Mário Ferreira dos Santos – BRASIL — UM PAÍS SEM ESPERANÇA?

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BRASIL — UM PAÍS SEM ESPERANÇA?

Homenagem Póstuma

“Brasil — Um País sem Esperança?” é um manuscrito que nos deixou Mário Ferreira dos Santos, falecido em 11 de abril de 1968, aos 61 anos de idade. Publicamos este manuscrito inédito como homenagem ao conhecido Filósofo brasileiro, autor de mais de 70 obras filosóficas. Contendo alguns aspectos fenomenológicos do homem brasileiro, a presente pesquisa fica inserida na I Dimensão do Tema geral da semana Filosófica, como uma valiosa contribuição para a nossa reflexão construtiva.

O manuscrito foi elaborado nos anos de 1964/65, quando declarava o Pensador: ” . . . idéias pouco construtivas invadem o ambiente cultural brasileiro” e ” . . . atravessamos um dos momentos mais difíceis de nossa história” . Por conseguinte, o trabalho deve ser interpretado, colocando-se no quadro das circunstâncias daquela época.

Considerando a falta de preparo intelectual e cívico de nosso povo e desejando levar, sobretudo à juventude, o conhecimento de nossa realidade, o Prof. Mário Ferreira dos Santos escreveu esta obra como parte da coleção: “UMA NOVA CONSCIÊNCIA”, cuja finalidade era abrir novos horizontes à nossa consciência, uma consciência do Brasil. Ela seria completada com a obra: “Brasil, País de Exceção”, em uma seqüência de estudos referentes a nossa terra, que revelaria o caráter de excepcionalidade que é peculiar ao Brasil. Após uma análise em profundidade, quis finalizar com um vasto estudo concreto da realidade brasileira. Mas, infelizmente, só uma parte do manuscrito ficou terminada.

A morte surpreendeu o Pensador em seu trabalho. Entretanto, o que conseguiu no campo editorial, numa luta insana para despertar em cada brasileiro o interesse pela cultura, especialmente pela Filosofia, é a prova cabal de seu amor pelo saber. Justifica, pois, a homenagem póstuma que prestamos ao Pensador,
que dedicou quase 40 anos à atividade filosófica. 

I — PANORAMA GERAL DO MUNDO E DO BRASIL

  A perplexidade do homem moderno em face do panorama do seu mundo, que se apresenta para ele não só comparando-o com o passado nem com as possibilidades do futuro, mas também, sobretudo, quanto à realidade do presente, é um tema que preocupa a todas as consciências no momento atual.

O desenvolvimento que verificamos no decurso da História, desde g, Idade Média, através do Renascimento, e da Idade Moderna, chamada a Idade Contemporânea, verificamos, sobretudo no Ocidente, que, à proporção que o ser humano foi encontrando soluções de cará-ter técnico e científico, que beneficiaram sumamente as populações e resolveram inúmeros de seus problemas, contudo as grandes e mais profundas preocupações continuaram de pé. O homem não conseguiu resolver a seu contento aqueles mesmos problemas que aguçavam a sua curiosidade, que desafiavam a sua inteligência, no referente não só ao sobrenatural como também quanto a sua própria realidade.

Sem dúvida nós observamos uma linha ascensional impressionante, que se deve ao progresso científico das grandes descobertas, não só sobre o nosso planeta como sobre o universo inteiro, como também as tremendas expansões dentro da própria alma humana, invadindo-lhe os mais recônditos lugares, onde parecia ser impossível que nós, com os meios de que dispúnhamos, seriamos capazes de penetrar; mas, simultânea e paralelamente ao desenvolvimento desses conhecimentos e dessas conquistas — porque a ciência se transformou, na mão do homem ocidental, numa técnica de domínio das coisas, do mundo e do próprio homem — os problemas mais agudos, mais exigentes, as perguntas que lhe aguçaram a curiosidade através dos tempos, continuaram em pé, não encontrando respostas satisfatórias de modo suficiente a apaziguar o seu espírito.

E, à proporção em que ele foi encontrando soluções para uma série de problemas de caráter técnico-científico, sua inquietação permaneceu e permanece, no referente ao que ele é, ao que ele significa, qual o seu verdadeiro papel e também o que o ultrapassa, o que o transcende, que continua exigindo-lhe respostas, um reexame das respostas religiosas e das respostas filosóficas, já que ele sente que a própria ciência não seria meio suficiente para lhe dar a solução desejada.

Também o aumenta de bem-estar, as conquistas materiais, que pareciam ser suficientes para dar ao homem um estado de tranqüilidade, de segurança, aumentaram a sua própria insegurança e ampliaram a faixa de preocupações; e o homem verificou que a paz, a verdadeira paz, a mais desejada, a mais profunda, não era alcançada em nenhum setor, nem no mundo econômico, nem no mundo sociológico, nem no mundo psicológico, nem no mundo religioso, nem no mundo místico.

Sem dúvida, não há conceito de que todos usem tanto e tão poucos saibam o que realmente significa como o conceito de paz. Para muitos a paz nada mais é que a ausência da luta cruenta entre os seres humanos, organizados ou não; a paz seria apenas a ausência do choque dos contrários, seria a ausência das oposições, seria apenas a estagnação, o que não é genuinamente o que se deve entender por paz.

Ora, se se estudar devidamente este conceito, como muitos o fizeram, e o fizeram em profundidade, verifica-se que ele realmente se funda na vontade e implica uma tranqüilidade na ordem, não, porém, necessariamente na aniquilação dos opostos, nem do choque das antinomias, nem do pólemos das oposições.

A paz implica, necessariamente, a concórdia; implica a união, ou, pelo menos, a cooperação dos opostos, para alguma realização, para a consecução de algo que não venha em prejuízo da natureza dos opostos; ou em suma, para atingir resultados que sejam convenientes à natureza dos oponentes. Se a paz entre os homens não pode evitar a nítida compreensão da justiça, também a paz dentro do homem não pode evitar a mesma compreensão.

Não nos adianta permanecer dentro de uma paz mera-mente aparente, uma paz dos túmulos. O que nós desejamos, e real-mente o desejamos, e é o que realmente devemos desejar, é a paz que se estabelece na feliz cooperação dos opostos, de modo a que os resultados obtidos sejam convenientes, benéficos aos termos que entram nessa oposição, e que possam, deste modo, não só ampliar os benefícios próprios, como estabelecer, também, bases mais seguras para a sucessão dos acontecimentos; não só dos oponentes, como do que venha a decorrer no desenvolvimento do tempo. Mas uma paz mais verdadeira e mais desejada que aquela que apenas nos tranqüiliza dentro do campo das coisas de que necessitamos, que cria uma tranqüilidade na ordem de consecução desses mesmos bens, mas, sobretudo, aquela paz que tranqüiliza a nossa mente, que dá serenidade ao homem, interiormente, aquela paz que sobrevêm quando o ser humano consegue compreender a si mesmo, saber qual o seu papel, ter uma noção clara do seu destino e ter confiança de que o que realiza, o que propõe, o que empreende não venham trazei amanhã, resultados adversos, perniciosos. A verdadeira paz é aquela que se funda, não só nos corações, não só na afetividade humana mas, sobretudo, na mente superior do homem, nas suas idéias, nas suas concepções, na sua maneira de interpretar as coisas.

Realmente esta foi sempre a aspiração do homem; ele aspirou à paz em toda a gama de suas possibilidades, e alcançar um desfecho que fosse a plenitude da tranqüilidade de sua alma, de seu espírito, de sua mente; aquela paz prometida na bem-aventurança de todas as grandes religiões dos ciclos culturais superiores, aquela paz que consiste, propriamente, no termo final anelado por todos os homens que se dedicaram ao estudo das nossas visões transcendentais.

O que é fundamental no ser humano é, sem dúvida, o sentir-se um ser inseguro e também o que é mais fundamental do seu anelo é a segurança. A insecuritas, tema tão profundamente analisado pelos místicos da Idade Média, é o index mais perfeito do que somos em nossa última realidade.

Porque somos deficientes, contingentes, sujei-tos aos azares dos acontecimentos, dispondo de meios defensivos mínimos, e ainda agravados pela nossa ignorância que faz com que nos sintamos inseguros, não só quanto ao nosso presente, mas, sobretudo, quanto ao futuro; este estado de insegurança nos acompanha desde que nascemos e certamente desde que fomos gestados. Mas depois que passamos por aquele estágio de certo amparo e de certa segurança de nossa vida intra-uterina, o próprio trauma do nosso nascimento a nossa súbita penetração no mundo que nos parece hostil, inóspito, contrário, deve-nos marcar profundamente este sentir da nossa insegurança e, desde então, não mais nos abandona, está presente em todas as nossas aspirações, está presente em todas as nossas realizações, porque tudo o que o homem fez, tudo quanto o homem construiu, tudo quanto imaginou tem sempre o estigma, da sua insegurança, a exigir-lhe soluções que possam diminuir e até terminar esse estado em que ele se encontra de verdadeira trepidação, de verdadeiro medo ante o seu estado atual e sobretudo ante o seu futuro.

O homem é, assim, também filho da insegurança. Não pode nem deve desprezá-la, porque não só é uma exigência invariante da sua natureza, como também ela constantemente o interroga e o açula para que encontre a solução de um instante que perdure, que ultrapasse o presente, que invada o futuro, e que lhe assegure aquele estado de equilíbrio, de concórdia, e de reconciliação que o homem deseja.

Não se poderia compreender essa ansiedade pela paz que anima todos, em todos os tempos, se nós não fôssemos, por natureza, seres inseguros, seres dominados pela insegurança, e também seres que, ao perscrutar o futuro, nem sempre dispõem de meios suficientes para poder saber o que devemos fazer para evitar os perigos que nos ameaçam, tanto os reais como, sobretudo, os imaginários.

A psicologia de profundidade deve, mais do que nunca, preocupar–se com esse tema, porque se, ao mesmo tempo, o ser humano se apresenta para nós como uma entidade contraditória, já que é sem dúvida anelante de paz e tranqüilidade, ao mesmo tempo é agressivo e contendor, ao mesmo tempo é contricante, parece-nos que ele se balança entre duas tendências primordiais, fundamentais, originárias: uma que aspira à paz, à tranqüilidade, à concórdia, e, ao mesmo tempo, a que aspira à luta, à discórdia, ao ódio, ao pólemos.

Não foram poucos os filósofos que, ao se dedicarem a esse estudo, estarreceram-se ante a grande messe de razões favoráveis à paz, mas também a grande messe de razões favoráveis à guerra. Viram que o homem era um ser que se balançava entre motivações opostas, umas que buscavam a concórdia, outras que aspiravam pela discórdia.

Então não souberam resolver esse problema ante essa oposição, concluindo uns que o homem é por natureza um ser pacífico e outros que o homem é por natureza um ser guerreiro. A verdade, porém, a mais profunda verdade psicológica, é aquela que sintetiza os opos-tos, que participa dos opostos, que é partirn partim.

É o homem, simultaneamente, um ser aspirante de paz, e um ser aspirante de guerra, um ser que aspira à concórdia e também à discórdia, um ser que ama e um ser que odeia. E essas oposições não podem ser liquidadas; todas as tentativas de destruir uma em benefício da outra malograram, porque quiseram violentar o que era da condição do próprio homem.

Em face dessa realidade, só nos cabe procurar a solução cooperadora entre os opostos, aquela que possa encaminhar-nos de modo que eles sejam convenientes à própria natureza do homem, não só considerado na sua estaticidade, mas também na sua dinamicidade, na sua cinematicidade; não só como indivíduo, mas também como componente de uma totalidade, de um grupo, de uma série, de um sistema e do universo cultural.

Essas oposições colocam o homem aparentemente numa situação insolúvel e parecem indicar que jamais encontrará uma forma de fazer coincidir os opostos numa realização cooperacional. Ê um postulado que exige uma demonstração apodítica, uma demonstração fundada em princípios sobre os quais não possa pairar a menor dúvida. E isto, esta demonstração, nenhum dos partidários dessa posição até hoje conseguiu fazer dentro das exigências rígidas,; de uma demonstração profundamente lógica e dialética.

Muitos poderão dizer, contudo, que também a prova dessa coope-ração entre os opostos não foi feita. Mas essa cooperação entre os opostos não exige tal prova, porque tem se evidenciado pela própria experiência humana. Temos encontrado na vida social humana a oposição entre os contricantes, o pólemos, contribuindo para realizar obras proveitosas. Contudo, nós não podemos deixar de reconhecer que a época em que nos encontramos se caracteriza por esse aspecto; o homem de hoje, como o homem de sempre, de todas as eras, aspira pela paz e, no entanto, também tudo faz para fomentar a guerra, a luta, a discórdia.

E ao verificar esse estado de coisas, e não sabendo como dar uma solução às suas condições, a essa inevitabilidade dos opostos ele entra em estado de desesperança, ou seja, não espera, não aguarda, não se detém antes de tudo com a certeza de que lhe dará de modo seguro aquele estado de paz por ele desejado. Esse é o verdadeiro panorama que encontramos no mundo atual; e a heterogeneidade, que ele revela, é apenas de caráter inconsciente.

Em alguns povos notamos que o ímpeto guerreiro ou pacífico é mais acentuado que em outros mas, extensivamente, se há um impulso de discórdia, de ódio, de guerra, há uma profunda aspiração da paz, que vem relatado, testemunhado, desde que temos consciência de nós mesmos dentro da história, por todos os movimentos de aspiração por um mundo melhor, em que os homens possam olhar face a face, olhos sobre os olhos, os braços estendidos de uns para os outros num amplexo fraternal, e que possam dizer com o coração e com as palavras: irmãos, somos amigos, trabalhemos juntos, construamos juntos um mundo melhor para todos nós.

Essas palavras incluem dentro delas uma longa problemática, que vamos começar agora a analisar nos próximos capítulos, para depois, de posse desses elementos tomados analiticamente, aproveitá-los para fazer um estudo concreto da nossa realidade, da realidade brasileira, e podermos dar uma resposta a essa pergunta: Brasil, um país sem esperança? [Continua…]


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