia, na verdade uma passagem repleta de livros entre a cozinha e a sala de visitas, um desconhecido discutia em pé de igualdade com os grandes filósofos de todas as épocas, demolia com meticulosidade cruel as escolas de pensamento mais em moda e sobre seus escombros erigia um novo padrão de inteligibilidade universal?

Os problemas que Mário enfrentou foram os mais altos e complexos da filosofia, mas, por isso mesmo, estão tão acima das cogitações banais da nossa intelectualidade, que esta não poderia defrontar-se com ele sem passar por uma metanóia, uma conversão do espírito, a descoberta de uma dimensão ignorada e infinita. Foi talvez a premonição inconsciente do terror e do espanto – do thambos aristotélico – que a impeliu a fugir dessa experiência, buscando abrigo nas suas miudezas usuais e definhando pouco a pouco, até chegar à nulidade completa; decerto o maior fenômeno de auto-aniquilação intelectual já transcorrido em tempo tão breve em qualquer época ou país. A desproporção entre o nosso filósofo e os seus contemporâneos – muito superiores, no entanto, à atual geração – mede-se por um episódio transcorrido num centro anarquista, em data que agora me escapa, quando se defrontaram, num debate, Mário e o então mais eminente intelectual oficial do Partido Comunista Brasileiro, Caio Prado Júnior. Caio falou primeiro, respondendo desde o ponto de vista marxista à questão proposta como Leitmotiv do debate. Quando ele terminou, Mário se ergueu e disse mais ou menos o seguinte:

– Lamento informar, mas o ponto de vista marxista sobre os tópicos escolhidos não é o que você expôs. Vou portanto refazer a sua conferência antes de fazer a minha.

E assim fez. Muito apreciado no grupo anarquista, não por ser integralmente um anarquista ele próprio, mas por defender as idéias econômicas de Pierre-Joseph Proudhon, Mário jamais foi perdoado pelos comunistas por esse vexame imposto a uma vaca sagrada do Partidão. O fato pode ter contribuído em algo para o muro de silêncio que cercou a obra do filósofo desde a sua morte. O Partido Comunista sempre se arrogou a autoridade de tirar de circulação os autores que o incomodavam, usando para isso a rede de seus agentes colocados em altos postos na mídia, no mundo editorial e no sistema de ensino. A lista dos condenados ao ostracismo é grande e notável. Mas, no caso de Mário, não creio que tenha sido esse o fator decisivo. O Brasil preferiu ignorar o filósofo simplesmente porque não sabia do que ele estava falando. Essa confissão coletiva de inépcia tem, decerto, o atenuante de que as obras do filósofo, publicadas por ele mesmo e vendidas de porta em porta com um sucesso que contrastava pateticamente com a ausência completa de menções a respeito na mídia cultural, vinham impressas com tantas omissões, frases truncadas e erros gerais de revisão, que sua leitura se tornava um verdadeiro suplício até para os estudiosos mais interessados – o que, decerto, explica mas não justifica. A desproporção evidenciada naquele episódio torna-se ainda mais eloqüente porque o marxismo era o centro dominante ou único dos interesses intelectuais de Caio Prado Júnior, ao passo que, no horizonte infinitamente mais vasto dos campos de estudo de Mário Ferreira, era apenas um detalhe ao qual ele não poderia ter dedicado senão alguns meses de atenção: nesses meses, aprendera mais do que o especialista que dedicara ao assunto uma vida inteira.

A mente de Mário Ferreira era tão formidavelmente organizada que para ele era a coisa mais fácil localizar imediatamente no conjunto da ordem intelectual qualquer conhecimento novo que lhe chegasse desde área estranha e desconhecida. Numa outra conferência, interrogado por um mineralogista de profissão que desejava saber como aplicar ao seu campo especializado as técnicas lógicas que Mário desenvolvera, o filósofo respondeu que nada sabia de mineralogia mas que, por dedução desde os fundamentos gerais da ciência, os princípios da mineralogia só poderiam ser tais e quais – e enunciou quatorze. O profissional reconheceu que, desses, só conhecia oito.

A biografia do filósofo é repleta dessas demonstrações de força, que assustavam a platéia, mas que para ele não significavam nada. Quem ouve as gravações das suas aulas, registradas já na voz cambaleante do homem afetado pela grave doença cardíaca que haveria de matá-lo aos 65 anos, não pode deixar de reparar na modéstia tocante com que o maior sábio já havido em terras lusófonas se dirigia, com educação e paciência mais que paternais, mesmo às platéias mais despreparadas e toscas. Nessas gravações, pouco se nota dos hiatos e incongruências gramaticais próprios da expressão oral, quase inevitáveis num país onde a distância entre a fala e a escrita se amplia dia após dia. As frases vêm completas, acabadas, numa seqüência hierárquica admirável, pronunciadas em recto tono, como num ditado.

Quando me refiro à organização mental, não estou falando só de uma habilidade pessoal do filósofo, mas da marca mais característica de sua obra escrita. Se, num primeiro momento, essa obra dá a impressão de um caos inabarcável, de um desastre editorial completo, o exame mais demorado acaba revelando nela, como demonstrei na introdução à Sabedoria das Leis Eternas[1], um plano de excepcional clareza e integridade, realizado quase sem falhas ao longo dos 52 volumes da sua construção monumental, a Enciclopédia das Ciências Filosóficas.

Além dos maus cuidados editoriais – um pecado que o próprio autor reconhecia e que explicava, com justeza, pela falta de tempo –, outro fator que torna difícil ao leitor perceber a ordem por trás do caos aparente provém de uma causa biográfica. A obra escrita de Mário reflete três etapas distintas no seu desenvolvimento intelectual, das quais a primeira não deixa prever em nada as duas subseqüentes, e a terceira, comparada à segunda, é um salto tão formidável na escala dos graus de abstração que aí parecemos nos defrontar já não com um filósofo em luta com suas incertezas e sim com um profeta-legislador a enunciar leis reveladas ante as quais a capacidade humana de discutir tem de ceder à autoridade da evidência universal.

A biografia interior de Mário Ferreira é realmente um mistério, tão grandes foram os dois milagres intelectuais que a moldaram. O primeiro transformou um mero ensaísta e divulgador cultural em filósofo na acepção mais técnica e rigorosa do termo, um dominador completo das questões debatidas ao longo de dois milênios, especialmente nos campos da lógica e da dialética. O segundo fez dele o único – repito, o único – filósofo moderno que suporta uma comparação direta com Platão e Aristóteles. Este segundo milagre anuncia-se ao longo de toda a segunda fase da obra, numa seqüência de enigmas e tensões que exigiam, de certo modo, explodir numa tempestade de evidências e, escapando ao jogo dialético, convidar a inteligência a uma atitude de êxtase contemplativo. Mas o primeiro milagre, sobrevindo ao filósofo no seu quadragésimo-terceiro ano de idade, não tem nada, absolutamente nada, que o deixe prever na obra publicada até então. A família do filósofo foi testemunha do inesperado. Mário fazia uma conferência, no tom meio literário, meio filosófico dos seus escritos usuais, quando de repente pediu desculpas ao auditório e se retirou, alegando que “tivera uma idéia” e precisava anotá-la urgentemente. A idéia era nada mais, nada menos que as teses numeradas destinadas a constituir o núcleo da Filosofia Concreta, por sua vez coroamento dos dez volumes iniciais da Enciclopédia, que viriam a ser escritos uns ao mesmo tempo, outros em seguida, mas que ali já estavam embutidos de algum modo. A Filosofia Concreta é construída geometricamente como uma seqüência de afirmações auto-evidentes e de conclusões exaustivamente fundadas nelas – uma ambiciosa e bem sucedida tentativa de descrever a estrutura geral da realidade tal como tem de ser concebida necessariamente para que as afirmações da ciência façam sentido.

Mário denomina a sua filosofia “positiva”, mas não no sentido comteano. Positividade (do verbo “pôr”) significa aí apenas “afirmação”. O objetivo da filosofia positiva de Mário Ferreira é buscar aquilo que legitimamente se pode afirmar sobre o conjunto da realidade à luz do que foi investigado pelos filósofos ao longo de vinte e quatro séculos. Por baixo das diferenças entre escolas e correntes de pensamento, Mário discerne uma infinidade de pontos de convergência onde todos estiveram de acordo, mesmo sem declará-lo, e ao mesmo tempo vai construindo e sintetizando os métodos de demonstração necessários a fundamentá-los sob todos os ângulos concebíveis.

Daí que a filosofia positiva seja também “concreta”. Um conhecimento concreto, enfatiza ele, é um conhecimento circular, que conexiona tudo quanto pertence ao objeto estudado, desde a sua definição geral até os fatores que determinam a sua entrada e saída da existência, a sua inserção em totalidades maiores, o seu posto na ordem dos conhecimentos, etc. Por isso é que à seqüência de demonstrações geométricas se articula um conjunto de investigações dialéticas, de modo que aquilo que foi obtido na esfera da alta abstração seja reencontrado no âmbito da experiência mais singular e imediata. A subida e descida entre os dois planos opera-se por meio da decadialética, que enfoca o seu objeto sob dez aspectos:

1. Campo sujeito-objeto. Todo e qualquer ser, seja físico, espiritual, existente, inexistente, hipotético, individual, universal, etc. é simultaneamente objeto e sujeito, o que é o mesmo que dizer – em termos que não são os usados pelo autor – receptor e emissor de informações. Se tomarmos o objeto mais alto e universal – Deus –, Ele é evidentemente sujeito, e só sujeito, ontologicamente: gerando todos os processos, não é objeto de nenhum. No entanto, para nós, é objeto dos nossos pensamentos. Deus, que ontologicamente é puro sujeito, pode ser objeto do ponto de vista cognitivo. No outro extremo, um objeto inerte, como uma pedra, parece ser puro objeto, sem nada de sujeito. No entanto, é óbvio que ela está em algum lugar e emite aos objetos circundantes alguma informação sobre a sua presença, por exemplo, o peso com que ela repousa sobre outra pedra. Com uma imensa gradação de diferenciações, cada ente pode ser precisamente descrito nas suas respectivas funções de sujeito e objeto. Conhecer um ente é, em primeiro lugar, saber a diferenciação e a articulação dessas funções. Alguns exercícios para o leitor se aquecer antes de entrar no estudo da obra de Mário Ferreira: (1) Diferencie os aspectos e ocasiões em que um fantasma é sujeito e objeto. (2) E uma idéia abstrata, quando é sujeito, quando é objeto? (3) E um personagem de ficção, como Dom Quixote?

2. Campo da atualidade e virtualidade. Dado um ente qualquer, pode-se distinguir entre o que ele é efetivamente num certo momento e aquilo em que ele pode (ou não) se transformar no instante seguinte. Alguns entes abstratos, como por exemplo a liberdade ou a justiça, podem se transformar nos seus contrários. Mas um gato não pode se transformar num antigato.

3. Distinção entre as virtualidades (possibilidades reais) e as possibilidades não-reais, ou meramente hipotéticas. Toda possibilidade, uma vez logicamente enunciada, pode ser concebida como real ou irreal. Só podemos obter essa gradação pelo conhecimento dialético que temos das potências do objeto.

4. Intensidade e extensidade. Mário toma esses termos emprestados do físico alemão Wilhelm Ostwald (1853-1932), separando aquilo que só pode variar em diferença de estados, como por exemplo o sentimento de temor ou a plenitude de significados de uma palavra, e aquilo que se pode medir por meio de unidades homogêneas, como por exemplo linhas e volumes.

5. Intensidade e extensidade nas atualizações. Quando os entes passam por mudanças, elas podem ser tanto de natureza intensiva quanto extensiva. A descrição precisa das mudanças exige a articulação dos dois pontos de vista.

6. Campo das oposições no sujeito: razão e intuição. O estudo de qualquer ente sob os cinco primeiros aspectos não pode ser feito só com base no que se sabe deles, mas tem de levar em conta a modalidade do seu conhecimento, especialmente a distinção entre os elementos racionais e intuitivos que entram em jogo.

7. Campo das oposições da razão: conhecimento e desconhecimento.Se a razão fornece o conhecimento do geral e a intuição o do particular, em ambos os casos há uma seleção: conhecer é também desconhecer. Todos os dualismos da razão – concreto-abstrato, objetividade-subjetividade, finito-infinito, etc. – procedem da articulação entre conhecer e desconhecer. Não se conhece um objeto enquanto não se sabe o que tem de ser desconhecido para que ele se torne conhecido.

8. Campo das atualizações e virtualizações racionais. A razão opera sobre o trabalho da intuição, atualizando ou virtualizando, isto é, trazendo para o primeiro plano ou relegando para um plano de fundo os vários aspectos do objeto percebido. Toda análise crítica de conceitos abstratos supõe uma clara consciência do que aí foi atualizado e virtualizado.

9. Campo das oposições da intuição. A mesma separação do atual e do virtual já acontece no nível da intuição, que é espontaneamente seletiva. Se, por exemplo, olhamos esta revista como uma singularidade, fazemos abstração dos demais exemplares da mesma tiragem. Tal como a razão, a intuição conhece e desconhece.

10. Campo do variante e do invariante. Não há fato absolutamente novo nem absolutamente idêntico a seus antecessores. Distinguir os vários graus de novidade e repetição é o décimo e último procedimento da decadialética.

Mário complementa o método com a pentadialética, uma distinção de cinco planos diferentes nos quais um ente ou fato pode ser examinado: como unidade, como parte de um todo do qual é elemento, como capítulo de uma série, como peça de um sistema (ou estrutura de tensões) e como parte do universo.

Nos dez primeiros volumes da Enciclopédia, Mário aplica esses métodos à resolução de vários problemas filosóficos divididos segundo a distinção tradicional entre as disciplinas que compõem a filosofia – lógica, ontologia, teoria do conhecimento, etc. –, compondo assim a armadura geral com que, na segunda série, se aprofundará no estudo pormenorizado de determinados temas singulares.

Aconteceu que, na elaboração dessa segunda série, ele se deteve mais demoradamente no estudo dos números em Platão e Pitágoras, o que acabou por determinar o upgrade espetacular que marca a segunda metanóia do filósofo e os dez volumes finais da Enciclopédia, tal como expliquei na introdução à Sabedoria das Leis Eternas. O livro Pitágoras e o Tema do Número, um dos mais importantes do autor, dá testemunho da mutação. O que chamou a atenção de Mário foi que, na tradição pitagórico-platônica, os números não eram encarados como meras quantidades, no sentido em que são usados nas medições, mas sim como formas, isto é, articulações lógicas de relações possíveis. O que Pitágoras queria dizer com sua famosa afirmação de que “tudo são números” não é que todas as qualidades diferenciadoras podiam se reduzir a quantidades, mas que as quantidades mesmas eram por assim dizer qualitativas: cada uma delas expressava um certo tipo de articulação de tensões cujo conjunto formava um objeto. Mas, se de fato é assim, conclui Mário, a seqüência dos números inteiros não é apenas uma contagem, mas uma série ordenada de categorias lógicas. Contar é, mesmo inconscientemente, galgar os degraus de uma compreensão progressiva da estrutura do real. Vejamos, só para exemplificar, o que acontece no trânsito do número um ao número cinco. Todo e qualquer objeto é necessariamente uma unidade. Ens et unum convertuntur, “o ser e a unidade são a mesma coisa”, dirá Duns Scot. Ao mesmo tempo, porém, esse objeto conterá em si alguma dualidade essencial. Mesmo a unidade simples, ou Deus, não escapa ao dualismo gnoseológico do conhecido e do desconhecido, já que aquilo que Ele conhece de si mesmo é desconhecido por nós. Ao mesmo tempo, os dois aspectos da dualidade têm de estar ligados entre si, o que exige a presença de um terceiro elemento, a relação. Mas a relação, ao articular os dois aspectos anteriores, estabelece entre eles uma proporção, ou quaternidade. A quaternidade, considerada como forma diferenciada do ente cuja unidade abstrata captamos no princípio, é por sua vez uma quinta forma. E assim por diante.

A mera contagem exprime, sinteticamente, o conjunto das determinações internas e externas que compõem qualquer objeto material ou espiritual, atual ou possível, real ou irreal. Os números são portanto “leis” que expressam a estrutura da realidade. O próprio Mário confessa não saber se essa sua versão muito pessoal do pitagorismo coincide materialmente com a filosofia do Pitágoras histórico. Seja uma descoberta ou uma redescoberta, a filosofia de Mário descerra diante dos nossos olhos, de maneira diferenciada e meticulosamente acabada, um edifício doutrinal inteiro que, em Pitágoras – e mesmo em Platão – estava apenas embutido de maneira compacta e obscura. Ao mesmo tempo, em A Sabedoria dos Princípios e demais volumes finais da Enciclopédia, ele dá ao seu próprio projeto filosófico um alcance incomparavelmente maior do que se poderia prever até mesmo pela magistral Filosofia Concreta. A esta altura, aquilo que começara como conjunto de regras metodológicas se transmuta num sistema completo de metafísica, a Mathesis Megiste ou “ensinamento supremo”, ultrapassando de muito a ambição originária da Enciclopédia e elevando a obra de Mário Ferreira ao estatuto de uma das mais altas realizações do gênio filosófico de todos os tempos.

Não tenho a menor dúvida de que, quando passar a atual fase de degradação intelectual e moral do país e for possível pensar numa reconstrução, essa obra, mais que qualquer outra, deve tornar-se o alicerce de uma nova cultura brasileira. A obra, em si, não precisa disso: ela sobreviverá muito bem quando a mera recordação da existência de algo chamado “Brasil” tiver desaparecido. O que está em jogo não é o futuro de Mário Ferreira dos Santos: é o futuro de um país que a ele não deu nada, nem mesmo um reconhecimento da boca para fora, mas ao qual ele pode dar uma nova vida no espírito.

Notas: [1] São Paulo, É-Realizações, 2001.

Análise Dialética do Marxismo, de Mário Ferreira dos Santos.

Analise Dialatica do Marxismo, de Mário Ferreira dos Santos
Análise Dialética do Marxismo, de Mário Ferreira dos Santos

Por | FELIPE PIMENTA

Mário Ferreira dos Santos é o nosso maior filósofo, e sempre exibiu uma coragem admirável em defender a filosofia escolástica em uma época em que o socialismo e o comunismo estavam no seu auge.

Nesse livro, Mário Ferreira faz uma análise filosófica crítica sobre o socialismo autoritário de Marx. O filósofo brasileiro não era totalmente contrário ao socialismo, mas sim, defensor de um socialismo anarquista, que ele tenta definir durante o livro.

Para Mário Ferreira, o socialismo autoritário de Marx era tudo o que o socialismo do tipo anárquico pregava em sentido contrário. Seu materialismo histórico era frágil, sua tradição revolucionária não era nova, mas vinha de movimentos heréticos da Idade Média e a luta de classes não era uma coisa demonstrável de maneira empírica.

Mário Ferreira gostava do movimento anarquista, e para ele, o socialismo real da Rússia soviética era a antítese do que ele imaginava como o verdadeiro socialismo. Para ele, o fato da União Soviética ter adotado uma filosofia oficial só poderia levar à opressão e à falta de liberdade.

O socialismo soviético substituiu de maneira ridícula a família, tradição e propriedade pela família( sim, porque no regime soviético a família e os bons costumes eram defendidos de maneira mais feroz do que nos EUA), tradição (a doutrina de Marx e Lênin e de toda uma história revolucionária) e pela propriedade (a propriedade do Estado, defendida até a morte contra supostos sabotadores). Da mesma forma que a nobreza( Stalin e sua família), o clero (o comissariado) e os camponeses continuaram a existir.

Fico feliz pela defesa que o maior filósofo brasileiro faz da filosofia escolástica e de nomes como São Boaventura, São Tomás e Duns Scot. Foi essa filosofia que defendeu verdadeiramente a dignidade do homem e não pretendeu ser revolucionária, desprezando assim a filosofia do passado.

O livro demonstra a impossibilidade do marxismo e do comunismo como filosofias de Estado. Os resultados da União Soviética como a extrema paranoia contra o mundo exterior e a ineficiência da indústria soviética comparada aos países capitalistas são as demonstrações de que a mentalidade socialista autoritária e a indústria soviética não servem para estabelecer uma sociedade verdadeiramente socialista, segundo Mário Ferreira.

Apesar de não concordar com a ideia de um Estado socialista-anarquista como o filósofo propõe, devemos admirar em Mário Ferreira dos Santos a honestidade intelectual e sua filosofia que tem como uma das bases a escolástica medieval.

Análise Dialética do Marxismo, de Mário Ferreira dos Santos

Mário Ferreira dos Santos – Sobre Deus, Prólogo.

Mario Ferreira dos Santos - Prólogo Sobre Deus, Mário Ferreira dos Santos.

Embora muitos digam que em nosso século não se verifica um desenvolvimento do ateísmo com a mesma intensidade verificada no século XIX, não pensamos assim e os fatos vem corroborar a nosso favor. As grandes campanhas contra o ateísmo realizadas nos séculos anteriores, as condições históricas, a exploração ideológica, a divulgação da cultura mais em extensidade do que em intensidade e o excesso de especialismo, ao lado da invasão indevida de estetas na filosofia que a querem transformar num mesmo campo de disputas como o que transformaram o da estética, tudo isso, em suma, tem contribuído ao lado das condições históricas para que o ateísmo tivesse um desenvolvimento muito grande, se não em seu aspecto absoluto, porque não cremos neste ateísmo de caráter absoluto, pelo menos num aspecto suficientemente perigoso para perturbar o destino da própria humanidade.

Nota-se, como teremos oportunidade de ver no corpo desta obra, que o que caracteriza o ateu é a sua incompleta, imperfeita e deficiente concepção de Deus. Ele sempre constrói uma idéia de Deus muito antropomórfica, muito aproximada ao que, comumente,é apresentado nas manifestações religiosas mais populares. Até certo ponto se justifica que interpretem assim, porque as religiões na sua propaganda, na sua catequese, na sua ação pastoral, têm apresentado Deus de formas tão antropomórficas, tão primárias, que é natural que aqueles que não tem um conhecimento mais profundo da teologia oponham-se a tais concepções e construam então concepções deístas, e algumas teístas, mas pelo menos contrária ao teísmo expresso, em geral, nas religiões predominantes.

Esta obra inicia uma série sobre os temas que mais afligem o homem e que são sem dúvida alguma a causa do seu estado de angústia. Porque apesar dele ter atingido,graças à técnica e à ciência, um grau mais elevado de poder sobre as coisas, de bem-estar, e de poder aspirar à melhorias inegáveis na sua vida, ele se sente inquieto, inseguro. E, como conseqüência, esse estado de angústia abrangeu a todas as camadas sociais, desde aquelas que são as usufrutuárias dos benefícios sociais, como as que são as mais sacrificadas. O homem de hoje está enfermo em sua alma, e tão enfermo que quer negá-la inclusive.

Podemos encontrar. na literatura moderna, homens que digam assim: “Como podemos crer num Deus que cria milhões e milhões de seres miseráveis para enviá-los aos suplícios eternos? Um Deus que é um verdadeiro tirano e o pior de todos os tiranos? ” Um André Gide que chega a exclamar: “Chamei Deus a tudo quanto amo e eu quis amar todas as coisas; chamei Deus a natureza, um Deus sem caridade. Mas vosso Deus”, referindo-se aos crentes, “não tem maior caridade que a que vós mesmos lhe emprestais, não há nada que não seja inumano, menos o próprio homem”.

E Lenine concluiu que Deus nada mais é do que um complexo de idéias, produzidas pela prostração intelectual em que se vê consumida a humanidade pelos fenômenos da natureza e pela escravidão das classes. E assim podemos observar, que através dos tempos modernos, não são poucos os que levantam a sua voz para desmerecer a figura de Deus como o primeiro princípio de todas as coisas. E vão fortalecê-la, sobretudo, dentro do campo das idéias políticas; pois encontramos o desenvolvimento do ateísmo não só nos seguir dores, digamos, de esquerda, mas também de direita. Homens que representaram o que se chama a burguesia também o defenderam.

Vemos como influiu, por exemplo, em a obra de Feuerbach, A Essência do Cristianismo, que o tornou de hegeliano ortodoxo num coletivista ateu. Vimos como os anarquistas do século XIX aceitaram, na sua quase totalidade, o ateísmo como se ele representasse a verdadeira e sublime concepção dos socialistas, ao mesmo tempo que todos os socialistas, por sua vez, atribuíam o ateísmo à burguesia. Mas se a burguesia precede aos socialistas e se ela for atéia, e se nela predomina o ateísmo, como poderia o socialismo, usando das mesmas armas vir lutar contra a burguesia, julgando que atacando a idéia de Deus poderia deste modo solapar a posição burguesa? Não há uma nítida contradição nestas afirmativas? Em fins do século passado, e no princípio deste, e até nos nossos dias, desenvolve-se uma campanha ateísta organizada.

A propaganda anti-religiosa e atéia, por exemplo, organizada pela Rússia e pelos partidos comunistas do mundo inteiro, foi uma obra de vulto extraordinário. Em 1923 apareceu a obra de Jaroslavski sobre o ateísmo na Rússia em que ele afirma que todo o socialismo deve ser ateísta. Para Lenine: “A sociedade moderna se funda toda ela na exploração das grandes massas da classe obreira por uma pequena minoria pertencente à classe dos pequenos proprietários capitalistas. E qual é a forma de usar sobretudo esse domínio, essa exploração? Através da religião”. A religião, era para ele, um meio, o instrumento mais completo e mais perfeito para poder dominar a classe trabalhadora e explorá-la.

No entanto, antes de surgir Lenine, já Leão XIII Havia lançado o Rerum Novarum, o que vem provar a indevida afirmação. Não pretendemos, nestas obras, defender a Igreja Católica, defendemos sim a concepção religiosa, quer seja católica, quer seja de qualquer outra. Apontamos os erros nas concepções religiosas, onde eles estiverem, e justificamos as suas verdades dentro das possibilidades que dispusermos. Mas há em nossa obra uma intencionalidade importante que se deve salientar: é que as religiões não são um óbice ao desenvolvimento do ser humano, nem tampouco de elevá-lo nos mais altos estágios e evitar as explorações, porque através dos tempos, aqueles que estudam a história verão que foram as religiões as que mais lutaram em defesa dos pobres, as que mais lutaram em defesa dos oprimidos e também as que melhor organizaram alguma coisa em beneficio dos mais fracos. O domínio de alguns homens sobre os outros decorre por outras razões e por outras causas que não podem ser explicadas apenas pelo aproveitamento da idéia religiosa para exercer esse domínio.

É uma ingenuidade pensar-se que há homens dominados por outros que são seus dominadores, simplesmente porque aceitam esse domínio por um fundamento religioso. Se há exemplos, se há casos em que isso aconteça, não podemos pelo menos imputar ao cristianismo porque este jamais defendeu, sob nenhum aspecto, a exploração do homem sobre o homem. É doutrina genuinamente de Cristo a luta pela igualdade humana, tanto quanto é possível dentro das condições do homem, respeitando as diferenças naturais, mas nunca a ponto de que essas diferenças sirvam para justificar que uns vivam à custa do esforço de outros. Essa imputação não se deve fazer porque ela é injusta e historicamente falsa. Se houve, na Igreja, homens que puseram a sua inteligência a favor das classes dominantes ou dos senhores do momento, não se pode imputar essa atuação a todos os que compuseram a Igreja através dos tempos, não só à Igreja Católica como à qualquer outra das grandes religiões.

A exploração humana se faz através do uso de outros instrumentos, muito embora se manejem alguns instrumentos religiosos para justificar o predomínio de uns sobre os outros, que se funda sempre na força organizada, no Kratos político, sem o qual não é possível manter-se. Os exemplos que na história se apresentam de povos que se submeteram a outros, considerando-se mais elevados e que aceitaram a exploração do homem sobre o homem por princípios religiosos são em número tão diminuto e representam um aspecto tão excepcional que deles não se pode estabelecer a regra geral, porque a regra geral é o contrário: as religiões lutaram mais pela liberdade e pela igualdade humana do que qualquer outra idéia política ou qualquer ideologia.

Agora, que haja interesses que estão acima das próprias ideologias, interesses secretos, as genuínas forças ocultas que desejam solapar a religião para poder fundar o seu império sobre tudo e sobre todos é outro problema, seríssimo e gravíssimo, que é difícil tratar e difícil de provar; porque estes, que sempre estão nos bastidores da história, são suficientemente solertes e astuciosos para não deixar provas que possam amanhã servir de instrumentos para denunciá-los. Mas, que há uma inteligência organizada no mundo atual, buscando destruir todos os fundamentos religiosos, todo princípio de piedade, todo respeito a um Ser Supremo, princípio e origem de todas as coisas, para com isso poder desligar os homens, impedir a assembléia dos homens, a eclésia,a união, o amor, para fazer com que cada um veja no outro seu inimigo, esse trabalho há, porque essa suprema divisão facilitará o domínio fácil de um pequeno grupo sobre toda a humanidade, porque terão enfraquecido os homens a ponto de que esse pequeno grupo, com poucos instrumentos, poderá dominar totalmente os outros para seu beneficio.

Lutar portanto pela grandeza das religiões, pela idéia teísta, mostrar a improcedência das acusações comuns que se tem feito à religião, julgamos de nosso dever, e esta seqüência de obras que se iniciam por este volume tem essa finalidade: de reunir, do pensamento humano, numa espécie de antologia, o que há de mais elevado, de mais perfeito, de mais sublime, de mais seguro, para servir de esteio para àqueles que, embora creiam, mas sentem qualquer vacilação, e também para auxiliar àqueles que perderam a sua fé para que a recuperem, e os que ainda não a alcançaram, para que possam alcançá-la. Esta é uma tarefa que escolhemos sabendo que é grandiosa e difícil, talvez superior as nossas forças, mas julgamos que é de nosso dever experimentarem prendê-la e levá-la a bom termo.

Mário Ferreira dos Santos: “O leitor, posteriormente, julgará se cumprimos ou não com esta finalidade. […]”

Verdade Objetiva e Conhecimento por Presença, Olavo de Carvalho.

Vicente Ferreira da Silva & Mário Ferreira dos Santos

Mário Ferreira dos Santos & Vicente Ferreira da Silva

Vicente fez parte de um capítulo importante do pensamento brasileiro, que se desenrolava em São Paulo entre as décadas de 40 a 60 do século XX. Qual era o panorama da intelectualidade paulista neste período?

Havia basicamente quatro núcleos. O primeiro gravitava em torno de Miguel Reale e do Instituto Brasileiro de Filosofia, um segundo se concentrou na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Rua Maria Antônia, embrião da futura USP. Um terceiro, que foi o grupo de Vicente, e por fim o do filósofo Mário Ferreira dos Santos, trabalhando de forma quase que totalmente independente.

Vicente foi contemporâneo de Mário Ferreira dos Santos. Como você compararia a obra desses dois pensadores?

São dois dos pensadores mais importantes de língua portuguesa no século 20. Em termos de estudos metafísicos e pitagóricos, o Mário é o um dos maiores do mundo, o Vicente talvez seja um dos mais audaciosos e originais, em nível internacional também. As matrizes deles são diferentes, porque o Vicente vem de uma crítica da metafísica enquanto o Mário é um continuador e aprofundador excepcional da Metafísica. O Vicente parte do pressuposto que o pensamento de tipo metafísico está muito preso a raiz aristotélico-tomista, um pensamento de certa forma substancialista. A idéia dele é resgatar nos pré-socráticos, poetas e mitos arcaicos uma nova perspectiva do pensar. Também está o tempo todo dialogando com Kant, Fichte, Hegel, os Românticos, Heidegger e a fenomenologia. O Mário dialoga com uma filosofia muito antiga, que é o pitagorismo, mas que é uma filosofia que estrutura toda a unidade do mundo real, a partir dos matema, a Mathesis Magiste, os arithmoi arkhai, ou seja, os princípios arcanos, que são princípios arquetípicos: leis invariáveis, eternas, universais. O Mário solidifica mais a idéia de uma tradição, de um retorno. Já a fundamentação do Vicente é mais fluida, mais próxima de um Heráclito, por exemplo, do que de um pitagorismo ou da escolástica. Ambos são filósofos no sentido mais profundo da palavra. O Vicente dizia que o pensador é aquele que chega na tradição mas ao mesmo tempo tem que ser uma espécie de colonizador do futuro, está sempre propondo novos conceitos, arriscando mais, no sentido da fluidez, do condensado de idéias e de novas perspectivas.

Por Felipe Cherubin. Rodrigo Petronio, organizador das obras completas do filósofo Vicente Ferreira da Silva, fala a seguir em entrevista exclusiva concedida à Dicta.com, sobre o homem e a obra.

  1. A redescoberta da filosofia no Brasil I – Panorama Geral.
  2. A redescoberta da filosofia no Brasil II – Mário Ferreira dos Santos
  3. A redescoberta da filosofia no Brasil III – Vicente Ferreira da Silva.

Os desenhos foram criados por Cido Gonçalves, caricaturista, ilustrador e infografista. Iniciou a carreira no jornal Folha de S. Paulo no inicio da década dos anos 90, passando depois pelas redações do jornal O Estado de S. Paulo e revista Veja. Blog do Cido: ciddogonn.blog.uol.com.br

Mário Ferreira dos Santos – O Grande Filósofo Brasileiro

Mário Ferreira dos Santos O Grande Filósofo Brasileiro
Mário Ferreira dos Santos, O grande Filósofo Brasileiro. Desenho, por Joel Lobo.

“Todo homem deve viver e morrer como um

guerreiro” (Mário Ferreira dos Santos)

A finalidade desta monografia é traçar o perfil biográfico de Mário Ferreira dos Santos abordando, em linhas gerais, a sua produção intelectual e filosófica no cenário brasileiro.

Apesar de suas obras terem se difundido por todo o território nacional, principalmente na década de 60, alcançando tiragens bastante representativas no mercado editorial, sua figura continua ainda bastante ignorada nos meios intelectuais. Para suprir esta falha e também, a pedidos de muitas pessoas interessadas em conhecer detalhes de sua vida e obra, elaboramos esta monografia.

Ele próprio comentou, inúmeras vezes: “Não sou um professor de Filosofia, sou um filósofo. Há um silêncio a minha volta, mas não me importo. Quero que o leitor me julgue e só dele quero receber a critica boa ou má. Meus livros,‘ observou,’ foram entregues ao seu próprio destino, sendo os leitores os únicos propagandistas; já que era meles que os conselhavam à outros e, desta forma, foram tornando-se conhecidos e procurados”.

Sua postura ante a vida baseou-se nos princípios contidos nesta alocução… “Nunca ocupei nenhum cargo em nenhuma escola, por princípio. Deliberei desde os primeiros anos tomar uma atitude que consiste em nunca disputar cargos que possam ser ocupados por outros. É uma questão de princípios! Sempre decidi, para mim, criar o meu cargo, a minha própria posição, construir para mim a própria situação, e não ter de ocupar o lugar que possa caber a outro. O meu lugar seria o meu lugar, criado por mim, para mim mesmo; por isso não disputo, nem nunca disputei, nem nunca disputarei qualquer posição, que possa ser ocupada, por quem quer que seja. Em suma, a minha vida, em síntese, é simplesmente esta”.

Uma das críticas que mais recebeu foi a da extrema produtividade intelectual que causou, e ainda causa, estranheza! Realmente, os tipos enciclopédicos são “raros” na história do pensamento filosófico e ele próprio se questionava: “Que filósofo seria eu se não pudesse tratar filosoficamente de cada ciência?”

Acreditava na possibilidade do povo brasileiro… “todos aqueles que no Brasil revelaram possuir mente filosófica, e não  foram muito numerosos, mas contudo, foram brilhantes, tenderam sempre para um pensamento de caráter sintético; isto é, não ficaram totalmente dependentes às correntes filosóficas européias.

Sempre houve, entre nós, o desejo de abarcar o universal, esta característica é naturalmente justa e própria de um povo que vive em si mesmo o universal; por isso o Brasil é atualmente um dos países existentes, aquele que está melhor capacitado para uma filosofia universalizante, ou pelo menos, para uma nova linguagem filosófica, capaz de unir o pensamento que divergiu tão profundamente no campo já esgotado do pensamento europeu.

 Aqueles que não pensam assim, que não admitem essa possibilidade para nós, que continuem vivendo o seu modo de pensar. Nós preferimos, porém divergir”.

Sua vida foi marcada por uma luta contínua contra as idéias negativas… ao que destrói em vez de construir; ao que rebaixa em vez de elevar… “O homem é um fim e não um meio. Utilizá-lo, transformá-lo em peça de um mecanismo é ofender a sua dignidade”.

Esta monografia desenvolverá tópicos relativos a produção filosófica, sendo fiel aos dados biográficos, tendo como princípio norteador, o adágio citado por ele: “Um homem vale por suas obras”. Assim só constarão dela passagem biográficas que influenciaram sua formação intelectual definindo os traços  mais marcantes de seu caráter- embrião das idéias que concretizam o seu pensamento filosófico -.

Algumas observações se fazem aqui necessárias. Em primeiro lugar consultamos o acervo particular e selecionamos cartas, manuscritos, papéis avulsos, rascunhos, esboços de obras, aulas, palestras e gravações. O material utilizado encontra-se arquivado. Os trechos citados de aulas e palestras foram diretamente datilografadas de fitas gravadas e não tiveram a correção do autor. Mantivemo-nos fiéis a linguagem original, que muitas vezes assemelha-se a uma conversação.

Não desenvolvemos uma análise da obra filosófica, pois o nosso intuito é oferecer subsídios para futuras abordagens.

Desde as primeiras incursões na literatura, está presente a temática filosófica, que foi se desenvolvendo e se estruturou na Filosofia Concreta atingindo a sua obra máxima, a Matese.

Partindo do indivíduo como unidade, chegamos até o pensamento que é universal, e que ele legou a humanidade como parcela de contribuição à Cultura. E para concluir, fazemos nossas, estas suas palavras: “Embora não consigamos realizar – e uma vida é muito pouco para tão ingente trabalho – o nosso intuito que é dedar uma visão tensional global do existir, acompanhada de tantas provas quantas necessárias, temos certeza, porém, que o esforço de tantos anos de observação e de estudos não estará perdido, pois estamos certos que deixamos alguma coisa que pode servir de ponto de partida para ulteriores estudos e novas postulações…”

Mário Ferreira dos Santos – Invasão Vertical dos Bárbaros

Mário Ferreira dos Santos - Invasão Vertical dos Bárbaros
Mário Ferreira dos Santos – Invasão Vertical dos Bárbaros.

A expressão “invasão vertical dos bárbaros” não é criação nossa. Já a havia lançado o político alemão Rathenau, no século passado. Mas a característica que lhe queremos dar, é de certo modo outra que a pretendida por aquele político. Impossível, porém, precisar as nossas intenções, sem que primeiramente clareemos os conceitos: INVASÃO, VERTICAL E BÁRBARO. Iniciemos, contudo, pelo último.

O termo BÁRBARO era empregado de início, pelos gregos e romanos, para referir-se a todos os estrangeiros. Contudo, tomou, depois, o sentido do que não é civilizado, do que é inculto, do que combate toda e qualquer manifestação da cultura. Neste sentido, também o tomamos nesta obra. Mas é mister que sejam ainda apresentados outros aspectos que nos facilitarão ainda mais a compreensão do que pretendemos propor.

O termo BÁRBARO, entre os gregos, não se referia apenas ao estrangeiro, mas a todo povo que falasse uma língua diferente da sua, como para os romanos eram os povos que não falavam nem grego nem latim.

Posteriormente, os romanos chamaram bárbaros aos povos não civilizados, ou àqueles que não estavam sob a jurisdição romana.

A História nos relata que houve muitas invasões HORIZONTAIS de bárbaros; ou seja, invasões que se processaram com maior lentidão ou não, maior rapidez ou não, e que consistiram na penetração pacífica ou violenta de povos,  que se deslocavam para as regiões habitadas por outros, impondo-lhes o seu poder ou pelo menos os seus costumes. Mas se pode falar em invasão de bárbaros, quando essa se processa no território que corresponde à civilização. Não foram essas invasões tão cruentas como muitas vezes são descritas, pois as que se processaram no antigo Império Romano, sobretudo no período final, processaram-se gradualmente, e muitas vezes com o apoio interno dos próprios civilizados, já barbarizados em muitos dos seus costumes.

Na verdade, a invasão que é a penetração gradual e ampla dos bárbaros não só se processa HORIZONTALMENTE pela penetração no território civilizado, mas também VERTICALMENTE, que é a que penetra pela cultura, solapando os seus fundamentos, e preparando o caminho à corrupção mais fácil do ciclo cultural, como aconteceu no fim do império romano, e como começa a acontecer agora entre nós.

Esta obra é uma denúncia dessa invasão, que, preparando-se e desenvolvendo-se há quase quatro séculos, atinge agora a um estágio intolerável, e que nos ameaça definitivamente. Como obra de denúncia, e que aspira a alcançar o maior número de pessoas, dela afastamos, tanto quanto possível, o tecnicismo da linguagem científica, que cabe às disciplinas abordadas aqui, temas que são próprios do seu objeto formal.

Nossa linguagem é a mais geral possível, o suficiente para tornar claros os aspectos em exame. Os fatos que apontamos, os processos que registramos, os acontecimentos que reunimos em favor da nossa tese não são todos os que se  dão, mas aqueles que julgamos principais. Desde logo verá o leitor que cada assunto, que tratamos, admitiria um estudo mais prolongado e mais exaustivo. Não era possível faze-lo. sob pena de tornar esta obra volumosa e, portanto, mais restrita aos leitores. Fizemos questão de apenas apontar o lado bárbaro que apresenta, deixando uma longa margem de meditação para o leitor.

À exclamação dos romanos: BÁRBAROS EXTRA MUROS (os bárbaros estão fora dos muros das cidades, da civilização) hoje podemos responder:   BÁRBAROS INTRA MUROS (os bárbaros já se acham dentro do âmbito cercado pelos muros, em plena civilização, assumindo aspectos, vestindo-se com trajes civilizados, mas atrás dessa aparência, atuando desenfreadamente para dissolver a nossa cultura).

De outro lado, há as disposições prévias corruptivas, que estão em todo ciclo cultural, e atuam desde o primeiro momento, com maior ou menor intensidade, para destruir a forma do ciclo que repelem.

Os elementos ativos corruptores, guiados por uma inteligência, de vontade maliciosa, sempre souberam aproveitar-se do barbarismo como instrumento para solapar a cultura. E hoje, mais do que nunca, manejam com uma habilidade de estarrecer, dispondo de meios capazes para tal, imprimindo ao trabalho corruptivo uma intensidade e um âmbito nunca atingidos em momento algum.

Podem muitos aceitar essa situação como inevitável. Nenhum ciclo cultural, dizem, pode pretender eternizar-se. Mas esse argumento, que parece verdadeiro, é rotundamente falso. Se os ciclos culturais são contingentes, não se pode estabelecer um rumo necessário de modo absoluto, mas apenas hipotético. O que pode perecer, apenas pode perecer, e seu perecimento não é de necessidade absoluta que se dê mais cedo, porque há possibilidades de perdurar se o equilíbrio entre as disposições prévias corruptivas e as disposições prévias geradoras for encontrado. E isso é também um possível, como é um possível que a vida humana se prolongue indefinidamente. O homem poderá, então, perecer, mas poderá, também, perdurar. A perduração do contingente não encontra uma razão definitiva em contrário, mas apenas contingente também. Ademais, toda vida aspira à perpetuação.

E esse desejo em nós não é, portanto, algo que se oponha à vida. Se conhecemos o que faz corromper as coisas e  apomos, de modo eficiente, o que equilibre a destruição, com elementos conservativos, a corrupção final pode ser desviada para mais distante. Poder-se-á, então, prolongar o ser perdurante por um tempo não limitado, mas que poderá ser retardado tanto quanto   puder aquele manter-se em equilíbrio entre os contrários.

Pensando, assim, não é um desejo vão o nosso que pretenda prolongar o ciclo de nossa cultura. Se ela traz em seu bojo ideais supremos da humanidade, como o império da justiça, a moderação, a prudência sábia e santa, a coragem moderada e justa, a elevação da mulher e da criança, se pregamos a igualdade entre os homens, defendendo o direito de cada um ao lado dos seus deveres, se admitimos que se deve dar a todos oportunidades iguais, se afirmamos a liberdade e negamos as algemas e as coações opressoras, se pregamos o amor entre os homens, e o apoio mútuo, que fará que cada um ajude ao seu próximo, se desenvolvemos a ciência, democratizamos o saber e elevamos o padrão da vida humana, se nosso ciclo, em suma, reúne, numa síntese feliz, tudo quanto de grande anelou a humanidade, e se ainda não atualizamos tudo o que podemos e devemos realizar, como, então, desejar a destruição deste ciclo para volver ao dente por dente, olho por olho, às polaridades senhor-e-escravo, bárbaro-e-culto, opressor-e-oprimido, fiel-e-infiel?

Se temos em nossa estrutura cultural, no âmbito das suas idéias superiores, tudo quanto de maior a humanidade ardentemente sonhou e desejou, como admitir que se destruiu o que é fundamento para uma caminhada mais promissora? Que afastemos o que obstaculiza, que lutemos contra o que desvirtua, que fortaleçamos o que nos auxilia a marchar para a frente, está bem! Mas renunciar, demitirmo-nos do conquistado, para volver atrás, isso nunca! Lutar  pelo nosso ciclo cultural, fortalecer os aspectos positivos para impedir o desenvolvimento do que é negativo, eis o nosso dever.

²Estes temas são desenvolvidos em Filosofia e História da Cultura (3 vols.) e Análise de Temas Sociais (3vols.).

Nós julgamos que o primeiro passo para o cumprimento desse dever está em denunciar o que nos ameaça.

Por isso denunciamos. E esta é a razão desta obra.

Ela se encontra dividida em duas partes. Na primeira parte, preferimos os temas eminentemente mais adequados à sensibilidade e à afetividade do homem. Na segunda, o que se refere preferentemente à intelectualidade. A invasão vertical dos bárbaros processa -se em ambos campos, razão pela qual julgamos, para melhor compreensão de nossa tese, fazer esta distinção.

O autor, Mário Ferreira dos Santos – Invasão Vertical dos Bárbaros. 

Mário Ferreira dos Santos – “A minha luta é esta…”

Mário Ferreira dos Santos
Mário Ferreira dos Santos & Yolanda Duro Lhullier Av. São João, SP.

Mario Ferreira dos Santos: “A minha luta é esta, dar solução aos inúmeros problemas vitais brasileiros da atualidade, porque a heterogeneidade de idéias e posições facilita a de soluções, das quais muitas não são adequadas às necessidades do Brasil. O tema é vasto e exigiria um trabalho especial.” […]

“ Então, o que nos cabe fazer é orientar a juventude brasileira, dar-lhe suficiente sabedoria: clara, positiva, concreta, de modo a imunizá-la contra as tendências niilistas, para que possa pôr a sua capacidade de ação e de idealismo em algo concreto que beneficie o país. Fora disso, nada dará RESULTADO”. […]

Fontes: LADUSÃNS, S. Rumos da filosofia atual no Brasil, São Paulo, Loyola, 1976, pp. 407-428.

Mário Ferreira dos Santos – Filosofia Concreta Página. 

Mário Ferreira dos Santos – Convite à Filosofia e à Historia da Filosofia.

Rafael Sanzio, Escola de Atenas - Mário Ferreira dos Santos, Mario Ferreira dos Santos.

Convite à Filosofia e à Historia da Filosofia, Mário Ferreira dos Santos.

Em suas longas e demoradas especulações através dos seculos tem o homem constantemente perguntado.

E as respostas as magnas e as mais importantes perguntas, levaram-no a formular outras que se muitas vêzes levaram a satisfazer alguns, não satisfazem a todos e, por sua vez,  provocam novas perguntas.

Perguntou o homem, sôbre si mesmo: Quem sou? De onde vim? A Antropologia procura responder a essa pergunta. E a cosmologia,  que estuda a ordem do cosmos, procura responder-lhe sôbre a origem dêste, de onde veio, qual o primeiro principio.

E vem a Teologia, ciência das coisas divinas, para discutir as razoes e motivos a favor ou a desfavor da crença de Deus, o ser criador.

E se Deus existe, por que o Bem e o Mal? Por que não é diferente o Mundo?

E dessas perguntas, outra disciplina, a Teodicéia (De theos, Deus, e Dikê, Justiça, em grego) é a quem cabe responder se há ou não justiça no mundo. 

E como Sabemos? E vem a Gnosiologia para nos explicar -nos o conhecimento. 

Como se dá o saber Culto? E eis a Epistemologia, que estuda o saber nas diversas ciências.

E como formou o Homem sua inteligencia? E eis a Psicogênese, que lhe ensinará e discutirá os problemas referentes à formação do psiquismo humano.

E o Espirito Humano, que é criador, como surgiu? E sobre esse espirito criador  surge outra disciplina, a Noogênese, que estuda a gênese do NOUS, o espirito, e, finalmente a Noologia, a ciência do Espirito.

E como funciona o Psiquismo? E eis a Psicologia, que se encarrega de propôr respostas às perguntas formuladas aqui.

Mas, … Significam as coisas algo, … dizem mais do que o Fenomênico? E eis a Simbólica, que examina as significações das coisas.

E há algo mais oculto, que possamos penetrar mais profundamente? E eis aMistica, que quer responder a essas perguntas.

E as coisas que são Belas, apresentam em si algo que lhes dê outro valor? E então é a Estética que estudará esse ponto.

E o transcendente? Podemos alcançar o que esta além de nós, além da nossa experiencia?

E eis a Metafisica Geral, eis a Ontologia, para responder-lhe a tais perguntas.

E como se dão os Fatos no Universo? E temos a Ciência, que procura explicar o nexo do acontecer dentro de si mesmo, em sua imanência, no que MANA EM, dentro de si, nas coisas experimentáveis.

E como medir os Fatos e Conta-los? E surge a Matemática.

E como compreender o Homem em suas relações com os outros? E a Ética, aMoral, A História e a Sociologia propõem-lhes respostas.

E como compreender os nexos dos pensamentos e usá-los da melhor maneira para  atingir uma iluminação, que nos mostre mais nitidamente os fatos? E eis a a Logica e a Dialéctica.

E como explicar tudo isso, dar nexo a tudo, juntar todo conhecimento Humano, e analisá-lo em um grande corpo, num grande saber, que seja o saber de tudo, que seja o saber dos saberes, e eis…

…A Filosofia!