Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro Convivium, 1964 – A Crise no Mundo Moderno.

Mário Ferreira dos Santos, Mario Ferreira dos Santos - Filosofo Brasileiro.

Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro Convivium, 1964.

O tema gira em torno da crise no mundo moderno que é, sem dúvida, um dos assuntos mais polêmicos e discutidos no momento. Entretanto, para ser feita uma análise mais completa, necessário se faz uma comparação entre as diversas concepções sobre a História; o que envolveria um estudo consequentemente exaustivo de determinados tópicos que, aqui, só serão abordados, sem passarem por uma análise em maior profundidade.

Seja qual for a concepção que se tenha da História, não se pode desprezar as grandes contribuições feitas principalmente após 1850. Se até então, o homem pouco sabia do volume de dados que, posteriormente veio a ter conhecimento, a quantidade de estudos das crises que assoberbaram o mundo ocidental, no fim do século passado e, principalmente neste, levou-o a estruturar diversas concepções da História, entre as quais se destacam a de Spengler e a de Toynbee.

Não que sejam elas as principais, mas entre as que foram formuladas, são as que oferecem uma visão contínua da História, na qual se passou a compreender que o ser humano conhece, através da sua dinâmica, ciclos culturais. Estes tem um nascimento e um desenvolvimento, atingindo um patamar mais ou menos equilibrado e precipitando-se depois numa decadência: o grande final para, finalmente, serem
substituídos por outros…

Esta matéria pode e deve ser discutida e ,realmente, tem sido tema de acirradas discussões. É inegável que, se passarmos os olhos pelos grandes ciclos culturais conhecidos, observamos que assim se deu com o mundo egípcio, com o mundo hindu, com o mundo chinês e está se dando com o nosso: o mundo cristão. Seja como for existem nestes ciclos culturais uma cosmovisão que os estruturou e que sempre esteve fundamentada numa idéia religiosa.

A formação do mundo egípcio baseava-se numa cosmovisão que tinha, como fulcro central, a idéia religiosa dos sacerdotes, assim como o mundo hindu se centralizava nos brâmanes. Estas concepções do mundo possuem um aspecto genérico, mas não impedem que outros específicos (que são, de certo modo, divergentes) também existam.

É, em torno destas idéias fundamentais, destas cosmovisões que se estabelece o ciclo cultural; muito embora outros elementos também façam parte da sua formação, porém não são os fundamentais, como é a idéia religiosa, por exemplo.

Observando o nosso ciclo cultural, notamos que ele se forma ao redor da concepção cristã opondo-se, quase frontalmente, à concepção greco-romana.

Para esta o homem não era considerado na sua plenitude, como no Cristianismo, já que admitia que alguns nasciam para ser senhores e outros para ser escravos. A escravidão era estabelecida por um princípio natural, advindo do direito natural; enquanto a pessoa humana tem um valor no Cristianismo que não se encontra em outros ciclos culturais.

Enquanto para o homem greco-romano a vontade dos deuses é que determinava tudo –o fado, o destino- e, daí o bem e o mal acontecerem segundo a vontade e o capricho dos deuses, opunha-se frontalmente à cristã que concebia o homem como um ser livre, senhor do seu destino ou, pelo menos, parcialmente dono dele. Para a concepção grega este determinismo não era dado em sentido absoluto, porque ela admitia que a conjunção de várias causas pudesse produzir efeitos per accidens, distintos dos que se dão per se.

Exemplifiquemos: uma macieira dando maçãs é um efeito per se decorrente natural da própria natureza da macieira. Já, por exemplo, um acontecimento fortuito: um carro que passa pela rua e choca-se com outro sobrevindo, daí, a morte de algumas pessoas, isto é um acidente que não decorre per se, do carro que anda, mas sim de uma conjunção meramente acidental que, segundo os gregos, sobrevinham na
vida humana pelo capricho dos deuses.

Eles chamavam de o caráter trágico porque o drama seria a continuidade, a decorrência, a sucessão de uma seqüência per se.

O homem que bebe e acaba sendo presa do vício, é dramático. O jovem que morre num desastre é trágico. Trágico porque se deu devido a conjunção acidental de fatores que geraram aquele efeito; enquanto o anterior é decorrência natural de um mau hábito e, do qual, a pessoa não pode se libertar.

Os gregos, freqüentemente, distinguiam o conceito de dramático do de trágico e tinham uma concepção, consequentemente, trágica da vida, já que todo destino humano estava dependendo da vontade e do capricho dos deuses.

Para a concepção cristã a vida humana não depende do capricho dos deuses, mesmo na concepção da graça – seja da graça santificante como de outros tipos de graça- um dos temas mais debatidos e controversos na teologia cristã, pois elas podem ser consideradas como favores dados ao homem; porém muitas são adquiridas pelo mérito, pelo esforço.

O nosso ciclo cultural formou-se na decadência grega e seguiu, paralelamente, o Cristianismo ao greco-romano, consequentemente começou inserida na parte material da cultura ocidental, nos remanescentes de sua filosofia.

Em torno da concepção cristã formaram-se várias idéias contrárias à ela; já que nenhum ciclo cultural consegue constituir-se homogeneamente de modo que totalize plenamente a parte material, pois há sempre remanescentes de outros ciclos culturais que passam a ser, dentro deste, as disposições prévias corruptivas.

As idéias gregas, que foram corruptivas,continuaram a atuar no interior da estrutura cristã com a mesma disposição e isto vem até os nossos dias, onde observa-se um debate em torno das mesmas idéias que animaram os sofistas gregos no primeiro período de sua decadência, assim como os estóicos e os hedonistas durante a decadência greco-romana. As mesmas razões, os mesmos temas e argumentos aparecem manejados por vários autores modernos, embora já tenham sido refutados com antecedência de séculos.

Esta tese que vamos apresentar é uma das mais coerentes e foi aceita não só pelos egípcios mas, também, pelos hindus e pelos judeus. Nela vai se observar, por exemplo, entre estes últimos, no Livro de Daniel, a mesma concepção que foi aperfeiçoada no Ocidente.

Não se conhece nenhum ciclo cultural onde não se encontre uma divisão da sociedade em quatro estratos sociais, que se digladiam entre si: o sacerdócio, a nobreza, o empresário utilitário que, em nosso ciclo cultural recebeu o nome (um tanto depreciativo) de burguês, e o servidor, o prestador de serviços.

Estes quatro ciclos são universais em sua heterogeneidade, mas possuem os mesmos aspectos genéricos. Na formação do ciclo cultural o primeiro período é de domínio dos sacerdotes, que participam deste poder, em proporção maior que a nobreza.

O sacerdócio se apoia na massa de servidores, e o empresário utilitário se concentra ao redor da cultura, mas não a penetra pois é um estranho; apesar de admitido e aceito, não está incluído no ciclo cultural. Com o tempo sobrevêm a primeira grande revolução social que é a da nobreza, pois esta, já com o poder econômico nas mãos, aspira o político e, pouco a pouco, tenta subordinar o sacerdócio para que sirva aos seus interesses, terminando por conseguir.

Há um equilíbrio de participação no kratos social mas, finalmente, a nobreza consegue ter o domínio completo e hegemônico, passando a servir a esses interesses.

Ao penetrar no clero vem a fazer parte dele, devido ao seu prestígio ante os servidores e a massa popular, fortalecendo assim o seu poder. No Cristianismo, durante o final da Idade Média e no Renascimento, os altos postos da Igreja (do bispo para cima) só podiam ser ocupados por nobres, o que originou um movimento de rebeldia por parte dos jesuítas – o episcopalismo.

Neste movimento eles reivindicavam o direito de qualquer homem –fosse de que classe fosse- ascender ao papado. A nobreza não concordou porque assim ela não dominaria a Igreja. E deu-se o movimento da Reforma com a fragmentação da Igreja Católica, indo repartir-se em inúmeras igrejas com a perda do poder; não só do poder temporal –do qual ela foi senhora absoluta- mas, também, do espiritual; já que não tinha sobre as massas a mesma influência que exercera nos seus primórdios.

Dá-se a incorporação do empresário utilitário e pode-se perguntar: por que? Obviamente que, com o domínio da nobreza, segue-se a formação dos grandes estados indo surgir a pseudo-idéia, a “grande mentira” do nacionalismo pois, neste momento, os príncipes (desejosos de poder) “inventam” a concepção nacional para formar as minorias insatisfeitas de outros povos a aderir ao seu movimento, alegando uma homogeneidade étnica ou lingüística, religiosa ou de direito, ética, o que vai, na realidade, constituir um subterfúgio político utilizado para justificar a formação dos grandes estados. Aparecem os exércitos que precisam ser uniformizados e cuja manutenção obriga a produção em série.

O periético – aquele que se encontrava à parte da cultura- passa a fazer parte dela vivendo o ciclo e fundindo-se nele, indo desenvolver seu poder econômico e exigindo, consequentemente, a participação no governo. No início aproveita-se dos nobres arruinados, forçando o casamento com as filhas dos burgueses e, depois, pela necessidade crescente do luxo (o que levou a nobreza se endividar e ser, pouco a pouco dominada pela burguesia).

Instala-se então a segunda grande revolução que, realmente, aparece em todos os ciclos culturais: a revolução burguesa que no nosso ciclo tem o nome de revolução democrática, porque são sempre portadores de promessas de felicidade dos povos, principalmente em relação aos servidores. Os burgueses ascendem ao poder e dominam a nobreza e o próprio clero, quando não os aniquila.

A esta segunda grande revolução sobrevêm, finalmente, as grandes agitações que são provocadas pelos trânsfugas dos diversos estratos sociais, àqueles que estão descontentes (sejam oriundos do clero, comoda nobreza e da burguesia) e passam a agitar as massas para uma nova revolução, cuja finalidade é transformar a sociedade.

Como o poder já não pode mais ser dado, porque o único estrato que ainda não os teve é o servidor, surgem os que lhe vão prometer o poder. É o que fez Marx no século passado, propondo ao servidor a assunção ao poder através da ditadura do proletariado. Promessa feita no século passado mas que não aconteceu e não está acontecendo.

Não que ela seja uma impossibilidade histórica, porque ante os fatos contingentes não podemos estabelecer um determinismo rígido, porém durante estes seis mil anos não se concretizou a não ser em pequenos grupos, onde as massas assumiram o poder político. Não estando, porém, em condições de assumi-lo por um longo período, perdem-no para os outros estamentos.

Quando os bolchevistas compreenderam isso substituíram ou deram à ditadura do proletariado uma solução: o partido –vanguarda do proletariado- para que, pouco a pouco, fosse devolvido o poder ao proletariado através da redução do Estado que se processaria lentamente, de acordo com as possibilidades sociais, e com a promessa de um estado anárquico, na qual o poder não mais pertenceria a grupos mas seria da própria sociedade, politicamente organizada e dona do seu destino.

Este é um tema, sem dúvida, apaixonante e o qual vivemos não só como espectadores mas, também, como intérpretes.

Consequentemente nos atinge e nos interessa e daí os debates apaixonantes e polêmicos que surgem. Entretanto observamos os fatores corruptivos que atuam corrompendo o ciclo cultural e que vão gerar o estado de desordem, de confusão do mundo das idéias.

Desde o início no Cristianismo apareceram fatores corruptivos que atuaram como todas as heresias que se formaram, pois se apresentavam com o espírito religioso e traziam, no seu bojo, idéias contrárias à concepção cristã.

A religião cristã é sincrética; reúne os pontos altos de todas as outras religiões tendo os copiado.

Os cristãos não negam; sabem perfeitamente que a missão cristã não é criar uma coisa nova. A boa nova não era um substituição total do que havia, mas sim a reafirmação do que era positivo no pensamento dos povos nas suas ligações a um princípio superior – fonte e origem de todas as coisas – que o homem deve reverenciar.

Encontra-se sempre em oposição aos princípios positivos do Cristianismo, os opositivos, sobretudo negativos que têm uma função corruptora e, entre estes, o dogmatismo.

Aqui é empregado em sentido religioso e não ético, como comumente se faz. Se observarmos as religiões dos diversos ciclos culturais, vê-se que todas foram positivas quando construíram uma cosmovisão –base da formação de um ciclo cultural.

O cepticismo gerou as constantes idéias do mundo greco-romano que colocaram a dúvida, sobretudo no que o cristianismo afirmava como verdadeiro e serviram à tentação corruptiva porque, perdendo-se os princípios, facilmente perdem-se os meios.

A concepção ética, as concepções sobre a vida social que o cristianismo podia propor, se os seus princípios fossem deficientes e, consequentemente seriam falsas as suas conclusões.

Toda esta ação para destruir a positividade da concepção cristã gerou os “frutos” da época moderna.
Após a vitória da democracia de Atenas, depois da desastrosa guerra do Peloponeso, os atenienses resolveram fazer um processo para saber quais as causas que os tinham levado a situação catastrófica em que se encontravam. Concluíram que a desgraça fora a presença dos sofistas, já que haviam deixado os germens da dissolução, e a juventude os colhera!

Quando a nobreza de Atenas perdeu, e ascendeu a democracia, a luta pelo poder foi imensa. Como a juventude aspirava ao poder tinha que se preparar: e os meios para isso eram a oratória e a eloquência que possibilitavam uma argumentação para os debates. Sábios de todas as partes do mundo grego reuniam-se em Atenas onde encontraram um mercado ávido.

A juventude pagava, à peso de ouro, suas aulas, no intuito de poder dispor de uma argumentação poderosa ante os adversários.A conseqüência foi a queda da juventude, como decai em todos os momentos de agitação política, perdendo suas ligações com a cultura superior, tornando-se apenas uma massa agitada que vive de palavras de ordem.

Os sofistas tinham sido a causa desse estado de coisas e foi cometido um dos maiores equívocos da História, já que a culpa foi cair em Sócrates. Sócrates, que nos seus primórdios fora um sofista, se libertara e lutava contra, procurando provar como aqueles pseudo-sábios não tinham o valor que a juventude lhes dava.

Foi condenado por esta mesma juventude, constituída de agitadores, que pediu a sua morte. E morreu bebendo cicuta! Perpetuou-se, assim, o grande crime contra a filosofia de Atenas. O primeiro foi contra Anaxágoras, acusado de impiedade e do qual foi exigida, também, a morte.

Posteriormente, observa-se na decadência grega, a presença de duas concepções que vão debater, acelerar essa decadência: o estoicismo e o epicurismo.

O primeiro tem aspectos positivos e grandiosos, sobretudo na parte ética e na filosófica, mas como é uma doutrina atéia, não uma doutrina agnóstica, ajudou a fomentar a dúvida, a descrença, a falta de fé em algum princípio, em alguma coisa que pudesse servir de esteio para a juventude.

O epicurismo, que também não deixava de ser agnóstico, pois a quase maioria dos epicuristas era atéia, defendia estas mesmas idéias, só que propunham quase que um hedonismo, isto é, a busca e satisfação das paixões.

Encontra-se, no decorrer de todo o processo histórico do Ocidente, a luta constante contra os princípios fundamentais da filosofia cristã, que é feita usando dos mais indignos processos, ao lado também das infâmias históricas e filosóficas.

Assim, aqueles que antes proclamavam uma tese, quando esta passa a ser incorporada a concepção cristã e considerada uma tese fundamental, eles passam a combate-la. Vemos a defesa da razão e sua exaltação na Revolução Francesa, quando se prova que a razão é um dos esteios da concepção cristã, surge, então , o irracionalismo, a defesa da concepção contrária.

Em todos os tipos agnósticos sobretudo, essa presença adversativa de dois termos em oposição é que vão acomodando as condições adversas de um lado e de outro, sempre provando o contrário que o outro lado defende, porém fica a pergunta: como conseguem, se eles estão errados, deteriorar o que está certo? Essa é a grande desgraça da humanidade: o erro tem mais facilidade de propagar-se do que a verdade, é mais fácil propagar-se uma infâmia do que uma boa idéia. É mais fácil destruir do que construir. Essa é uma das condições humanas e uma das nossas grandes impossibilidades.

Havia, porém, alguma razão de combater a concepção cristã? No atual ciclo não há uma luta contra aqueles que representam o cristianismo, mas a Igreja errou ante o seu desenvolvimento histórico, pois teve momentos onde foi pecadora. A Igreja triunfante é a dos bem-aventurados que não existe neste mundo. O que existe é a Igreja sofredora, a Igreja pecadora, a que teve seus momentos altos e os de depressão profunda. Nela surgiram homens que construíram obras extraordinárias, mas também muitos que a destruíram.

Hoje a Igreja está colhendo os frutos desse estado porque há uma grande cisão interna. Por mais que ela busque através desse concílio, no ecumenismo uma unificação, a cisão é inevitável, porque não consegue mais vencer os males que foram semeados por homens que não mereciam chamar-se cristãos.

Encontramo-nos nesta situação: seremos os espectadores e intérpretes de um grande final? Ou há possibilidade de transformarmos uma causa material de uma nova concepção do mundo e que ainda continue cristã dentro dos princípios fundamentais do Cristianismo, que são universais, que representam o que de mais alto e nobre o homem alcançou?

Esta pergunta, naturalmente, exige uma resposta. Ela é difícil, porque os estudos históricos ainda não são suficientes para que se possa admitir que o final esteja próximo. Sem dúvida que a guerra nas condições atuais poderá traçar definitivamente este final e os sobreviventes voltarem a barbárie e assim se fechar o nosso atual ciclo cultural.

Porém é possível vencer-se esta guerra, evitá-la através de que meios? Será que o medo da própria destruição seria capaz de evitar o conflito? Não cremos. O medo não é positivo, o medo é uma trepidação do ânimo ante um perigo eminente e não é suficientemente forte para impedir as guerras porque, nunca na história, o medo impediu alguma coisa. Precisamente é a coragem, muita coragem, pois só ela nos torna capaz de enfrentar uma situação difícil. Não existe a possibilidade de um ciclo cultural ser “eternamente jovem”?

A História nos mostra que não acreditamos em certo sentido, por uma razão muito simples: no decorrer da luta estes estratos sociais, que se formam e no desgaste das próprias idéias, no entrechoque das acomodações adversas, chega-se a um final em que não há mais capacidade de criar como nos encontramos, infelizmente, hoje: num mundo estancado de criação que apenas pode se dedicar a examinar o que Spengler chamava de produzido, produto, mas que não tem mais capacidade de produzir a não ser no setor da técnica e no da ciência ( no setor de classificação, de exame) e não na sua parte criadora.

A Escolástica, que foi sucessora do pensamento grego e que chegou a ter vultoseminentes, depois do surgimento de um Santo Anselmo, de um Alexandre de Hales, de um São Boaventura, de um Duns Scot, de um São Tomás de Aquino e, finalmente, da Escola de Coimbra com seus grandes filósofos, e de Salamanca, representados por duas figuras do pensamento desta época, Pedro da Fonseca e Francisco Suarez, entrou num certo recesso, numa luta estéril de escolas onde as tentativas criadoras foram parcas.

O Cristianismo também pode ser visto por dois ângulos: estamos vivendo o cristianismo de Pisces (peixe) e já prenuncia-se o de Aquário. Peixes foi o símbolo dos cristãos porque eles se procriam sem conjunção carnal, a fêmea põe os óvulos e o macho, depois, os fecunda. Cristo foi tomado como o simbolizado deste símbolo. Aquário, na concepção dos antigos, tem o sentido mais social, se observarmos o de pisces vemos que é um cristianismo individualista, que busca a salvação pessoal, não se propondo a salvação das coletividades. O de Aquário, é a salvação das coletividades, é fundamentalmente o amor do homem com o seu semelhante, com o próximo, que é a caridade.

Ele só é possível dentro das condições em que vivemos, pois temos a causa material (no sentido aristotélico), a formal que seria a cristã, a final seria o bem coletivo, além da salvação individual para os que tiverem crenças religiosas, e encontraríamos a causa eficiente, dependente da nossa vontade, como seres livres capazes de realizar esta idéia.

Este cristianismo, portanto, seria uma possibilidade para nós e que poderia estancar a nossa decadência, abrindo as portas para uma “nova visão do mundo” em que o homem compreendesse que o seu dever é realizar o máximo de bem aqui para que mereça, fora deste mundo, alguma coisa.

Para os que não crêem, para os que não tem a crença e a fé já, que esta não é algo que se fabrique, que se imponha, mas nasce espontaneamente no coração humano, mesmo aqueles que não tem a fé estariam, no entanto, neste cristianismo, lutando pelo bem coletivo, pelo bem de todos, principalmente pelo do servidor, do homem simples, do trabalhador da nossa época que nunca, como agora, foi tão desmoralizado. Os trabalhadores nunca constituíram uma classe revolucionária, ao contrário, foram sempre os que mais auxiliaram as reações na História. Mas, também, quando chega a esta degenerescência pouco adianta auxiliá-lo e esperarmos um gesto de gratidão porque, aqueles que maiores benefícios fizeram a essa massa serão os mais combatidos, os mais perseguidos e, no entanto, os demagogos, os que melhor a exploram, que sempre lhes dão migalhas, terão a aprovação das mesmas multidões.

Assim se deu com as multidões em Roma, na Grécia, na decadência egípcia, que sempre apoiaram os que não lhes davam nada, mas que tinham a habilidade de lhes dar migalhas.

Estes são os aspectos gerais da decadência. Precisamos é ter uma consciência deste estado e compreendermos que, pelas nossas condições históricas, somos capazes de dar uma possibilidade nova ao mundo, mas não devemos desmerecer-nos tanto como até então o fizemos, pois sofremos de um colonialismo passivo, que é o mais triste dos colonialismos.

É o que consiste em não dar valor as nossas próprias possibilidades e só admitir que é grande aquilo que vem de fora, consequentemente nos desmerecemos, e é preciso que nos estimulemos, que tenhamos fé em nós.

O Brasil, pelas suas condições históricas, porque é um país que recebeu os povos de todos os quadrantes do mundo e conseguiu dar uma convivência entre todos, a mais harmônica que se conhece na História, pois não há entre nós nenhum conflito de caráter racial ou de caráter étnico, isto é raro, e daí que este povo poderá lançar uma visão ecumênica, uma concepção universal, porque qualquer ciclo cultural que se forme hoje, no mundo, tem que ser ecumênico, universal, porque a ciência está abrindo as fronteiras, enfim o conhecimento é universal, por mais que os políticos cerrem as fronteiras, façam muros da vergonha, cortinas de aço, o conhecimento está penetrando, está atravessando e vai além, e este mundo se tornará num só.

Nós, brasileiros, somos capazes de viver o equilíbrio dentro do heterogêneo e seremos capazes de unir os opostos que se analogarão numa concepção universal.

Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro Convivium, 1964 – A Crise no Mundo Moderno.

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