Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro Convivium, 1967 – Aspectos dos Ciclos Culturais.

Mário Ferreira dos Santos, Mario Ferreira dos Santos - Filosofo Brasileiro.

Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro Convivium, 1967.

Estudando as chamadas fases cráticas na História verificamos que o kratos político, como força de coesão social e como força super individual que paira acima dos grupos sociais, é sempre ambicionado não só pelos indivíduos como pelos próprios grupos.

O kratos social é propriamente o poder político que se estrutura nos ciclos culturais superiores, naquilo que constitui o “estado” e que dá uma certa coerência a sociedade, mas uma coerência fundada na lei política e, sobretudo, na violência organizada.

Os ciclo culturais passam por vários períodos com diversas fases. O juvenil é o período da formação da cultura e se caracteriza, sobretudo, pela formação de uma nova concepção do mundo, que dá o verdadeiro consensus ao ciclo. Neste primeiro período temos três fases facilmente observadas na história.

A primeira é a fase teocrática, na qual a cultura se estrutura tensionalmente sobre uma forma teocrática, tem a sua origem na Divindade, sendo transmitida aos homens pela figura mística de um iluminado, cuja personalidade se esfuma entre o histórico e o lendário, muitas vezes divinizada, mas esta divindade propriamente não pertence a fase teocrática, ela pertence a uma fase anterior, mas vai presidir, vai ser a figura central de todas as afirmações da teocracia dominante.

Por exemplo, Rama entre os árias, Maomé entre os árabes, Moisés entre os judeus, São Paulo entre os cristãos, Thot ou Hermes Trismegistos entre os egípcios, etc. Em torno dessa personagem divina ou em torno da sua significação representadas por um corpo estruturado por homens hieráticos ou santificados que regulam, cumprem e fazem cumprir a lei, pouco a pouco vai se estruturando a segunda fase crática, que é a fase da hierocracia (do gr. hieros, santo) dos homens santificados.

Aqueles que vão dominar o kratos social são os representantes e cumpridores da lei, não quer dizer que estes homens sejam propriamente os dominantes do poder estatal, eles são os dominantes do poder em geral da sociedade, porque o próprio poder estatal depende desses homens superiores que representam a última palavra dentro da nova ordem cíclica que se forma.

Ao redor desses homens sagrados vai constituindo-se um grupo maior que é formado de homens virtuosos, homens que tem a virtude e que, paulatinamente, pela sua coragem, pela sua impetuosidade na fé promovem uma força material que dá cada vez mais impulso a fé, não são apenas sacerdotes são também homens provindos de todos os setores, os quais terminam por apossarem-se do kratos político e estabelecer a terceira fase do primeiro período que é a fase da “aretocracia” ( do gr. aretê, virtude).

Paralelamente formam-se outros estamentos como a aristocracia, que na posse do poder econômico aspira também o kratos político, e é neste momento que se realiza a primeira grande revolução, a revolução aristocrática, que ascende ao poder. Os sacerdotes ainda participam do mesmo, mas cada mais vez numa situação secundária.

Neste momento surgem os príncipes. Esta aristocracia ( do gr.aristos, os melhores) vão a pouco e pouco formando um grupo escolhido, que em torno dos príncipes vão constituir o poder e a segunda fase deste segundo período sobrevêm, é a “oligocracia” (do gr. oligós, escolhido). O kratos fica em poder de um pequeno grupo que domina totalmente a sociedade.

Os sacerdotes ainda participam do poder, mas cada vez mais subordinados, até que finalmente surge o período de absolutismo da aristocracia, que é a terceira fase do segundo período, a “monocracia”, quando o poder vai emanar de um rei todo poderoso que passa a ser a encarnação do próprio estado.

O estamento seguinte é uma classe social que tendo conquistado o poder econômico aspira o poder político, e que chamamos de burguesia Ela provoca a segunda grande revolução do ciclo cultural, inaugurando o terceiro período, a democracia. Esta pode dar-se ainda com a presença da própria aristocracia, que neste caso concede direitos ao terceiro estado.

A proporção que a burguesia vai adquirindo poder, ela vai sendo dominada por um grupo mais poderoso, o grupo dos ricos, a plutocracia (do gr. plutos, rico). Este grupo vai constituir a segunda fase do terceiro período, isto é, quando os homens de negócio passam a ser dirigidos pelo grupo dos mais ricos. Este grupo vai ceder o poder a um terceiro grupo, o dos dominadores do dinheiro, inaugurando a terceira fase do terceiro ciclo, a “argirocracia”(do gr.argiros, prata).

Neste momento começam a surgir as grandes revoltas populares, quando elementos saídos dos vários estamentos passam a agitar as massas populares preparando-as para o advento da terceira grande revolução. Estas massas agitadas pelos demagogos levam de roldão a ordem social e inauguram o quarto período, que é o período da “oclocracia”(do gr. oclos, massa das ruas).

A oclocracia não se mantém no poder, porque nunca as massas mantém o poder, começam a surgir homens poderosos, forças militares que vão se impondo e que procuram salvar da catástrofe inevitável, da desordem social.

Ascendem ao poder estes homens que constituem a primeira fase do quarto período, os césares, a cesariocracia, que é a segunda fase do último período e que prepara inevitavelmente a desordem final do ciclo cultural e, ao mesmo tempo, prepara o advento de novas idéias, de uma nova fé, de um novo “consensus”, que virá inevitavelmente constituir-se na sociedade e junto com povos sobrevindo de outras regiões realizar o novo ciclo, uma nova esperança para a humanidade.

Observa-se que desde os primórdios de sua formação todo ciclo cultural encontra-se entre o choque de dois núcleos de forças antagônicas: as que tem o seu ímpeto construtivo e proporcionais à solidez, e as que tem o ímpeto destrutivo, preparando as formas corruptivas.

Assim se fossemos estabelecer dentro da concepção aristotélica as causas formativas de um ciclo cultural teríamos: a causa material seria constituída pelo conjunto dos indivíduos que constituem as diversas gerações, e a causa formal seria a cosmovisão, a visão geral do mundo, que estrutura este ciclo. Um aspecto precisa ser destacado: esta luta que perdura dentro do ciclo cultural e que também é intrinsecamente um conjunto de disposições prévias corruptivas, são os poderes que buscarão romper a coesão do ciclo e que podem muitas vezes e até em certos casos, prematuramente, destruir um ciclo em formação, como já aconteceu na História.

De maneira que se encontra como partes integrantes, essenciais de um ciclo cultural, inúmeros elementos genéricos e alguns particulares, os específicos. Entre os primeiros temos o termo médio. Na Sociologia, é o termo médio que vai dar a coesão de uma relação social, por exemplo, na família é a mãe o termo médio.

No caso das partes integrantes, essenciais, universais da sociedade, o termo médio é o “consensus” que é constituído pela cosmovisão, pela teo-visão, pela fé religiosa fundamental do ciclo cultural. Em outras partes integrantes, essenciais da sociedade, genéricas, a autoridade do termo médio que coacta as partes, que dá o atualizar-se tensional do ciclo cultural é constituído da comunidade de interesses éticos, como os religiosos, sociológicos, ecumênicos, históricos, jurídicos, etc.

Entre os que são particulares temos a diferença específica dos elementos universais determinados, elementos examinados cada um em particular. Além destas partes integrantes, essenciais, a sociedade tem as integrantes acidentais, àquelas que são estritamente necessárias, que não fazem parte da essência do ciclo. Entre elas a componência étnica social que pode variar muito, o contorno ecológico e os interesses dinamicamente considerados que mudam segundo os grupos, segundo as diversas fases e os diversos períodos da sociedade.

De forma que o desenvolvimento histórico de um ciclo social é sempre proporcionado à forma e à matéria que o constituem e suas possibilidades são, consequentemente, proporcionadas aos estágios da atualização que possa vir a ter.

Há uma série de possibilidades que pertencem ao futuro: as prometeícas que podem atualizar-se e as não atualizadas, que vão constituir o epimeteico. Assim ao colocar o ciclo cultural nas suas partes integrantes, quer essenciais, quer acidentais, forma-se uma polaridade adversa: de um lado o que consiste na preservação de um desenvolvimento normal, do que integra a sociedade e, do outro lado, as disposições prévias corruptivas, atuantes dinamicamente para corromper a sua integridade.

Os elementos téticos são os que apoiam a integração da sociedade e, por sua vez, contrapõem-se aos que constituem as disposições prévias corruptivas. Na análise destes elementos integrantes encontra-se uma série de aspectos que salientamos analiticamente, abstraídos do conjunto da realidade e dão uma visão mais nítida do ciclo cultural.

Por exemplo, a valorização do superior teológico, que é típico do primeiro período, do homem neste período como um termo médio para ligar à divindade, valorização relativa ao inferior cósmico posto a disposição do homem. Estes aspectos são téticos, são positivos porque estruturam e dão força ao ciclo cultural.

Verifica-se a justificação da cosmovisão, da visão teocósmica, da microcósmica dentro do ciclo social que é mais forte no primeiro período e, sobretudo, na segunda fase e na terceira fase, porque é a época mais apologética, onde luta-se principalmente para fortalecer esta cosmovisão. O fundamental nesta fase é a salvação do homem inserido nas idéias religiosas que fazem parte do ciclo.

Consequentemente a esta visão do mundo,a esta teovisão, subordina-se todo o conhecimento e é nesta época em que normalmente a Filosofia está subordinada a Teologia. Justifica-se a teo-visão que é, no primeiro período, meramente religiosa. Já no fim do primeiro período ela exige o auxílio da Filosofia que dará os elementos a favor da cosmovisão religiosa.

É o período da escolasticidade, observado em todos os ciclos culturais, que passam do primeiro para o segundo período.Isto não quer dizer, absolutamente, que as forças antitéticas estejam amortecidas; ao contrário, estão ativas.

Há uma luta dos elementos remanescentes de outros ciclos culturas ou os que foram incorporados ao novo ciclo ante a concepção religiosa. Observa-se que estas investidas antitéticas são muito fortes, inclusive àquelas que se constituem os defensores da cosmovisão vigente; é o período das heresias, das idéias provindas de outros setores que negam validez aos princípios fundamentais da nova cosmovisão emergente.

Analisando os aspectos antitéticos que se manifestam, observa-se a valorização excessiva dos aspectos cosmológicos em oposição da cosmovisão teológica ou seja uma luta para valorizar os valores antropológicos e, por outro lado, uma tendência a negar as possibilidades cognoscitivas do homem. Surge, então, o cepticismo, o pragmatismo, o nihilismo e a valorização da Filosofia ante à Teologia e, sobretudo, a Filosofia Prática, a Ciência Prática, tomada apenas no seu aspecto empirista.

É quando se vai valorizar a razão humana,não para justificar propriamente as tese que constituem o fundamento da cosmovisão religiosa, mas as tese que se opõem àquela, as antíteses. Há uma valorização do empírico, do racional, negação constante das possibilidade do homem penetrar no Absoluto, a busca para separar a Filosofia cada vez mais da Teologia e da Religião, separando a Ciência da Filosofia.

Processa-se o desenvolvimento acelerado da técnica e, finalmente, consegue-se a separação da Ciência à Filosofia; o que já é próprio do segundo período e inicio do terceiro.

Antes de chegar ao período democrático há uma tendência predominantemente panteísta, aos axiomas, aos princípios e postulados aceitos; a negação constante da validez dos mesmos. Desenvolve-se o cepticismo, o agnosticismo, o criticismo, o pragmatismo, o positivismo, o materialismo, o ficcionalismo, o nihilismo, o idealismo até que, já no terceiro período, vai surgir uma reação romântica, mas desordenada, que não poderá por si só salvar o que havia de positivo no ciclo cultural e exigirá outras providências.

Finalmente é quando as doutrinas filosóficas são, pouco a pouco, substituídas pelos postulados ideológicos. Surgem aí tendências ideológicas que dividem a sociedade, não mais no pensamento filosófico, mas em ideologias que vão interessar mais a grupos que propriamente à sociedade.

A proporção que a parte tética se desenvolve na História, também se desenvolve a parte antitética, de forma que à proporção que a primeira justifica a sua posição em face das oposições, as antíteses são refutadas, demonstradas e até justificadas como favorecendo a posição tética; imediatamente a posição antitética começa a combatê-las ou seja tudo o que antes defendera. Mas utiliza outros representantes daqueles poderes destrutivos dos ciclos sociais.

Por exemplo: no princípio da formação teocrática do ciclo cultural a base é toda feita na revelação divina, aceita-se como conhecimento aquela cosmovisão que vai dar a forma ao ciclo social como alguma coisa revelada pela divindade, através de homens escolhidos.

Por sua vez a parte antitética vai combater esta revelação, negando-a, afirmando que todo aquele conjunto que constitui a religião vai ser um conjunto de mitos psicológicos em projeções ficcionais, etc. A dúvida é apresentada contra a validez dos postulados éticos em geral – dos que vão constituir a ética da nova concepção.

Há um indiferentismo muito grande em relação às idéias religiosas e surgem suspeitas cépticas. O que caracteriza a parte antitética nesse período é a negação da validez da revelação. Procura-se reduzir a Ética à Moral, afirmando-se que o nosso conhecimento é apenas o que é dado pela experiência, fundado no empírico, racionalizado posteriormente.

A medida que o grupo que defende a parte construtiva e tética da sociedade demonstrar que esta parte empírico-racional é um fundamento filosófico, da própria concepção teológica, ou pode servir como fundamento filosófico da concepção teológica, imediatamente o lado antitético coloca dúvidas sobre a capacidade abstratora da razão indo alcançar a negação da sua validez.Surge, então, o relativismo, o cepticismo, o criticismo, etc.

Nesta fase busca-se negar o poder da razão para aceitar-se apenas o que constitui o experimental. Quanto a parte tética vai justificar que a Metafísica se fundamenta na realidade dada pela experiência e na racionalização que é fundada em bases reais, então a parte antitética nega também a ação abstratora do homem e afirma que a própria realidade empírica é incaptável.

O mundo é um conjunto de ficções que o homem cria. […]

É natural que se duvide do conteúdo real dos conceitos e surja o nominalismo. As palavras são apenas nomes que se dão as coisas; a lógica torna-se uma lógica da extensão, negam-se os princípios e o valor dos princípios de identidade, da contradição, de causalidade, da razão suficiente. Procura-se também negar o poder cognoscitivo do homem; o saber é puramente pragmático.

Valoriza-se a posição positivista e o capitalismo é sistemático. Nega-se o valor a demonstração, às provas que vão se afirmar,por sua vez, dependem dos preconceitos prévios dados a priori ao homem que vai só classificar. Como o conceito implica essência, a classe mais simples, porque ela apenas se funda nas semelhanças acidentais e não essenciais, busca substituir o conceito dizendo que o homem apenas alcança o classificatório; porque a conceituação implicaria a penetração no essencial, o que lhe está vedado. O problema da revelação, que era o fundamental de todos os ciclos, passa a ser secundário.

A salvação do homem só se pode dar dentro do campo cósmico. A solução só pode caber às disciplinas que constituem a Ética, como a Sociologia, a Economia, a Política. A Filosofia é colocada em dúvida e as vezes chega a ser negada; a Ciência Especulativa também o é e a própria Ciência Prática perde a sua força. Fortalece-se uma Ciência Pragmática, meramente classificatória, como modernamente se observa na valorização extremada do protocolar.

Neste momento o aspecto antitético atinge seu fim porque depois disto não lhe resta mais nada a não ser cair no nihilismo. É neste terceiro período que se desenvolve mais a parte antitética, que as lutas ideológicas surgem porque, se os problemas não são econômicos, são políticos, são sociológicos e são estas posições que devem prevalecer.

É quando se constroem ideologias, as quais prometem alcançar através de determinados fins a salvação, porém esta só será alcançada neste mundo e não em outro. A posição antitética predomina neste período e é precisamente quando se dão os ataques à posição tética.

Esta é abalada nos seus fundamentos fazendo surgir uma nova certeza, uma nova convicção, fundada no próprio conhecimento, na experiência humana, que é revelada através de homens superiores que estruturam as novas possibilidades. Estas se ligam numa forma tensional e serve de cosmovisão para o novo ciclo cultural que se inicia. No decorrer desta luta observa-se uma série de aspectos de grande importância, por exemplo: toda posição tética que defende a cosmovisão do ciclo cultural é uma posição afirmativa, e as filosofias que se formam são sempre de afirmação. Já na posição antitética, que é sempre negativa, as filosofias correspondentes são de negação. As primeiras interessam, sobretudo, em afirmar-se, em postular e demonstrar; as segundas negam, e também negam a validez a todos os meios demonstrativos.

Quer dizer que há uma dinâmica no decorrer dos ciclos, porque a cada posição afirmativa corresponde uma acomodação à esta posição adversa pela formação de uma concepção que cai no extremo contrario. Por exemplo: ao excesso de racionalismo observa-se o excesso do romantismo, do irracionalismo romântico. Ao excesso deste surgiu a fenomenologia moderna e outras concepções que vão buscar opor-se a este aspecto negativo.

Há uma constante luta, uma constante adversidade, no desenvolvimento dos períodos com as fases que não se processam sem que esteja presente esta dinâmica de acomodação às condições adversas, tanto do lado tético como do lado antitético.

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