Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro Convivium, 1964 – Sobre o Marxismo.

Mário Ferreira dos Santos, Mario Ferreira dos Santos - Filosofo Brasileiro.

Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro Convivium, 1964.

No Renascimento começaram a surgir as chamadas utopias, quando a Igreja perdeu o poder, mesmo o seu poder espiritual foi restringido com a formação das grandes nações, e o poder temporal praticamente nulo, a Igreja perdeu totalmente a força.

A sociedade, com a ascensão do empresário utilitário que passou a ter um poder extraordinário porque já tinha o poder econômico, passou também a participar do poder político, porque todos aqueles que tem o poder econômico sempre desejam o poder político.

As injustiças sociais foram crescendo e se agravando, as próprias corporações da Idade Média em que mestres aprendizes e companheiros formavam verdadeiras unidades passaram a ser distintos, os mestres tornaram-se capitalistas, empresários, e veio a época da industrialização.

Começou a surgir uma preocupação em torno do problema do homem olhado do ângulo coletivo, isto é, da coletividade humana, porque o empresário utilitário por natureza é individualista, ele necessita de uma certa liberdade de ação para que possa desenvolver-se plenamente e põe necessariamente em risco os interesses coletivos. O socialismo praticamente surge estruturado assim em idéias no século passado e esta palavra socialismo surgiu de uma polêmica que houve na Inglaterra, num jornal em que havia um cidadão que escrevia artigos defendendo o capitalismo manchesteriano, e assinava “individualista” e num outro jornal alguém pôs-se a rebater os seus argumentos e assinava “socialista”, e a palavra foi cunhada, foi tomando um conteúdo, foi significando tudo aquilo que se refere mais ao coletivo em geral na sua luta contra o individualismo.

Todos que estudam filosofia sabem perfeitamente que o verdadeiro conceito de política, como o estudavam os grandes filósofos gregos implica uma harmonização entre os interesses individuais com os interesses coletivos. Propriamente a política é isto, são os costumes humanos olhados do ângulo da coletividade e busca conciliar, harmonizar estes interesses, esta é verdadeiramente a política, é conciliar os interesses do homem na ‘polis’, não é mais o homem da tribo, muito menos não é o homem da horda, é o homem de uma nova horda, porque a “polis” é quase uma verdadeira horda, mas a “polis” perdendo as suas ligações tribais cada vez mais há a necessidade de conciliar os interesses de grupos com os interesses coletivos. Embora hoje política não se entenda assim, em geral, entende-se como a arte de governar para uns, mas na verdade ela é usada como a arte de conquistar e de conservar o poder, consequentemente como o político se desvirtuou do seu verdadeiro sentido, as formações socialistas desde o início foram anti-políticas, quer dizer, política e socialismo foi desde o início considerado como azeite e água, como coisas inconciliáveis.

Socialismo fazendo política é uma coisa absurda, porque a política era a conquista do poder, era conservar o poder, exercer o poder, etc., então as primeiras tentativas de formação de idéias socialistas eram genuinamente libertárias, de libertação do homem, libertação de tudo quanto o oprimia, do ser humano desvincular-se de todas aquelas peias que exerciam sobre ele obstáculos no seu desenvolvimento.

Passou-se a analisar quais são, o Estado em primeiro lugar, o maior monstro opressor que a sociedade humana conhece, pois as classes economicamente poderosas que fazem as leis de acordo com seus interesses contra os interesses da maioria. Todo o socialismo formou-se num ideal de liquidação das classes, para evitar a exploração do homem sobre o homem, e sobretudo a liquidação do Estado, porque o Estado não era mais a sociedade politicamente organizada, mas era apenas um organismo político, de grupo, que dominavam a sociedade.

O socialismo caracteriza-se desde o início por uma crítica violenta e desbragada e exagerada e até injusta em muitos aspectos contra o Estado e contra as classes dominantes.

Como o clero nessas ocasiões tomou uma atitude mais favorável as classes dominantes, o clero entrou também na lista, quer dizer, passou também a ser combatido e eis porque o socialismo em geral combate não só combatia a aristocracia, o clero, a burguesia e o Estado, combatia tudo e naturalmente tinha que tender para a massa, massa que se manobra sempre para as convulsões sociais, que são a massa dos servidores, aqueles que não tem nenhum papel histórico senão este.

O socialismo foi-se a pouco e pouco estruturando até que se estruturou em três tipos de socialismo nitidamente claros: um socialismo de caráter libertário, anti-estatal, desejando abolir as classes, não pregando a luta de classes, mas abolir as classes e estabelecer uma sociedade de iguais; um socialismo democrático, que quis democratizar o estado, transformando num órgão que manifestasse a vontade popular, as opiniões; e um socialismo de caráter totalitário, único, exclusivista, que não permitia as heterogeneidades humanas, que é o totalitário.

No século passado a predominância dentro do campo socialista era o socialismo libertário, o socialismo democrático não tinhaa mínima influência, não era desprezível porque era mínimo, o totalitário também não era grande, mas era um pouco mais numeroso, mas a grande massa era libertária.

Era a época em que surgiu os grandes líderes libertários como foram Proudhon, Kropotkine, Jean Grave, Hoover. Marx manifestou simpatia, pretendia um cargo administrativo na Saxonia, mas como era judeu, apesar de ser casado com mulher alemã, não conseguiu o cargo.

Então passou para a oposição e juntou-se com um grupo de socialistas que nesta época publicavam uma revista famosa na Alemanha que foi a “Gazeta Renana”, na qual passou a colaborar.

Nesta época começou a ter conhecimento das obras dos socialistas franceses, que eram libertários, sobretudo as obras de Proudhon, a quem Marx saudou como um pensamento científico do socialismo.

Não podendo manter-se na Alemanha devido as perseguições políticas, exilou-se na França e aí procurou entrar em contato com Proudhon, que era a figura que ele mais admirava, que colocava como a suprema. Mas aconteceu que Proudhon era um homem muito sincero, muito franco e um homem que não sabia esconder a sua afetividade, e ele não gostou de Marx e tratou-o com certa distância, e isto o magoou profundamente.

Mais tarde Marx passou a renegar aquilo que havia dito, começou a encontrar defeitos em Proudhon, começou a achar que o pensamento dele já não era científico, não era o verdadeiro pensamento socialista, começou a analisar somente os defeitos da obra proudhoniana e surgiu então uma pequena cisão.

Marx com um pequeno grupo formou o grupo dos marxistas que eram totalitários, mais prussianos, seguindo mais os princípios do socialismo alemão, de organização mais militarizada, e Proudhon tinha um sentido mais latino, mais libertário, mais romântico.

De início, Marx não teve nenhuma influência, Proudhon dominou e foi dominando o socialismo até a guerra de 14 e 18. Enfim os libertários fizeram a revolução russa porque a revolução russa não é bolchevista, os bolchevistas apenas se aproveitaram.

No fim do século XIX houve um acontecimento importantíssimo, foi quando se fundou a Primeira Internacional, e na sua formação apareciam, como figuras fundamentais, Marx e Bakunin, sendo que este era a figura predominante, e depois de uma série de intrigas astuciosas e muito bem feitas (mas muito indignas) a Primeira Internacional não seguiu o seu verdadeiro destino e o movimento socialista que era unido, unificado no mundo inteiro foi destruído, porque foi rompido, ficando uma ala libertária e uma ala totalitário.

Daí é que se formou uma ala democrática tentando uma conciliação entre os dois lados, isto é, nem tanto a terra nem tanto ao mar, nem muita liberdade, o Estado não pode ser muito poderoso, etc., uma fórmula intermédia. Mas Marx nunca pode deixar de defender as teses libertárias, isto é, da abolição do Estado, porque no fundo o marxismo prega que a verdadeira realização do comunismo é a abolição do Estado, só se pode dar com a abolição do Estado.

Pregaram isto, mas eles não falam mais porque não lhes convém, porque o Estado está muito bem colocado. Naquela época, porém, eles chegaram a essa conclusão. Marx também admitia que a revolução social, feita através do domínio do proletariado que seria a ditadura do proletariado seria por alcançar finalmente a abolição do Estado, o desaparecimento das classes.

Sem o desaparecimento das classes também seria impossível o Estado, porque na interpretação marxista do Estado, este é uma espécie de efeito, de subproduto da divisão de classes e do domínio das classes na sociedade, de maneira que o marxismo formou-se assim, teve a sua história, longa história de grandezas e de misérias.Bom, vamos mais a um chavão de momentos extraordinários e momentos mesquinhos, tem a sua beleza e tem a sua fealdade, gostaria também de fazer uma palestra especial sobre um ponto importante, até trouxe aqui um documento que talvez poucos pessoas possuam no mundo.

Eu sabia que a pergunta viria mais dia menos dia, é a “História da Associação Internacional dos Trabalhadores da A.I.T.”, a única e genuína representante dos trabalhadores que ainda existe, e aqui está o processo todo do famoso congresso que deu a cisão do socialismo, que atrasou cem anos o socialismo.

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