Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro Convivium, 1967 – Aspectos dos Ciclos Culturais.

Mário Ferreira dos Santos, Mario Ferreira dos Santos - Filosofo Brasileiro.

Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro Convivium, 1967.

Estudando as chamadas fases cráticas na História verificamos que o kratos político, como força de coesão social e como força super individual que paira acima dos grupos sociais, é sempre ambicionado não só pelos indivíduos como pelos próprios grupos.

O kratos social é propriamente o poder político que se estrutura nos ciclos culturais superiores, naquilo que constitui o “estado” e que dá uma certa coerência a sociedade, mas uma coerência fundada na lei política e, sobretudo, na violência organizada.

Os ciclo culturais passam por vários períodos com diversas fases. O juvenil é o período da formação da cultura e se caracteriza, sobretudo, pela formação de uma nova concepção do mundo, que dá o verdadeiro consensus ao ciclo. Neste primeiro período temos três fases facilmente observadas na história.

A primeira é a fase teocrática, na qual a cultura se estrutura tensionalmente sobre uma forma teocrática, tem a sua origem na Divindade, sendo transmitida aos homens pela figura mística de um iluminado, cuja personalidade se esfuma entre o histórico e o lendário, muitas vezes divinizada, mas esta divindade propriamente não pertence a fase teocrática, ela pertence a uma fase anterior, mas vai presidir, vai ser a figura central de todas as afirmações da teocracia dominante.

Por exemplo, Rama entre os árias, Maomé entre os árabes, Moisés entre os judeus, São Paulo entre os cristãos, Thot ou Hermes Trismegistos entre os egípcios, etc. Em torno dessa personagem divina ou em torno da sua significação representadas por um corpo estruturado por homens hieráticos ou santificados que regulam, cumprem e fazem cumprir a lei, pouco a pouco vai se estruturando a segunda fase crática, que é a fase da hierocracia (do gr. hieros, santo) dos homens santificados.

Aqueles que vão dominar o kratos social são os representantes e cumpridores da lei, não quer dizer que estes homens sejam propriamente os dominantes do poder estatal, eles são os dominantes do poder em geral da sociedade, porque o próprio poder estatal depende desses homens superiores que representam a última palavra dentro da nova ordem cíclica que se forma.

Ao redor desses homens sagrados vai constituindo-se um grupo maior que é formado de homens virtuosos, homens que tem a virtude e que, paulatinamente, pela sua coragem, pela sua impetuosidade na fé promovem uma força material que dá cada vez mais impulso a fé, não são apenas sacerdotes são também homens provindos de todos os setores, os quais terminam por apossarem-se do kratos político e estabelecer a terceira fase do primeiro período que é a fase da “aretocracia” ( do gr. aretê, virtude).

Paralelamente formam-se outros estamentos como a aristocracia, que na posse do poder econômico aspira também o kratos político, e é neste momento que se realiza a primeira grande revolução, a revolução aristocrática, que ascende ao poder. Os sacerdotes ainda participam do mesmo, mas cada mais vez numa situação secundária.

Neste momento surgem os príncipes. Esta aristocracia ( do gr.aristos, os melhores) vão a pouco e pouco formando um grupo escolhido, que em torno dos príncipes vão constituir o poder e a segunda fase deste segundo período sobrevêm, é a “oligocracia” (do gr. oligós, escolhido). O kratos fica em poder de um pequeno grupo que domina totalmente a sociedade.

Os sacerdotes ainda participam do poder, mas cada vez mais subordinados, até que finalmente surge o período de absolutismo da aristocracia, que é a terceira fase do segundo período, a “monocracia”, quando o poder vai emanar de um rei todo poderoso que passa a ser a encarnação do próprio estado.

O estamento seguinte é uma classe social que tendo conquistado o poder econômico aspira o poder político, e que chamamos de burguesia Ela provoca a segunda grande revolução do ciclo cultural, inaugurando o terceiro período, a democracia. Esta pode dar-se ainda com a presença da própria aristocracia, que neste caso concede direitos ao terceiro estado.

A proporção que a burguesia vai adquirindo poder, ela vai sendo dominada por um grupo mais poderoso, o grupo dos ricos, a plutocracia (do gr. plutos, rico). Este grupo vai constituir a segunda fase do terceiro período, isto é, quando os homens de negócio passam a ser dirigidos pelo grupo dos mais ricos. Este grupo vai ceder o poder a um terceiro grupo, o dos dominadores do dinheiro, inaugurando a terceira fase do terceiro ciclo, a “argirocracia”(do gr.argiros, prata).

Neste momento começam a surgir as grandes revoltas populares, quando elementos saídos dos vários estamentos passam a agitar as massas populares preparando-as para o advento da terceira grande revolução. Estas massas agitadas pelos demagogos levam de roldão a ordem social e inauguram o quarto período, que é o período da “oclocracia”(do gr. oclos, massa das ruas).

A oclocracia não se mantém no poder, porque nunca as massas mantém o poder, começam a surgir homens poderosos, forças militares que vão se impondo e que procuram salvar da catástrofe inevitável, da desordem social.

Ascendem ao poder estes homens que constituem a primeira fase do quarto período, os césares, a cesariocracia, que é a segunda fase do último período e que prepara inevitavelmente a desordem final do ciclo cultural e, ao mesmo tempo, prepara o advento de novas idéias, de uma nova fé, de um novo “consensus”, que virá inevitavelmente constituir-se na sociedade e junto com povos sobrevindo de outras regiões realizar o novo ciclo, uma nova esperança para a humanidade.

Observa-se que desde os primórdios de sua formação todo ciclo cultural encontra-se entre o choque de dois núcleos de forças antagônicas: as que tem o seu ímpeto construtivo e proporcionais à solidez, e as que tem o ímpeto destrutivo, preparando as formas corruptivas.

Assim se fossemos estabelecer dentro da concepção aristotélica as causas formativas de um ciclo cultural teríamos: a causa material seria constituída pelo conjunto dos indivíduos que constituem as diversas gerações, e a causa formal seria a cosmovisão, a visão geral do mundo, que estrutura este ciclo. Um aspecto precisa ser destacado: esta luta que perdura dentro do ciclo cultural e que também é intrinsecamente um conjunto de disposições prévias corruptivas, são os poderes que buscarão romper a coesão do ciclo e que podem muitas vezes e até em certos casos, prematuramente, destruir um ciclo em formação, como já aconteceu na História.

De maneira que se encontra como partes integrantes, essenciais de um ciclo cultural, inúmeros elementos genéricos e alguns particulares, os específicos. Entre os primeiros temos o termo médio. Na Sociologia, é o termo médio que vai dar a coesão de uma relação social, por exemplo, na família é a mãe o termo médio.

No caso das partes integrantes, essenciais, universais da sociedade, o termo médio é o “consensus” que é constituído pela cosmovisão, pela teo-visão, pela fé religiosa fundamental do ciclo cultural. Em outras partes integrantes, essenciais da sociedade, genéricas, a autoridade do termo médio que coacta as partes, que dá o atualizar-se tensional do ciclo cultural é constituído da comunidade de interesses éticos, como os religiosos, sociológicos, ecumênicos, históricos, jurídicos, etc.

Entre os que são particulares temos a diferença específica dos elementos universais determinados, elementos examinados cada um em particular. Além destas partes integrantes, essenciais, a sociedade tem as integrantes acidentais, àquelas que são estritamente necessárias, que não fazem parte da essência do ciclo. Entre elas a componência étnica social que pode variar muito, o contorno ecológico e os interesses dinamicamente considerados que mudam segundo os grupos, segundo as diversas fases e os diversos períodos da sociedade.

De forma que o desenvolvimento histórico de um ciclo social é sempre proporcionado à forma e à matéria que o constituem e suas possibilidades são, consequentemente, proporcionadas aos estágios da atualização que possa vir a ter.

Há uma série de possibilidades que pertencem ao futuro: as prometeícas que podem atualizar-se e as não atualizadas, que vão constituir o epimeteico. Assim ao colocar o ciclo cultural nas suas partes integrantes, quer essenciais, quer acidentais, forma-se uma polaridade adversa: de um lado o que consiste na preservação de um desenvolvimento normal, do que integra a sociedade e, do outro lado, as disposições prévias corruptivas, atuantes dinamicamente para corromper a sua integridade.

Os elementos téticos são os que apoiam a integração da sociedade e, por sua vez, contrapõem-se aos que constituem as disposições prévias corruptivas. Na análise destes elementos integrantes encontra-se uma série de aspectos que salientamos analiticamente, abstraídos do conjunto da realidade e dão uma visão mais nítida do ciclo cultural.

Por exemplo, a valorização do superior teológico, que é típico do primeiro período, do homem neste período como um termo médio para ligar à divindade, valorização relativa ao inferior cósmico posto a disposição do homem. Estes aspectos são téticos, são positivos porque estruturam e dão força ao ciclo cultural.

Verifica-se a justificação da cosmovisão, da visão teocósmica, da microcósmica dentro do ciclo social que é mais forte no primeiro período e, sobretudo, na segunda fase e na terceira fase, porque é a época mais apologética, onde luta-se principalmente para fortalecer esta cosmovisão. O fundamental nesta fase é a salvação do homem inserido nas idéias religiosas que fazem parte do ciclo.

Consequentemente a esta visão do mundo,a esta teovisão, subordina-se todo o conhecimento e é nesta época em que normalmente a Filosofia está subordinada a Teologia. Justifica-se a teo-visão que é, no primeiro período, meramente religiosa. Já no fim do primeiro período ela exige o auxílio da Filosofia que dará os elementos a favor da cosmovisão religiosa.

É o período da escolasticidade, observado em todos os ciclos culturais, que passam do primeiro para o segundo período.Isto não quer dizer, absolutamente, que as forças antitéticas estejam amortecidas; ao contrário, estão ativas.

Há uma luta dos elementos remanescentes de outros ciclos culturas ou os que foram incorporados ao novo ciclo ante a concepção religiosa. Observa-se que estas investidas antitéticas são muito fortes, inclusive àquelas que se constituem os defensores da cosmovisão vigente; é o período das heresias, das idéias provindas de outros setores que negam validez aos princípios fundamentais da nova cosmovisão emergente.

Analisando os aspectos antitéticos que se manifestam, observa-se a valorização excessiva dos aspectos cosmológicos em oposição da cosmovisão teológica ou seja uma luta para valorizar os valores antropológicos e, por outro lado, uma tendência a negar as possibilidades cognoscitivas do homem. Surge, então, o cepticismo, o pragmatismo, o nihilismo e a valorização da Filosofia ante à Teologia e, sobretudo, a Filosofia Prática, a Ciência Prática, tomada apenas no seu aspecto empirista.

É quando se vai valorizar a razão humana,não para justificar propriamente as tese que constituem o fundamento da cosmovisão religiosa, mas as tese que se opõem àquela, as antíteses. Há uma valorização do empírico, do racional, negação constante das possibilidade do homem penetrar no Absoluto, a busca para separar a Filosofia cada vez mais da Teologia e da Religião, separando a Ciência da Filosofia.

Processa-se o desenvolvimento acelerado da técnica e, finalmente, consegue-se a separação da Ciência à Filosofia; o que já é próprio do segundo período e inicio do terceiro.

Antes de chegar ao período democrático há uma tendência predominantemente panteísta, aos axiomas, aos princípios e postulados aceitos; a negação constante da validez dos mesmos. Desenvolve-se o cepticismo, o agnosticismo, o criticismo, o pragmatismo, o positivismo, o materialismo, o ficcionalismo, o nihilismo, o idealismo até que, já no terceiro período, vai surgir uma reação romântica, mas desordenada, que não poderá por si só salvar o que havia de positivo no ciclo cultural e exigirá outras providências.

Finalmente é quando as doutrinas filosóficas são, pouco a pouco, substituídas pelos postulados ideológicos. Surgem aí tendências ideológicas que dividem a sociedade, não mais no pensamento filosófico, mas em ideologias que vão interessar mais a grupos que propriamente à sociedade.

A proporção que a parte tética se desenvolve na História, também se desenvolve a parte antitética, de forma que à proporção que a primeira justifica a sua posição em face das oposições, as antíteses são refutadas, demonstradas e até justificadas como favorecendo a posição tética; imediatamente a posição antitética começa a combatê-las ou seja tudo o que antes defendera. Mas utiliza outros representantes daqueles poderes destrutivos dos ciclos sociais.

Por exemplo: no princípio da formação teocrática do ciclo cultural a base é toda feita na revelação divina, aceita-se como conhecimento aquela cosmovisão que vai dar a forma ao ciclo social como alguma coisa revelada pela divindade, através de homens escolhidos.

Por sua vez a parte antitética vai combater esta revelação, negando-a, afirmando que todo aquele conjunto que constitui a religião vai ser um conjunto de mitos psicológicos em projeções ficcionais, etc. A dúvida é apresentada contra a validez dos postulados éticos em geral – dos que vão constituir a ética da nova concepção.

Há um indiferentismo muito grande em relação às idéias religiosas e surgem suspeitas cépticas. O que caracteriza a parte antitética nesse período é a negação da validez da revelação. Procura-se reduzir a Ética à Moral, afirmando-se que o nosso conhecimento é apenas o que é dado pela experiência, fundado no empírico, racionalizado posteriormente.

A medida que o grupo que defende a parte construtiva e tética da sociedade demonstrar que esta parte empírico-racional é um fundamento filosófico, da própria concepção teológica, ou pode servir como fundamento filosófico da concepção teológica, imediatamente o lado antitético coloca dúvidas sobre a capacidade abstratora da razão indo alcançar a negação da sua validez.Surge, então, o relativismo, o cepticismo, o criticismo, etc.

Nesta fase busca-se negar o poder da razão para aceitar-se apenas o que constitui o experimental. Quanto a parte tética vai justificar que a Metafísica se fundamenta na realidade dada pela experiência e na racionalização que é fundada em bases reais, então a parte antitética nega também a ação abstratora do homem e afirma que a própria realidade empírica é incaptável.

O mundo é um conjunto de ficções que o homem cria. […]

É natural que se duvide do conteúdo real dos conceitos e surja o nominalismo. As palavras são apenas nomes que se dão as coisas; a lógica torna-se uma lógica da extensão, negam-se os princípios e o valor dos princípios de identidade, da contradição, de causalidade, da razão suficiente. Procura-se também negar o poder cognoscitivo do homem; o saber é puramente pragmático.

Valoriza-se a posição positivista e o capitalismo é sistemático. Nega-se o valor a demonstração, às provas que vão se afirmar,por sua vez, dependem dos preconceitos prévios dados a priori ao homem que vai só classificar. Como o conceito implica essência, a classe mais simples, porque ela apenas se funda nas semelhanças acidentais e não essenciais, busca substituir o conceito dizendo que o homem apenas alcança o classificatório; porque a conceituação implicaria a penetração no essencial, o que lhe está vedado. O problema da revelação, que era o fundamental de todos os ciclos, passa a ser secundário.

A salvação do homem só se pode dar dentro do campo cósmico. A solução só pode caber às disciplinas que constituem a Ética, como a Sociologia, a Economia, a Política. A Filosofia é colocada em dúvida e as vezes chega a ser negada; a Ciência Especulativa também o é e a própria Ciência Prática perde a sua força. Fortalece-se uma Ciência Pragmática, meramente classificatória, como modernamente se observa na valorização extremada do protocolar.

Neste momento o aspecto antitético atinge seu fim porque depois disto não lhe resta mais nada a não ser cair no nihilismo. É neste terceiro período que se desenvolve mais a parte antitética, que as lutas ideológicas surgem porque, se os problemas não são econômicos, são políticos, são sociológicos e são estas posições que devem prevalecer.

É quando se constroem ideologias, as quais prometem alcançar através de determinados fins a salvação, porém esta só será alcançada neste mundo e não em outro. A posição antitética predomina neste período e é precisamente quando se dão os ataques à posição tética.

Esta é abalada nos seus fundamentos fazendo surgir uma nova certeza, uma nova convicção, fundada no próprio conhecimento, na experiência humana, que é revelada através de homens superiores que estruturam as novas possibilidades. Estas se ligam numa forma tensional e serve de cosmovisão para o novo ciclo cultural que se inicia. No decorrer desta luta observa-se uma série de aspectos de grande importância, por exemplo: toda posição tética que defende a cosmovisão do ciclo cultural é uma posição afirmativa, e as filosofias que se formam são sempre de afirmação. Já na posição antitética, que é sempre negativa, as filosofias correspondentes são de negação. As primeiras interessam, sobretudo, em afirmar-se, em postular e demonstrar; as segundas negam, e também negam a validez a todos os meios demonstrativos.

Quer dizer que há uma dinâmica no decorrer dos ciclos, porque a cada posição afirmativa corresponde uma acomodação à esta posição adversa pela formação de uma concepção que cai no extremo contrario. Por exemplo: ao excesso de racionalismo observa-se o excesso do romantismo, do irracionalismo romântico. Ao excesso deste surgiu a fenomenologia moderna e outras concepções que vão buscar opor-se a este aspecto negativo.

Há uma constante luta, uma constante adversidade, no desenvolvimento dos períodos com as fases que não se processam sem que esteja presente esta dinâmica de acomodação às condições adversas, tanto do lado tético como do lado antitético.

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Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro Convivium, 1964 – A Crise no Mundo Moderno.

Mário Ferreira dos Santos, Mario Ferreira dos Santos - Filosofo Brasileiro.

Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro Convivium, 1964.

O tema gira em torno da crise no mundo moderno que é, sem dúvida, um dos assuntos mais polêmicos e discutidos no momento. Entretanto, para ser feita uma análise mais completa, necessário se faz uma comparação entre as diversas concepções sobre a História; o que envolveria um estudo consequentemente exaustivo de determinados tópicos que, aqui, só serão abordados, sem passarem por uma análise em maior profundidade.

Seja qual for a concepção que se tenha da História, não se pode desprezar as grandes contribuições feitas principalmente após 1850. Se até então, o homem pouco sabia do volume de dados que, posteriormente veio a ter conhecimento, a quantidade de estudos das crises que assoberbaram o mundo ocidental, no fim do século passado e, principalmente neste, levou-o a estruturar diversas concepções da História, entre as quais se destacam a de Spengler e a de Toynbee.

Não que sejam elas as principais, mas entre as que foram formuladas, são as que oferecem uma visão contínua da História, na qual se passou a compreender que o ser humano conhece, através da sua dinâmica, ciclos culturais. Estes tem um nascimento e um desenvolvimento, atingindo um patamar mais ou menos equilibrado e precipitando-se depois numa decadência: o grande final para, finalmente, serem
substituídos por outros…

Esta matéria pode e deve ser discutida e ,realmente, tem sido tema de acirradas discussões. É inegável que, se passarmos os olhos pelos grandes ciclos culturais conhecidos, observamos que assim se deu com o mundo egípcio, com o mundo hindu, com o mundo chinês e está se dando com o nosso: o mundo cristão. Seja como for existem nestes ciclos culturais uma cosmovisão que os estruturou e que sempre esteve fundamentada numa idéia religiosa.

A formação do mundo egípcio baseava-se numa cosmovisão que tinha, como fulcro central, a idéia religiosa dos sacerdotes, assim como o mundo hindu se centralizava nos brâmanes. Estas concepções do mundo possuem um aspecto genérico, mas não impedem que outros específicos (que são, de certo modo, divergentes) também existam.

É, em torno destas idéias fundamentais, destas cosmovisões que se estabelece o ciclo cultural; muito embora outros elementos também façam parte da sua formação, porém não são os fundamentais, como é a idéia religiosa, por exemplo.

Observando o nosso ciclo cultural, notamos que ele se forma ao redor da concepção cristã opondo-se, quase frontalmente, à concepção greco-romana.

Para esta o homem não era considerado na sua plenitude, como no Cristianismo, já que admitia que alguns nasciam para ser senhores e outros para ser escravos. A escravidão era estabelecida por um princípio natural, advindo do direito natural; enquanto a pessoa humana tem um valor no Cristianismo que não se encontra em outros ciclos culturais.

Enquanto para o homem greco-romano a vontade dos deuses é que determinava tudo –o fado, o destino- e, daí o bem e o mal acontecerem segundo a vontade e o capricho dos deuses, opunha-se frontalmente à cristã que concebia o homem como um ser livre, senhor do seu destino ou, pelo menos, parcialmente dono dele. Para a concepção grega este determinismo não era dado em sentido absoluto, porque ela admitia que a conjunção de várias causas pudesse produzir efeitos per accidens, distintos dos que se dão per se.

Exemplifiquemos: uma macieira dando maçãs é um efeito per se decorrente natural da própria natureza da macieira. Já, por exemplo, um acontecimento fortuito: um carro que passa pela rua e choca-se com outro sobrevindo, daí, a morte de algumas pessoas, isto é um acidente que não decorre per se, do carro que anda, mas sim de uma conjunção meramente acidental que, segundo os gregos, sobrevinham na
vida humana pelo capricho dos deuses.

Eles chamavam de o caráter trágico porque o drama seria a continuidade, a decorrência, a sucessão de uma seqüência per se.

O homem que bebe e acaba sendo presa do vício, é dramático. O jovem que morre num desastre é trágico. Trágico porque se deu devido a conjunção acidental de fatores que geraram aquele efeito; enquanto o anterior é decorrência natural de um mau hábito e, do qual, a pessoa não pode se libertar.

Os gregos, freqüentemente, distinguiam o conceito de dramático do de trágico e tinham uma concepção, consequentemente, trágica da vida, já que todo destino humano estava dependendo da vontade e do capricho dos deuses.

Para a concepção cristã a vida humana não depende do capricho dos deuses, mesmo na concepção da graça – seja da graça santificante como de outros tipos de graça- um dos temas mais debatidos e controversos na teologia cristã, pois elas podem ser consideradas como favores dados ao homem; porém muitas são adquiridas pelo mérito, pelo esforço.

O nosso ciclo cultural formou-se na decadência grega e seguiu, paralelamente, o Cristianismo ao greco-romano, consequentemente começou inserida na parte material da cultura ocidental, nos remanescentes de sua filosofia.

Em torno da concepção cristã formaram-se várias idéias contrárias à ela; já que nenhum ciclo cultural consegue constituir-se homogeneamente de modo que totalize plenamente a parte material, pois há sempre remanescentes de outros ciclos culturais que passam a ser, dentro deste, as disposições prévias corruptivas.

As idéias gregas, que foram corruptivas,continuaram a atuar no interior da estrutura cristã com a mesma disposição e isto vem até os nossos dias, onde observa-se um debate em torno das mesmas idéias que animaram os sofistas gregos no primeiro período de sua decadência, assim como os estóicos e os hedonistas durante a decadência greco-romana. As mesmas razões, os mesmos temas e argumentos aparecem manejados por vários autores modernos, embora já tenham sido refutados com antecedência de séculos.

Esta tese que vamos apresentar é uma das mais coerentes e foi aceita não só pelos egípcios mas, também, pelos hindus e pelos judeus. Nela vai se observar, por exemplo, entre estes últimos, no Livro de Daniel, a mesma concepção que foi aperfeiçoada no Ocidente.

Não se conhece nenhum ciclo cultural onde não se encontre uma divisão da sociedade em quatro estratos sociais, que se digladiam entre si: o sacerdócio, a nobreza, o empresário utilitário que, em nosso ciclo cultural recebeu o nome (um tanto depreciativo) de burguês, e o servidor, o prestador de serviços.

Estes quatro ciclos são universais em sua heterogeneidade, mas possuem os mesmos aspectos genéricos. Na formação do ciclo cultural o primeiro período é de domínio dos sacerdotes, que participam deste poder, em proporção maior que a nobreza.

O sacerdócio se apoia na massa de servidores, e o empresário utilitário se concentra ao redor da cultura, mas não a penetra pois é um estranho; apesar de admitido e aceito, não está incluído no ciclo cultural. Com o tempo sobrevêm a primeira grande revolução social que é a da nobreza, pois esta, já com o poder econômico nas mãos, aspira o político e, pouco a pouco, tenta subordinar o sacerdócio para que sirva aos seus interesses, terminando por conseguir.

Há um equilíbrio de participação no kratos social mas, finalmente, a nobreza consegue ter o domínio completo e hegemônico, passando a servir a esses interesses.

Ao penetrar no clero vem a fazer parte dele, devido ao seu prestígio ante os servidores e a massa popular, fortalecendo assim o seu poder. No Cristianismo, durante o final da Idade Média e no Renascimento, os altos postos da Igreja (do bispo para cima) só podiam ser ocupados por nobres, o que originou um movimento de rebeldia por parte dos jesuítas – o episcopalismo.

Neste movimento eles reivindicavam o direito de qualquer homem –fosse de que classe fosse- ascender ao papado. A nobreza não concordou porque assim ela não dominaria a Igreja. E deu-se o movimento da Reforma com a fragmentação da Igreja Católica, indo repartir-se em inúmeras igrejas com a perda do poder; não só do poder temporal –do qual ela foi senhora absoluta- mas, também, do espiritual; já que não tinha sobre as massas a mesma influência que exercera nos seus primórdios.

Dá-se a incorporação do empresário utilitário e pode-se perguntar: por que? Obviamente que, com o domínio da nobreza, segue-se a formação dos grandes estados indo surgir a pseudo-idéia, a “grande mentira” do nacionalismo pois, neste momento, os príncipes (desejosos de poder) “inventam” a concepção nacional para formar as minorias insatisfeitas de outros povos a aderir ao seu movimento, alegando uma homogeneidade étnica ou lingüística, religiosa ou de direito, ética, o que vai, na realidade, constituir um subterfúgio político utilizado para justificar a formação dos grandes estados. Aparecem os exércitos que precisam ser uniformizados e cuja manutenção obriga a produção em série.

O periético – aquele que se encontrava à parte da cultura- passa a fazer parte dela vivendo o ciclo e fundindo-se nele, indo desenvolver seu poder econômico e exigindo, consequentemente, a participação no governo. No início aproveita-se dos nobres arruinados, forçando o casamento com as filhas dos burgueses e, depois, pela necessidade crescente do luxo (o que levou a nobreza se endividar e ser, pouco a pouco dominada pela burguesia).

Instala-se então a segunda grande revolução que, realmente, aparece em todos os ciclos culturais: a revolução burguesa que no nosso ciclo tem o nome de revolução democrática, porque são sempre portadores de promessas de felicidade dos povos, principalmente em relação aos servidores. Os burgueses ascendem ao poder e dominam a nobreza e o próprio clero, quando não os aniquila.

A esta segunda grande revolução sobrevêm, finalmente, as grandes agitações que são provocadas pelos trânsfugas dos diversos estratos sociais, àqueles que estão descontentes (sejam oriundos do clero, comoda nobreza e da burguesia) e passam a agitar as massas para uma nova revolução, cuja finalidade é transformar a sociedade.

Como o poder já não pode mais ser dado, porque o único estrato que ainda não os teve é o servidor, surgem os que lhe vão prometer o poder. É o que fez Marx no século passado, propondo ao servidor a assunção ao poder através da ditadura do proletariado. Promessa feita no século passado mas que não aconteceu e não está acontecendo.

Não que ela seja uma impossibilidade histórica, porque ante os fatos contingentes não podemos estabelecer um determinismo rígido, porém durante estes seis mil anos não se concretizou a não ser em pequenos grupos, onde as massas assumiram o poder político. Não estando, porém, em condições de assumi-lo por um longo período, perdem-no para os outros estamentos.

Quando os bolchevistas compreenderam isso substituíram ou deram à ditadura do proletariado uma solução: o partido –vanguarda do proletariado- para que, pouco a pouco, fosse devolvido o poder ao proletariado através da redução do Estado que se processaria lentamente, de acordo com as possibilidades sociais, e com a promessa de um estado anárquico, na qual o poder não mais pertenceria a grupos mas seria da própria sociedade, politicamente organizada e dona do seu destino.

Este é um tema, sem dúvida, apaixonante e o qual vivemos não só como espectadores mas, também, como intérpretes.

Consequentemente nos atinge e nos interessa e daí os debates apaixonantes e polêmicos que surgem. Entretanto observamos os fatores corruptivos que atuam corrompendo o ciclo cultural e que vão gerar o estado de desordem, de confusão do mundo das idéias.

Desde o início no Cristianismo apareceram fatores corruptivos que atuaram como todas as heresias que se formaram, pois se apresentavam com o espírito religioso e traziam, no seu bojo, idéias contrárias à concepção cristã.

A religião cristã é sincrética; reúne os pontos altos de todas as outras religiões tendo os copiado.

Os cristãos não negam; sabem perfeitamente que a missão cristã não é criar uma coisa nova. A boa nova não era um substituição total do que havia, mas sim a reafirmação do que era positivo no pensamento dos povos nas suas ligações a um princípio superior – fonte e origem de todas as coisas – que o homem deve reverenciar.

Encontra-se sempre em oposição aos princípios positivos do Cristianismo, os opositivos, sobretudo negativos que têm uma função corruptora e, entre estes, o dogmatismo.

Aqui é empregado em sentido religioso e não ético, como comumente se faz. Se observarmos as religiões dos diversos ciclos culturais, vê-se que todas foram positivas quando construíram uma cosmovisão –base da formação de um ciclo cultural.

O cepticismo gerou as constantes idéias do mundo greco-romano que colocaram a dúvida, sobretudo no que o cristianismo afirmava como verdadeiro e serviram à tentação corruptiva porque, perdendo-se os princípios, facilmente perdem-se os meios.

A concepção ética, as concepções sobre a vida social que o cristianismo podia propor, se os seus princípios fossem deficientes e, consequentemente seriam falsas as suas conclusões.

Toda esta ação para destruir a positividade da concepção cristã gerou os “frutos” da época moderna.
Após a vitória da democracia de Atenas, depois da desastrosa guerra do Peloponeso, os atenienses resolveram fazer um processo para saber quais as causas que os tinham levado a situação catastrófica em que se encontravam. Concluíram que a desgraça fora a presença dos sofistas, já que haviam deixado os germens da dissolução, e a juventude os colhera!

Quando a nobreza de Atenas perdeu, e ascendeu a democracia, a luta pelo poder foi imensa. Como a juventude aspirava ao poder tinha que se preparar: e os meios para isso eram a oratória e a eloquência que possibilitavam uma argumentação para os debates. Sábios de todas as partes do mundo grego reuniam-se em Atenas onde encontraram um mercado ávido.

A juventude pagava, à peso de ouro, suas aulas, no intuito de poder dispor de uma argumentação poderosa ante os adversários.A conseqüência foi a queda da juventude, como decai em todos os momentos de agitação política, perdendo suas ligações com a cultura superior, tornando-se apenas uma massa agitada que vive de palavras de ordem.

Os sofistas tinham sido a causa desse estado de coisas e foi cometido um dos maiores equívocos da História, já que a culpa foi cair em Sócrates. Sócrates, que nos seus primórdios fora um sofista, se libertara e lutava contra, procurando provar como aqueles pseudo-sábios não tinham o valor que a juventude lhes dava.

Foi condenado por esta mesma juventude, constituída de agitadores, que pediu a sua morte. E morreu bebendo cicuta! Perpetuou-se, assim, o grande crime contra a filosofia de Atenas. O primeiro foi contra Anaxágoras, acusado de impiedade e do qual foi exigida, também, a morte.

Posteriormente, observa-se na decadência grega, a presença de duas concepções que vão debater, acelerar essa decadência: o estoicismo e o epicurismo.

O primeiro tem aspectos positivos e grandiosos, sobretudo na parte ética e na filosófica, mas como é uma doutrina atéia, não uma doutrina agnóstica, ajudou a fomentar a dúvida, a descrença, a falta de fé em algum princípio, em alguma coisa que pudesse servir de esteio para a juventude.

O epicurismo, que também não deixava de ser agnóstico, pois a quase maioria dos epicuristas era atéia, defendia estas mesmas idéias, só que propunham quase que um hedonismo, isto é, a busca e satisfação das paixões.

Encontra-se, no decorrer de todo o processo histórico do Ocidente, a luta constante contra os princípios fundamentais da filosofia cristã, que é feita usando dos mais indignos processos, ao lado também das infâmias históricas e filosóficas.

Assim, aqueles que antes proclamavam uma tese, quando esta passa a ser incorporada a concepção cristã e considerada uma tese fundamental, eles passam a combate-la. Vemos a defesa da razão e sua exaltação na Revolução Francesa, quando se prova que a razão é um dos esteios da concepção cristã, surge, então , o irracionalismo, a defesa da concepção contrária.

Em todos os tipos agnósticos sobretudo, essa presença adversativa de dois termos em oposição é que vão acomodando as condições adversas de um lado e de outro, sempre provando o contrário que o outro lado defende, porém fica a pergunta: como conseguem, se eles estão errados, deteriorar o que está certo? Essa é a grande desgraça da humanidade: o erro tem mais facilidade de propagar-se do que a verdade, é mais fácil propagar-se uma infâmia do que uma boa idéia. É mais fácil destruir do que construir. Essa é uma das condições humanas e uma das nossas grandes impossibilidades.

Havia, porém, alguma razão de combater a concepção cristã? No atual ciclo não há uma luta contra aqueles que representam o cristianismo, mas a Igreja errou ante o seu desenvolvimento histórico, pois teve momentos onde foi pecadora. A Igreja triunfante é a dos bem-aventurados que não existe neste mundo. O que existe é a Igreja sofredora, a Igreja pecadora, a que teve seus momentos altos e os de depressão profunda. Nela surgiram homens que construíram obras extraordinárias, mas também muitos que a destruíram.

Hoje a Igreja está colhendo os frutos desse estado porque há uma grande cisão interna. Por mais que ela busque através desse concílio, no ecumenismo uma unificação, a cisão é inevitável, porque não consegue mais vencer os males que foram semeados por homens que não mereciam chamar-se cristãos.

Encontramo-nos nesta situação: seremos os espectadores e intérpretes de um grande final? Ou há possibilidade de transformarmos uma causa material de uma nova concepção do mundo e que ainda continue cristã dentro dos princípios fundamentais do Cristianismo, que são universais, que representam o que de mais alto e nobre o homem alcançou?

Esta pergunta, naturalmente, exige uma resposta. Ela é difícil, porque os estudos históricos ainda não são suficientes para que se possa admitir que o final esteja próximo. Sem dúvida que a guerra nas condições atuais poderá traçar definitivamente este final e os sobreviventes voltarem a barbárie e assim se fechar o nosso atual ciclo cultural.

Porém é possível vencer-se esta guerra, evitá-la através de que meios? Será que o medo da própria destruição seria capaz de evitar o conflito? Não cremos. O medo não é positivo, o medo é uma trepidação do ânimo ante um perigo eminente e não é suficientemente forte para impedir as guerras porque, nunca na história, o medo impediu alguma coisa. Precisamente é a coragem, muita coragem, pois só ela nos torna capaz de enfrentar uma situação difícil. Não existe a possibilidade de um ciclo cultural ser “eternamente jovem”?

A História nos mostra que não acreditamos em certo sentido, por uma razão muito simples: no decorrer da luta estes estratos sociais, que se formam e no desgaste das próprias idéias, no entrechoque das acomodações adversas, chega-se a um final em que não há mais capacidade de criar como nos encontramos, infelizmente, hoje: num mundo estancado de criação que apenas pode se dedicar a examinar o que Spengler chamava de produzido, produto, mas que não tem mais capacidade de produzir a não ser no setor da técnica e no da ciência ( no setor de classificação, de exame) e não na sua parte criadora.

A Escolástica, que foi sucessora do pensamento grego e que chegou a ter vultoseminentes, depois do surgimento de um Santo Anselmo, de um Alexandre de Hales, de um São Boaventura, de um Duns Scot, de um São Tomás de Aquino e, finalmente, da Escola de Coimbra com seus grandes filósofos, e de Salamanca, representados por duas figuras do pensamento desta época, Pedro da Fonseca e Francisco Suarez, entrou num certo recesso, numa luta estéril de escolas onde as tentativas criadoras foram parcas.

O Cristianismo também pode ser visto por dois ângulos: estamos vivendo o cristianismo de Pisces (peixe) e já prenuncia-se o de Aquário. Peixes foi o símbolo dos cristãos porque eles se procriam sem conjunção carnal, a fêmea põe os óvulos e o macho, depois, os fecunda. Cristo foi tomado como o simbolizado deste símbolo. Aquário, na concepção dos antigos, tem o sentido mais social, se observarmos o de pisces vemos que é um cristianismo individualista, que busca a salvação pessoal, não se propondo a salvação das coletividades. O de Aquário, é a salvação das coletividades, é fundamentalmente o amor do homem com o seu semelhante, com o próximo, que é a caridade.

Ele só é possível dentro das condições em que vivemos, pois temos a causa material (no sentido aristotélico), a formal que seria a cristã, a final seria o bem coletivo, além da salvação individual para os que tiverem crenças religiosas, e encontraríamos a causa eficiente, dependente da nossa vontade, como seres livres capazes de realizar esta idéia.

Este cristianismo, portanto, seria uma possibilidade para nós e que poderia estancar a nossa decadência, abrindo as portas para uma “nova visão do mundo” em que o homem compreendesse que o seu dever é realizar o máximo de bem aqui para que mereça, fora deste mundo, alguma coisa.

Para os que não crêem, para os que não tem a crença e a fé já, que esta não é algo que se fabrique, que se imponha, mas nasce espontaneamente no coração humano, mesmo aqueles que não tem a fé estariam, no entanto, neste cristianismo, lutando pelo bem coletivo, pelo bem de todos, principalmente pelo do servidor, do homem simples, do trabalhador da nossa época que nunca, como agora, foi tão desmoralizado. Os trabalhadores nunca constituíram uma classe revolucionária, ao contrário, foram sempre os que mais auxiliaram as reações na História. Mas, também, quando chega a esta degenerescência pouco adianta auxiliá-lo e esperarmos um gesto de gratidão porque, aqueles que maiores benefícios fizeram a essa massa serão os mais combatidos, os mais perseguidos e, no entanto, os demagogos, os que melhor a exploram, que sempre lhes dão migalhas, terão a aprovação das mesmas multidões.

Assim se deu com as multidões em Roma, na Grécia, na decadência egípcia, que sempre apoiaram os que não lhes davam nada, mas que tinham a habilidade de lhes dar migalhas.

Estes são os aspectos gerais da decadência. Precisamos é ter uma consciência deste estado e compreendermos que, pelas nossas condições históricas, somos capazes de dar uma possibilidade nova ao mundo, mas não devemos desmerecer-nos tanto como até então o fizemos, pois sofremos de um colonialismo passivo, que é o mais triste dos colonialismos.

É o que consiste em não dar valor as nossas próprias possibilidades e só admitir que é grande aquilo que vem de fora, consequentemente nos desmerecemos, e é preciso que nos estimulemos, que tenhamos fé em nós.

O Brasil, pelas suas condições históricas, porque é um país que recebeu os povos de todos os quadrantes do mundo e conseguiu dar uma convivência entre todos, a mais harmônica que se conhece na História, pois não há entre nós nenhum conflito de caráter racial ou de caráter étnico, isto é raro, e daí que este povo poderá lançar uma visão ecumênica, uma concepção universal, porque qualquer ciclo cultural que se forme hoje, no mundo, tem que ser ecumênico, universal, porque a ciência está abrindo as fronteiras, enfim o conhecimento é universal, por mais que os políticos cerrem as fronteiras, façam muros da vergonha, cortinas de aço, o conhecimento está penetrando, está atravessando e vai além, e este mundo se tornará num só.

Nós, brasileiros, somos capazes de viver o equilíbrio dentro do heterogêneo e seremos capazes de unir os opostos que se analogarão numa concepção universal.

Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro Convivium, 1964 – A Crise no Mundo Moderno.

Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro Convivium, 1964 – A Ciência dos Valores em Filosofia.

Mário Ferreira dos Santos, Mario Ferreira dos Santos - Filosofo Brasileiro.

Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro Convivium, 1964.

A origem da palavra axiologia vem do termo grego axiós, que significa valor, mas temos um outro termo no grego também significando valor, a língua é mais rica neste ponto do que a portuguesa, que se chama timos, que é um valor no sentido prático, e axiós o valor no sentido especulativo. Temos a presença de timos em palavras como estimar, estimação, etc

Há uma parte da axiologia que penetra na timologia e auxilia os estudos timológicos com a sua parte incomutável. Como trabalhamos com os princípios metafísicos também na parte da ciência prática, o princípio de não-contradição é um princípio de caráter metafísico, lógico também, mas é ontológico primacialmente. No entanto vai prevalecer nas outras ciências.

Há certos princípios da axiologia especulativa que vigoram na axiologia prática que chamam de axiologia prática e que prefiro chamar de timologia porque está mais de acordo porque na prática nós estimamos. É como na matemática aplicada e na matemática especulativa, na verdade não há uma matemática puramente especulativa e outra prática, a lógica formal não é puramente especulativa, nós temos uma lógica material que é verdadeiramente prática, que vai para a prática.

Temos que fazer estas distinções, mas não podemos ficar apenas no campo especulativo, aí há o perigo de ficarmos num campo de abstrações, também não podemos confundir os dois campos.

Mário Ferreira dos Santos – Missão da Filosofia na vida Cultural Brasileira Hodierna.

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Missão da Filosofia na vida cultural brasileira hodierna

Posso colocar-me na seguinte posição: nós, brasileiros, por vivermos materialmente o universal humano, por não termos compromissos históricos que pesem demasiadamente sobre os nossos ombros, nem tampouco compromissos filosóficos, somos um povo apto para uma Filosofia de caráter ecumênico, uma Filosofia que corresponda ao verdadeiro sentido com que ela foi criada desde o inicio.

Parto da posição pitagórica: Pitágoras, diz-se, afirmou que era um amante da Sabedoria (sophia), da suprema Sabedoria, que cointuímos com a própria Divindade. Este afã de alcançá-la, os esforços para atingi-la, os caminhos que percorremos para obter essa suprema instrução (daí chamá-la de Mathesis Megiste, que é a suprema instrução), todo esse afanar é propriamente a Filosofia.

Assim, posso admitir que há vários caminhos, embora só haja um caminho real. Como fundamentava Pitágoras, repetido depois por Aristóteles, que a única autoridade na Filosofia é a demonstração, sendo que esta deve ser apodítica, e, se possível, com juízos necessários e até exclusivos, a Filosofia construída deste modo só pode ser uma: positiva e necessariamente concreta, que é a posição que tomo aqui.

Podemos viver o universal, no sentido puramente quantitativo, os modos de ver e de sentir dos diversos povos, mas não podemos permanecer na situação de ser um povo que recebe todas as idéias vindas de todas as partes, que não possa encontrar um caminho para si mesmo; temos de criar este caminho.

A minha luta é esta, dar solução aos inúmeros problemas vitais brasileiros da atualidade, porque a heterogeneidade de idéias e posições facilita a de soluções, das quais muitas não são adequadas às necessidades do Brasil. O tema é vasto e exigiria um trabalho especial. Continuar lendo Mário Ferreira dos Santos – Missão da Filosofia na vida Cultural Brasileira Hodierna.

Importante: Convite a Interessados.

Il Guercino, Atlante che sostiene il globo celeste, 1646 - Cópia
Il Guercino, Atlante che sostiene il globo celeste, 1646.

Ilustre amigo do Professor Mário Ferreira dos Santos: “Ao longo de todos estes anos, após a ausência do nosso professor dentre nós, formou-se a consciência de que havíamos convivido com um extraordinário mestre e amigo, cuja memória e obra filosófica não se podem perder e que incumbe a nós resgatar.

Num tempo em que os estudos escolares não se preocupam com a filosofia humanista, em qualquer nível; num século que passou envolto em lutas ideológicas de cunho nitidamente materialista; no momento em que a cultura eminente centra-se no efêmero, no superficial, no emotivo, no consumível; no instante em que o homem parece, mais do que em outros tempos, buscar desesperadamente suporte para suas angústias, dúvidas e incertezas, desorientado por tantos sinais contrários, é tempo de resgatarmos as figuras modelares, sobretudo daqueles que moldaram e fecundaram as mentes de tantos discípulos, lançando-lhes sementes de verdade, autenticidade intelectual, certeza e maturidade filosófica.

Despontam hoje fortes exigências apontando para este empenho reabilitador da imensa obra filosófica pedagógica e cultural de Mário Ferreira dos Santos, já iniciada com a edição de “Pitágoras e o Tema do Número”, “O Evangelho de São João”, e outros a vir à luz.

Urgem os tempos! Entendemos que a reedição de seus principais livros e a edição dos inéditos será obra de tantos anos que muitos não sobreviverão à tarefa.

Tempus fugit! Se desejamos nos firmar neste anseio e propósito, urge que nos associemos em torno à idéia comum e busquemos medidas e instrumentos para abrir ao grande público o inestimável tesouro da Filosofia Concreta de Mário Ferreira dos Santos, com toda sua alargada abrangência às matérias correlatas.

Houvesse uma só Editora, com esse hercúleo propósito, passaríamos décadas esperando, mas se nos empenharmos em editar várias obras em tantas outras editoras, a floração dos livros do mestre seria mais abundante.

A idéia central é, pois, fundar uma “Associação de Amigos Mário Ferreira dos Santos” (ou o que melhor for sugerido) para orientar, suportar e dar continuidade aos trabalhos preparatórios de revisão e atualização dos livros publicados e os inéditos, visando, em curto tempo, editá-los ao grande público que ainda aguarda sua obra.

Saudamos aos amigos, conhecidos ou não ainda, mas formando desde já a grande família de discípulos e amigos do ilustre Prof. Mário Ferreira dos Santos, solicitando que se manifestem e opinem conforme documento.

Yolanda Lhulier dos Santos; Nadiedja dos Santos Galvão; Carlos Aurélio Mota de Souza.

A Metafísica de Mário Ferreira dos Santos, um Autodidata Brasileiro

Fyodor Bronnikov
Grupo de pitagóricos celebrando la salida del sol. Himno al sol naciente, Fyodor Bronnikov.

Sidney Silveira

        Pelo dedo se conhece o gigante, e pelas premissas se reconhece um filósofo. Mas, para revelar as premissas às vezes é necessário percorrer o caminho inverso: partir das conclusões para chegar à fonte do pensamento ou de um sistema, pelos efeitos remontar às causas, como fez Tomás de Aquino quando, a partir do movimento, demonstrou, nas famosas cinco vias, a impossibilidade da inexistência da Causa Primeira: Deus.

O horizonte de uma filosofia é prefigurado pelas idéias básicas do filósofo, e os escolásticos sabiam disso. Infelizmente, a sua lição credo ut intelligam (“creio para saber”) foi desprezada pelos modernos, cujas suposições céticas só poderiam culminar na visão esquizóide de Wittgenstein, que nos garante: o homem não pode ter certeza objetiva, nem mesmo de que tem duas mãos; neste caso, haveria uma “certeza subjetiva”, mas esta, incrivelmente, não lhe facultaria “conhecer” o fato de ter duas mãos. Em palavras simples: estraga o fubá, mas poupa o farelo.

Para além desse ceticismo hoje imperante, há o silêncio em torno de pensadores como Mário Ferreira dos Santos, tão desconhecido quanto fulgurante. A trajetória deste autodidata brasileiro nos remete, por analogia, à tradição judaica do “santo oculto” (nistar), que vem dos tempos talmúdicos e segundo a qual existem, em cada geração, 36 homens justos que são os fundamentos do mundo; se o seu anonimato fosse rompido, eles não seriam nada. Nas palavras de Gershom Scholem, estudioso da mística hebraica, um deles pode até ser o Messias, mantido em segredo porque a época não está à sua altura. Mal comparando, o tempo de Mário Ferreira não esteve à altura dele. Esse homem cumpriu a sua vocação à sombra do período em que viveu.

É verdade que na “História da Filosofia no Brasil”, da Vozes, Jorge Jaime, da Academia Brasileira de Filosofia, dedicara 20 páginas ao “portentoso criador da filosofia concreta”. Mas, se avaliarmos a dimensão do trabalho a que se refere Jorge Jaime, o reconhecimento soa tímido. Em sua “Filosofia concreta” (1957), Mário Ferreira parte de um “ponto arquimédico” para demonstrar cerca de 260 teses, num trabalho de gigante. Esse ponto seria a verdade auto-evidente “alguma coisa há”, e não o nada absoluto. Demonstrado o postulado inicial, ele nos leva a concluir, na segunda tese, que “o nada absoluto nada pode”, pois se pudesse não seria o nada e sim alguma coisa. O filósofo então envereda pelas mais diferentes vias demonstrativas, até chegar a uma excelsa verdade: a existência do Ser Supremo em ato.

Nada menos que isso.

Agora, com o lançamento de “A sabedoria das leis eternas”, um texto inédito (com introdução e notas de Olavo de Carvalho), Mário Ferreira dos Santos reaparece em trabalho cuja leitura será difícil para quem não tenha familiaridade com o filósofo. No livro, imprimindo o habitual sentido matematizante à filosofia (Mário era pitagórico), ele estuda as dez leis ontológicas que, “descendo do plano dos princípios ao da manifestação, imperam efetivamente em todas as ordens de realidade”. A essas leis chega-se por vias especulativas, e Mário – precavido contra os dogmas do ceticismo e do agnosticismo – expusera e refutara teses contrárias em trabalhos anteriores, por diferentes sistemas lógicos e uma dialética inventada por ele: a “decadialética”.

A filosofia de Mário Ferreira se parece com a Escolástica, mas em questões escolásticas ante as quais filósofos modernos tomaram atalhos de conseqüências esterilizantes, que acabaram por resultar na negação do estatuto da verdade. Algumas teses da “Filosofia concreta” são idênticas às do “Tractatus de primo principio”, de Duns Scot, como nesta questão: “O que não é causado por causas extrínsecas não é causado por causas intrínsecas”. Há tanto demérito nesta igualdade de enunciados quanto haveria em constatar que, nos triângulos retângulos, o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos. Ora, a verdade desse teorema não é verdadeira porque Pitágoras a descobriu, mas Pitágoras a descobriu porque ela é verdadeira. Ademais, ninguém pode ser “dono” de nenhuma verdade; ao contrário, por seu poder transformador, a verdade é a dona de quem a consegue contemplar.

O amor de Mário Ferreira à sabedoria deixa-nos uma lição. Ou o homem procura enxergar, com humildade, os dados da realidade que a ele se apresentam, cotidianamente, ou os transtornos da personalidade decorrentes desse erro o transformam num caso psiquiátrico, cujo diagnóstico pode estar na raiz do seu ceticismo: a crença na inexistência de Deus, primeiro motor da negação da verdade como baliza dos conceitos humanos e, também, da violência de um sujeito contra si e contra o seu próximo.

Pergunte-se a um filósofo se Deus existe, para que se conheça, de antemão, o horizonte de suas especulações. Em 99% dos casos, o ateu e o agnóstico viram céticos em filosofia, materialistas em política e amoralistas em estética. Mas, neste último caso, quando a beleza não mais se identifica com o bem e a verdade, uma civilização começa a se autodestruir.

* Sidney Silveira é jornalista no Rio de Janeiro. Colaborador da “Sociedade Amigos do Professor Mário Ferreira dos Santos”. Artigo publicado no jornal “O Globo”, em 13/07/2002.

Mário Ferreira Dos Santos – Palestras Sobre a Analogia do Ser

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Mário Ferreira dos Santos – A Dignidade do Filósofo.

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Imagem: Filósofos Gregos: Sócrates, Platão e Aristóteles, A Dignidade do Filosofo.

Mário Ferreira dos Santos,  Fragmento Retirado do livro: Lógica e Dialética, Enciclopédia de Ciências Filosofias e Sociais. POSTAGEM LINK

A filosofia é um saber amplo, sistemático ou não, construtivo ou não, que abarca a totalidade do conhecimento para transcendê-lo numa visão geral. Não é tal enunciado uma definição porque ante tantas definições, e tão díspares, melhor é não definir a filosofia, que é activa, que é dinâmica, pois seria prendê-la, desse modo, à estreiteza de um arcabouço sempre limitado.

Como é ela hoje conjunto de uma multiplicidade de disciplinas, cujos objectos cada vez se distinguem mais, a filosofia forma um corpo geral que pode ter o aspecto transcendente ou não, para uns ou para outros, mas que, pelo menos, transcende os objectos particulares das diversas disciplinas, para ter, como objecto, o que consideramos a totalidade, e poder dominá-lo numa visão de conjunto.

Todas as ciências particulares são imanentes ao seu objecto, nunca o transcendem, e quando o fazem, realizam filosofia. Se afirmam a incognoscibilidade do ser ou não; se afirmam a conveniência de buscá-lo ou não, sempre filosofam.

A Filosofia é, assim, um querer saber, que é activo, dinâmico portanto, um saber último inalcançável porque estabelece um ideal: a verdade, a meta que deseja atingir. Não importa que esse ideal seja como todos os ideais: inatingível.

Podem desesperar os filósofos e construir filosofias de desespero, mas tal não impedirá que ela prossiga em sua marcha, confiante no inesperado, no imprevisto, que poderá modificar toda a feição dos factos.

Nisso consiste, nessa luta sem desfalecimentos, toda a dignidade do filósofo.